Capítulo 11

2761 Words
Eu estava no escritório do senhor Arthur, pedindo as contas. Entretanto, pelo que ele me explicou, pelo menos seria demitida com todos os meus direitos. Melhor assim, apesar de não querer nada do Vinícius, não podia bancar a orgulhosa. Eu tinha o Luan para cuidar e agora precisaria procurar outro trabalho antes que o auxílio desemprego acabasse. — Tem certeza que quer a demissão, Mariane? — perguntou, parecendo triste. — Você é uma ótima funcionária, lamentamos sua perda — concluiu em um tom condescendente. — Estou certa disso — confirmei. — Obrigada por liberar meus direitos trabalhistas. Tentei forçar um sorriso. — O senhor Vinícius exigiu que eu fizesse dessa forma — explicou, apenas assenti. Ignorando a sensação de ter feito papel de i****a me envolvendo com ele. Lembrei que Sabrina tentou me alertar, apesar de não poder me dizer a verdade e decidi agradecê-la. Eu não queria ficar com raiva dela também, porque a culpa foi toda minha em não ouvi-la. — Obrigada — agradeci, querendo encerrar logo o assunto e sair dali. Assinei alguns papéis, apertei educadamente a mão do senhor Arthur e sai da sala. Encontrei Sabrina no corredor, parecendo aflita e agoniada. — Mariane, desculpa — foi dizendo. — Eu não podia contar! — Tudo bem, Sabrina — afirmei para acalmá-la. — Eu que não te dei ouvidos e me deixei ser enganada. — Precisamos conversar. — Ela disse, com os olhos maiores. Parecia ter um problemão para resolver, então a lembrança de ontem, onde Vinícius intimou Sabrina e a Paloma, me veio à mente. A curiosidade incomodou, mas fingi que não. — Como amigas — frisou, me pegando de surpresa. — Claro, fora daqui — acrescentei, porque não pisaria mais meus pés naquela livraria. — Podemos marcar qualquer dia para tomar um café — propus, Sabrina fez que sim com a cabeça e então se jogou no meu pescoço. — Sempre quis ser sua amiga, mas você não faz o tipo que dá a******a. — Fiquei surpresa demais com aquele gesto, seguido de tais palavras. — Não queria que ficasse chateada comigo por não ter contado o que descobri e agora que vai embora... Vou sentir sua falta. Acabei correspondendo ao abraço, porque de certa forma era uma despedida. — Podemos mudar isso. — Abri um sorriso e Sabrina sorriu de volta. — E por incrível que pareça, acho que também vou sentir sua falta. Eu não queria mais ser tão isolada e seletiva, percebi que estava completamente sozinha no quesito amizades e isso piorou minha situação emocional. Observei Paloma vindo em nossa direção, ela tocou sutilmente às costas da Sabrina e me cumprimentou com um aceno de cabeça. — Vamos — chamou educadamente. — Vinícius está esperando. Os olhos da Sabrina se arregalaram levemente e eu me afastei, sem entender o que estava acontecendo ali. Quando eu estava passando pelo corredor para ir embora, vislumbrei Vinícius na porta de outro escritório. O que ele deveria ocupar agora que se assumiu o dono de toda essa bagaça. Vinícius me olhou com os olhos suplicantes, mas eu passei direito. — Precisamos conversar! — exclamou, suas palavras se perderam porque eu já estava quase no andar de baixo. Vinícius não impediu minha demissão, também não queria pensar muito no que essa decisão significava. Eu agora estava desempregada e não fazia a mínima ideia de como recomeçar. Além de tudo, meu coração não estava exatamente bem. Era ridículo assumir que eu sentia algo por ele naquele pouco tempo. Eu sabia que não deveria me deixar envolver com ninguém da livraria, principalmente o dono. Contudo, não adiantaria chorar o leite derramado, eu tinha que deixar o acontecido para trás e focar na busca por um novo emprego. (...) Eu estava em casa, Vanda alisava meus cabelos enquanto eu explicava o motivo de ter pedido as contas. — Ele simplesmente me enganou esse tempo todo — contei, sentindo meu coração doer. — Sabrina tentou me alertar, mas eu fui boba e acabei me envolvendo. — Essa eu não imaginava, passou muitas coisas na minha cabeça para ele não ter aparecido mais. Menos que o Vinícius era o dono da livraria onde você trabalhava — respondeu, sem deixar de acarinhar meus cabelos. — Agora eu estou perdida, preciso encontrar outro emprego e comecei a me arrepender de ter pedido as contas por causa daquele i****a! — exclamei, dando um soco na almofada. — Mariane — Vanda me chamou. — Você vai conseguir, é a garota mais esforçada que eu conheço. E se precisar de ajuda, estou aqui. Sabe muito bem que eu jamais deixaria você e o Luan desamparados — concluiu, acalmando meus temores. — Obrigada, Vanda — agradeci emocionada. — Não sei nem o que faria sem a sua ajuda. — Pode contar comigo para o que precisar. Concordei com um leve aceno de cabeça e me levantei, eu precisava tomar as rédeas da situação e da minha vida. Não poderia ficar choramingando para sempre, eu não era assim. Nem quando perdi meu pai de um jeito horrível ou quando tive idade o suficiente para saber que praticamente matei minha mãe, me entreguei ao desespero. Agora não seria diferente. Vinícius foi um babaca comigo? Foi sim, tomei a decisão de pedir as contas ao invés de simplesmente ignorá-lo e agora precisava recomeçar do zero? Mas que fosse! Se é o que tenho que fazer, é o que farei. — Chega de choramingar, preciso procurar emprego. — Respirei fundo e fiquei de pé. — Vai com calma, você pode descansar a cabeça um pouco. — Vanda aconselhou. — Pega uns dois meses de seguro, pelo menos. Já pensou em fazer b***s por enquanto? Soube que o dono da cafeteria aqui perto precisa de uma atendente em meio período, porque a esposa está grávida. — Seria perfeito! — Consegui me animar ao ouvir isso. — Acho que vou lá ver se consigo informações e tomar um café, faz tempo que não ando pelo bairro. Quer vir comigo? — Convidei, pois as crianças estavam na escola e Vanda não trabalhou hoje. — É assim que se fala, garota! — Ela sorriu e eu corri para o quarto a fim de melhorar meu estado lamentável de pranto e lágrimas. (...) Comecei a trabalhar quase que imediatamente, porque a esposa do senhor Raimundo já estava com a barriga enorme e não conseguia mais se locomover direito. Seria perfeito para mim, ficar perto de casa e poder passar a tarde com o Luan. Como diria o ditado: alguns males vinham para o bem. Enquanto isso eu tentava não pensar no Vinícius e assim os dias foram passando rapidamente. Até que Sabrina marcou um encontro comigo no shopping. Pensei bastante sobre o que me disse, na questão de eu não dar a******a para ela se aproximar. Ponderando sobre minhas atitudes, reconheci que era verdade. Eu era muito fechada na livraria, tratava todos educadamente, mas nunca fui de conversar muito ou de dar i********e para ninguém. Até Vinícius aparecer e eu permitir que ele entrasse na minha vida daquele jeito repentino. Bem feito para mim, eu deveria aprender com meus erros dali em diante. Quando cheguei no ponto de encontro, Sabrina já estava lá mexendo no celular. — Sabrina. — Chamei seu nome e a vi levantar a cabeça para me encarar. — Você veio! — exclamou surpresa. — Claro que eu viria — devolvi, ofendida. — Não te daria um bolo! — Que bom. — Ela sorriu, pegando meu braço. — Vamos ao Starbucks? — Pode ser — concordei, apesar de já estar cheia de café por passar bastante tempo lendo na cafeteria agora que trabalhava em uma. Sabrina parecia mais animada, como se tivesse resolvido em partes o que quer que a incomodasse. Pedimos dois cafés e nos sentamos mais ao canto da cafeteira. Sabrina girava o copo de café nas mãos de um jeito ansioso e eu não sabia como quebrar o gelo. — Queria pedir desculpas por ter escondido o que eu sabia sobre o Vinícius — iniciou, seus ombros agora pareciam tensos e seus olhos castanhos um pouco maiores. Ela era linda, tinha cabelos cacheados enormes, um piercing na sobrancelha, além de ser toda descolada. — Sei que não ficou chateada comigo, até porque não éramos muito próximas na livraria. Ainda assim me senti culpada por ter escondido o que descobri. — Não esquenta com isso, a culpa foi minha por não te dar ouvidos — informei, tentando ignorar a sensação r**m no peito. — Sabe que o Vinícius gosta mesmo de você, né? — perguntou na lata. — Ele te pediu para dizer isso? — devolvi querendo não ficar irritada. — Não exatamente, mas dá para perceber. — Sabrina deu de ombros. — Sei que pode ter sido chato o que aconteceu, mas eu acho que você também gosta dele. Por que não dá uma segunda chance? Respirei fundo. — Por que o Vinícius me escondeu algo importante e me enganou, se omitiu sobre ser o dono da livraria, o que mais pode fazer em um relacionamento? — perguntei retoricamente. — Não sei se confio mais nele. — Eu entendo. — Sabrina respondeu com pesar. — Ele é um cara bacana, me deixou ficar com a vaga de supervisora agora que a Pam vai ser transferida para a matriz. Eu estava com medo de ser demitida quando você foi assinar os papéis, estava agitada com o que aconteceu também pensando que ficaria brava comigo. Mas no fim a reunião era sobre uma proposta para eu substituir ela. — Fico feliz por você e eu só fiquei brava com o Vinícius, ele é o culpado de tudo — observei, dando um gole no meu café. Ela suspirou. — Eu estava nervosa e com medo de não dar conta, vou ter muito mais responsabilidades agora, além de treinar o pessoal. — Mordeu o lábio inferior. — Mas vai ser bom por causa do aumento de salário, as coisas na minha casa não estão nada bem. — Sabrina baixou os olhos, rodeando o copo de café nas mãos. — Se quiser desabafar, estou aqui. Ela me olhou, na certa refletindo se falava ou não. — Tá bom — soltou nervosamente. — Meus pais descobriram que eu sou bissexual e está tudo um inferno, ninguém mais tem paz na minha casa. Eu muito menos — despejou, desviando o olhar. — Lamento — falei, porque não sabia o que dizer em uma situação dessas — Deve estar sendo difícil pra você. — Estou pensando em alugar um lugar pra morar até tudo se acalmar, então o aumento de salário veio em um bom momento — ponderou, me fazendo assentir. Realmente não sabemos o que se passa na vida das pessoas ao nosso redor, estamos sempre focando em nossos próprios problemas. Eu não imaginaria que a Sabrina estivesse passando por uma situação assim, ela estava sempre animada no trabalho e geralmente não deixava transparecer suas emoções além da animação e curiosidade já conhecidas por todos. Quem via de fora pensava que Sabrina tinha uma vida perfeita. Diferentemente de mim, que era o mau humor em pessoa, ela sempre via tudo com otimismo. — Se precisar de ajuda pode me pedir, agora eu estou trabalhando meio período em um café e tenho andado menos ranzinza. — Soltei, fazendo-a rir. — Eu sei que sua vida também não é fácil, Mariane — observou seriamente. — Te admiro por ser tão forte. — Obrigada — agradeci comovida. — A vida nos obriga a ser fortes. — Estou começando a entender essa questão — afirmou suspirando. — Meu pai disse que se eu insistir, posso ir embora de casa. É por isso que comecei a procurar um lugar para morar. Eu não tenho pra onde ir ainda e estou tendo que aguentar as provocações dele por não entender uma coisa simples. — Seus olhos começaram a ficar muito brilhantes e eu tive o ímpeto de tocar sua mão. — Sabrina, você quer ficar na minha casa? — propus, mesmo parecendo loucura. — Quer dizer, você vai ter que enfrentar o mundo para ir trabalhar. Mas se quiser ficar comigo enquanto procura alguma coisa... Deixei o convite em aberto. — Sério? — perguntou surpresa — Está sendo um inferno voltar pra casa depois do trabalho e... — Ela parou de falar. — Obrigada, mas eu não te chamei aqui para ser convidada a morar na sua casa. Só queria ter certeza de que não ficou chateada comigo e talvez desabafar com alguém. — Eu sei disso, Sabrina. — Abri um sorriso, permitindo que outra pessoa se aproximasse de mim. — O que acha de assistirmos um filme e depois você pega suas coisas e vem pra casa? O Luan vai gostar da companhia, desde que o Vinícius parou de aparecer ele anda bem borocoxô. — Sei como é. — Ela riu. — Vinícius tem essa coisa de fazer todo mundo gostar dele, até eu quase me encantei. — Sabrina tampou a boca. — Desculpa, é que ele é um gato! — Não temos nada — reforcei, dando risada. — Não precisa se reprimir, também acho ele um gato. Ela riu. — Enfim, obrigada por me ouvir. Eu precisava desabafar ou iria enlouquecer, me sinto mais aliviada depois de conversar com você — Ela sorriu e percebi que tudo o que Sabrina queria realmente era conversar com alguém. Toquei suas mãos em cima da mesa, tentando confortá-la. — Eu não sei como você está se sentindo, ainda assim pode contar comigo — respondi, sem ter certeza do que dizer ou o que Sabrina gostaria de ouvir. — Sei que eu sou fechada e muitas vezes inacessível, mas estou feliz de ter me chamado para conversar. — Você é meio assustadora — Sabrina brincou, um pouco mais à vontade — Fico feliz em saber que poderemos ser amigas de agora em diante. Eu sorri e infelizmente o assunto enveredou para Vinícius em pouco tempo. Sabrina começou a me contar que ele implorou para ela não me dizer nada, porque temia que eu o afastasse quando descobrisse a verdade. Sabrina também pediu desculpas por ter escondido o segredo mais uma vez e tornei a garantir que estava tudo bem. — Eu não quero mais falar sobre ele — informei, tentando mudar de assunto. — Respeito sua decisão. Agradeci com um menear de cabeça e abri um sorriso. — Vamos tentar achar um filme, então? — indaguei, se não ficaria muito tarde. Ela prontamente concordou e passamos o restante da tarde no cinema. Enquanto isso, eu tentava, sem sucesso, não pensar além do que deveria no Vinícius e no fato de ele não ter tentado entrar em contato comigo. Não era assim que funcionava as comédias românticas que eu assistia. Aliás, eu fazia um esforço hercúleo para não lembrar do beijo que trocamos e essa era a tarefa mais complicada e dolorosa para mim. Em todo momento a lembrança me fazia fechar os olhos e desejar não ser tão orgulhosa ao ponto de conseguir assumir que talvez e só talvez, eu estivesse verdadeiramente apaixonada por ele. Além de desejar com todas as forças que Vinícius voltasse novamente para a minha vida. (...) Sabrina chegou com uma mala e um sorriso enorme no rosto. Olhei para a calçada e notei Vinícius aguardando no carro, como se não quisesse incomodar. Meu coração apertou, mas não dei o braço a torcer. — Desculpa, ele insistiu para me trazer quando mencionei que viria passar uns dias aqui. — Sabrina fez uma careta. — Não tem problema — respondi indiferente. — Vai ser m*l educado da minha parte se eu não dizer um oi? — Vai — confirmou rindo. Suspirei e segui até o carro, já era noite e acabei lembrando das vezes em que nos despedimos aqui fora. Quando percebi que estava começando a sentir algo pelo Vinícius, mas ainda não queria assumir para mim mesma. — Boa noite — cumprimentei educadamente. — Oi, Mariane. — Ele me olhou com expectativa nos olhos e talvez algo mais. — Não quero incomodar, só vim deixar a Sabrina e... — o cortei. — Quer jantar com a gente? — convidei num impulso. — Luan vai ficar feliz em te ver. — Se não for te causar problemas — respondeu reticente. — Tudo bem, entra. — Chamei, dando às costas. Ouvi o barulho do alarme do carro, sentindo meu coração acelerar. Não queria dar o braço a torcer de que Vinícius ainda mexia comigo, mas infelizmente não dava para fugir daquela sensação de euforia e contentamento de quando começamos a nos encontrar fora da livraria.
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