Vinícius não me ligou nem mandou mensagem no dia seguinte. Ele estava me dando tratamento de silêncio? Me beijar foi tão repugnante assim?
— Foi isso o que aconteceu, Vanda — contei, enfiando pipoca doce na boca. — Vinícius agiu exatamente do jeito que te falei, ele me beijou no portão de casa e depois surtou.
— Será que o Vinícius é casado ou tem uma namorada? — conjecturou, enchendo minha cabeça com ainda mais dúvidas e arrependimentos.
— Era só o que me faltava — explodi indignada. — Se for isso eu arrebento a cara dele!
— Calma, só estou deduzindo. — Ela voltou atrás, vendo que eu fiquei abalada.
Fazia tempos que eu não jantava com um homem que conhecia tão pouco e ainda por cima trabalhava junto comigo. A última vez que me envolvi com um cara na livraria quase acabei demitida por justa causa.
— O Vini não vem aqui hoje? — Luan surgiu na sala, esfregando sonolentamente os olhos.
— Não, nem hoje e nem nunca mais! — despejei, atacando raivosamente a pipoca.
— Preciso ir, gatinha. — Vanda tocou meu ombro. — Tente não pensar muito nisso, acho que você precisa de amigas. Não tem ninguém que possa chamar pra vir aqui? Me sinto m*l em te deixar nesse estado.
— Você sabe que minhas únicas "amigas" — fiz aspas com os dados —, são do trabalho e eu não posso contar que beijei um cara de lá. Sabrina é uma opção, mas tenho medo de todo mundo descobrir se eu contar.
— Você também precisa fazer amizades — revidou, bagunçando meu cabelo.
Amarguei minha solidão vendo Luan jogar videogame, enquanto fazia as unhas dos pés. Pensando mais do que nunca se realmente Vinícius era casado ou tinha alguma mulher em sua vida.
— O que aconteceu, mana? — Luan pausou o jogo e veio até mim, vendo que eu estava abatida e mais quieta do que de costume.
— Nada demais, problemas da vida adulta — murmurei, me acabando no BK que pedi pelo Ifood.
Meu irmão comeu os dois que pediu em menos de quinze minutos, mas eu quis tomar um banho antes para ver se me animava.
— Tem algo a ver com o Vinícius? — perguntou curioso. — Mandei mensagem e ele ainda não me respondeu.
— Mais ou menos — respondi reticente.
Não queria falar m*l do Vinícius para o Luan. Ele sumir da minha vida não significava que não gostasse do meu irmão de verdade. O erro foi eu me apaixonar.
— Eu não sou mais criança — resmungou, cruzando os braços.
— Eu sei — baguncei seus cachos de leve. — Só não quero falar disso, tá?
Ele assentiu e veio para o meu lado, então voltamos a assistir Liga da Justiça Jovem. Luan deitou nas minhas pernas e passamos o resto da noite somente nós dois. O que era uma coisa boa. Eu adorava passar um tempo com meu irmão, quando ele queria, nessa idade nem sempre Luan era sociável comigo. Mas isso não significava que me amasse menos.
Acho que sempre seria: eu e ele contra o mundo.
(...)
Minhas férias voaram, mas pelo menos consegui resolver tudo o que precisava. Luan já estava de aparelho e agora era só seguir a manutenção. Vinícius não apareceu na livraria até agora e todo mundo parecia estranhamente mais à vontade. Aliás, minha frustração era tanta, que nem liguei para os funcionários agindo como se eu fosse a única a não saber de alguma informação importante. Ele simplesmente esqueceu de mim, do nosso beijo, da nossa amizade. Vinícius desapareceu sem me dar qualquer explicação plausível para isso. Mesmo depois de ter dito que precisávamos conversar sobre algo importante. Eu lembrava desse detalhe, ainda que a minha memória fosse falha por causa do vinho. Não havia desculpa alguma para o que ele fez, eu me sentia usada.
Trabalhar sem distrações foi bom, menos a parte que ninguém me contava o que estava acontecendo ali. Eu continuava intrigada com os cochichos pelos corredores, mas o fato do Vinícius não ter me mandado uma mensagem sequer, eclipsou o meu anseio por respostas. Pelo menos por enquanto, eu precisava lidar com o fiasco da minha tentativa de seduzir um homem. Além de tudo. Infelizmente, nem mesmo a Sabrina surgiu para que eu pudesse arrancar informações. Ela estava em outro setor porque alguns funcionários não tinham voltado de férias e era necessário cobrir o desfalque.
Na hora de ir embora, encontrei alguns funcionários do noturno conversando na saída leste da livraria. Acenei e continuei andando, até ouvir algo que atiçou minha curiosidade.
— Quem acreditaria que o dono estaria trabalhando aqui pra ficar de olho na gente? — Um deles mencionou, fazendo meu corpo girar automaticamente.
— Ainda bem que eu não tive contato com ele, imagina reclamar do trabalho para o funcionário novo e ser demitido? — retrucou o garoto menor.
— Desculpe, mas do que estão falando? — perguntei interessada. — O dono está, tipo, infiltrado? Quem é?
— Um tal de Vinícius — contou o que falou primeiro.
— Ah! — Minhas pernas amoleceram.
Senti a visão ficando turva, tudo começou a rodar em torno de mim e então não vi mais nada.
(...)
Abri os olhos lentamente e estava na área de lazer da livraria, Vinícius conversava com o senhor Arthur e Paloma sobre algo que eu não conseguia ouvir direito. Apurei os ouvidos, focando a atenção naquelas vozes e finalmente consegui identificar o que diziam:
— Vou levá-la ao hospital, depois conversamos sobre o outro assunto — informou austero. — Peço que não comentem com ninguém e peça para a Sabrina me encontrar amanhã assim que chegar, junto com você, Paloma, por favor — ordenou, ainda que educadamente.
— Sim, senhor Vinícius. — Paloma acatou, saindo da sala.
Tornei a fechar os olhos, porque não conseguiria encará-lo. Não após tudo o que eu disse e fiz, como ele não me demitiu ainda? Estava esperando uma oportunidade? Então todas as estranhezas foram entrando nos eixos: os atrasos, a segurança de que eu não seria demitida, o tal poder de persuasão. Meu rosto queimou, eu não saberia dizer se de vergonha ou raiva por Vinícius ter me enganado desse jeito.
Levantei com toda a elegância e orgulho, mas acabei sentindo tontura. Vinícius me amparou imediatamente, causando uma sensação de calor e ao mesmo tempo desalento no meu coração. Por que ele me enganou daquele jeito? Por que sumiu sem me explicar nada?
— Você está bem? — perguntou rente ao meu ouvido, infelizmente, me arrepiando.
— Estou ótima — confirmei sendo sarcástica. — Quero ir para casa.
— Tenho que te levar ao médico — ratificou, segurando minha cintura com cuidado. — Precisamos conversar também.
— Não temos nada para conversar — objetei, me soltando de suas mãos. — Aliás, já que é o dono de tudo, posso falar diretamente com você. Quero a minha demissão! — explodi sem pensar nas consequências.
— Calma, Mariane — pediu, mais uma vez com aquele tom condescendente que eu odiei naquele contexto. — Não tome nenhuma decisão precipitada sem ouvir o que tenho a dizer.
— Não quero ouvir nada que tenha a dizer — rebati, desejando sumir daquele lugar. — Você teve dias para me procurar e explicar tudo. Aquele papo de "sou rico" do nada poderia ter sido detalhado de um jeito que eu compreendesse e não achasse que se tratava de uma piada. Mas você preferiu me deixar no escuro, preferiu me beijar e depois desaparecer sem explicação alguma. — Comecei a cutucar seu peito definido com a ponta do indicador. — Agora é tarde demais, por favor me mande a carta de demissão por e-mail. Vou assinar e enviar de volta. Nunca mais me procure, é só isso que eu te peço. Não quero mais saber das suas mentiras, não quero mais olhar para esse seu rostinho cínico e lembrar que mentiu pra mim durante semanas. — Fui me afastando, só que Vinícius segurou delicadamente meu pulso.
Puxei com força evitando que ele continuasse me tocando de alguma forma.
— Eu não posso fazer isso, sei que estraguei tudo. Mas não posso permitir que se demita desse jeito, sei que não gosta de trabalhar aqui. Só que isso é injusto, você precisa desse trabalho — lembrou, o que me causou um desconforto enorme na boca do estômago.
— Ah é, esqueci que eu me abri com você e agora você sabe de tudo. — Levantei os braços, demonstrando meu desamparo. — Você sabe a vida medíocre que eu levo e ainda assim preferiu me enganar. — Fiz uma pausa, puxando na memória a lembrança de quando jantamos juntos. — Não me diga que aquela casa em que jantamos não era a sua de verdade.
Ele confirmou minha suspeita, fazendo que não com a cabeça.
— Desculpa, a casa era do meu amigo. Te levei lá porque seria melhor, mas a minha não fica longe dali — explicou, me enojando.
— Não me procure mais, é só o que eu te peço — ordenei enfática. — Adeus, Vinícius.
— Mari, me dá uma chance de explicar — pediu, quase suplicando. — Eu nunca tive a intenção de te enganar, muito menos sumir daquele jeito. Precisei resolver algumas coisas urgentemente, eu te contaria assim que chegasse, não queria que fosse por telefone ou mensagem. Pretendia te contar antes, mas tive medo de você me ver de outra forma igual a Sabrina. — Ele mordeu o lábio inferior e então a minha ficha caiu.
— Ela sabia também? — perguntei com raiva impregnada em cada célula do meu corpo — Você pediu pra Sabrina não me contar nada?
— Pedi, porque eu queria te dizer pessoalmente em um momento oportuno — explicou, suspirando. — Ela descobriu e queria te contar de todo jeito. Eu que não deixei — Outra pausa — Olha, sei que está com raiva de mim, mas não peça demissão. Tire alguns dias de descanso e quando estiver mais calma...
O cortei antes que concluísse a frase.
— Cala a boca — ordenei, dando as contas. — Só cala a boca e me deixa em paz! — Sai batendo o pé.
Ao contrário do que imaginei que Vinícius faria, ele não me seguiu e isso destroçou ainda mais o meu coração. Eu pensei que ele fosse correr atrás de mim como nos clichês românticos e insistir para explicar o que tudo aquilo significava. Então lembrei que nos conhecíamos há um pouco mais de um mês e eu não deveria significar nada para ele.
Eu era apenas uma vendedora que Vinícius se envolveu por qualquer motivo banal que eu não conseguia compreender e agora não fazia sentido continuar com isso.