Capítulo 3

1654 Words
FELIPE Estar novamente naquela sala era algo que eu imaginava que nunca mais iria acontecer. Depois de tantos anos, a sala que fora minha tinha um novo diretor. Então, era na sala do meu pai que eu estava. Era incrível que ela não mudara nada durante todo esse tempo. Apesar de não me sentir digno em estar lá. Assumir a BG Comunicações era algo que eu sabia que ia acontecer desde que me entendia por gente, mas depois de tudo que acorrera, eu praticamente tinha aberto mão disso. Mas lá estava eu, na sala do meu pai – que seria minha por um tempo. Até que ele acordasse do coma e voltasse para o cargo de CEO que ainda o esperava. Porque ele iria acordar. Ele precisava... Eu precisava que isso acontecesse. Quando sentei na sua cadeira, notei que a minha foto – ainda pequeno, abraçado a minha mãe – estava na mesa à minha frente. Um nó na garganta se formou como se respirar fosse complicado naquele momento e meus olhos embaçaram. Mesmo depois de ter casado novamente, ele nunca fez menção de querer apagar a minha mãe da sua vida. Algo que eu tenho certeza que Safira deve ter odiado. Batidas na porta foram ouvidas e pedi que entrasse quem quer que fosse. Quando cheguei a empresa, perguntei pela assistente do meu pai, mas haviam me informado que ela chegaria um pouco atrasada e que tinha avisado com antecedência. — Senhor Baseggio, bom dia e... A primeira coisa que reparei foi em seus olhos. Um lindo tom de azul me encarava de volta e o que vi ali foi... surpresa? E por que aquela mulher me parecia tão familiar? Eu tinha acabado de chegar no país. — Você... — sua voz saiu num sussurro, mas eu consegui escutar. Além da surpresa – que ainda era evidente em seu rosto –, notei uma certa irritação pela forma que sua voz saiu. — Desculpa-me, mas a gente se conhece? — perguntei, confuso, levantando-me da cadeira. A minha pergunta pareceu deixá-la ainda mais complexa e uma curiosidade enorme se fez presente. Ela era mais baixa que eu, provavelmente um metro e sessenta e seis. Os cabelos estavam num coque comportado. Baixei meus olhos, notando que ela usava um lindo vestido verde escuro. — O senhor não lembra? Foi há menos de uma hora que nos esbarramos... Esbarramos? Sim, eu me lembrava de sair do hospital e me esbarrar em uma mulher. Mas numa cidade enorme como aquela que estávamos, qual seria a probabilidade de nos encontrarmos novamente em tão poucos tempo de intervalo? Ainda mais dela ser a minha mais nova assistente... Ou na verdade, eu era o seu mais novo chefe. — Claro... Manuela, certo? — Perguntei e ela assentiu. — Você já deve saber quem eu sou agora, mas permita-me me apresentar mesmo assim. Felipe, muito prazer. Estendi a mão em sua direção num gesto formal. Percebi que seus olhos foram do meu rosto para a mão que ficou estendida por alguns segundos. Mesmo hesitante, ela entendeu a sua para mim. Sua mão era pequena e a minha pareceu engoli-la em nosso cumprimento. — Mundo pequeno... — ela sussurrou, como se estive pensando alto e não tivesse a intenção de externar as palavras. Por isso, não fiz mais nenhum comentário sobre esse assunto. Conversamos um pouco sobre a empresa e eu perguntei como estávamos no mercado e sobre os nossos clientes. Ela me pediu licença, saiu por um segundo e retornou para a sala – que seria minha – trazendo uma pasta transparente nas mãos. Fomos até a mesa, onde sentei-me na cadeira que iria ocupar e ela sentou-se na cadeira disposta do outro lado. Conforme Manuela me explicava tudo que eu precisava saber sobre a BG, além de relatórios muito bem elaborados e ilustrativos, notei o quanto ela era competente no trabalho. Nossa reunião improvisada durou um pouco mais de uma hora e acreditava que, com a ajuda dela – que seria imprescindível –, eu iria tentar seguir o trabalho do meu pai. Temporariamente, é claro. Porque eu acreditava e logo iria retornar para o lugar que tanto merecia a sua presença. Quando fiquei novamente sozinho no escritório me atentei a duas coisas... Primeiro que não tinha nenhuma foto da Safira em nenhum local visível daquela sala. O que seria algo completamente estranho conhecendo a esposa do meu pai, que gostava de ostentar e com certeza iria querer que seu rosto estivesse em destaque na sala dele. Achei curioso e confesso que muito agradecido por não ter nada dela a vista. Provavelmente, alguém que sabia que eu estaria a caminho tivesse tirado a sua fotografia para evitar alguma situação desconfortável. Porque eu tinha certeza que muitos sabiam o motivo da briga que meu pai e eu tivemos. Eu sabia o poder de devastação que uma boa fofoca poderia ter. Mas o que me deixou mesmo intrigado foi uma foto que estava do outro lado da mesa. De um bebê que vestia branco e estava dormindo em seu berço. Lembrava-me de nunca ter visto essa foto antes, mas poderia ser uma minha da qual não tinha conhecimento. Quando era quase uma da tarde, o meu telefone tocou e Manuela me informou que Gomes já havia chegado. Pedi para que liberasse a sua entrada e instantes depois, o advogado que eu conhecia por toda a minha vida entrou pela porta. Levantei-me para cumprimenta-lo com um abraço. Acabamos conversando como se fossemos amigos que se reencontravam – o que de fato poderia ser considerada uma grande verdade. Francisco Gomes e Olavo Baseggio eram melhores amigos desde a escola. Ambos eram filhos únicos e acabaram criando uma irmandade deles. Me recordava que, quando criança, costumava chama-lo inclusive de tio. E era algo que eu percebia que o agradava. — O motivo dessa reunião é para te entregar uma carta do seu pai. — A seriedade voltou para seu semblante quando começamos a falar do motivo de sua visita. — Uma carta? — questionei, entre surpreso e confuso. Sem responder a minha pergunta – o que não era realmente necessário –, Gomes abriu sua pasta e retirou de lá um envelope, entregando-me. — Leia apenas quando eu for embora, pode ser? Antes, precisamos conversar sobre algumas coisas que se você ler a carta antes pode não entender. Concordei com sua condição. E devia confessar que estava muito curioso para tudo que eu poderia descobrir. Afinal, o que seria tão importante assim que faria meu pai me deixar uma carta? Ainda mais que não tínhamos mais uma relação de pai e filho? Pelo rosto sério do advogado que me encarava, pude perceber que eu teria as respostas muito em breve... O silêncio era algo que tinha um peso enorme. Em alguns momentos ele era mais que necessário. Tanto para refletir ou respeitar o espaço de alguém. Mas ali, naquele momento, ele conseguia me deixar ainda mais agoniado do que já estava. — Você sabe o quanto o seu pai era precavido em praticamente tudo... — Concordei com um aceno. Realmente o senhor Olavo gostava de garantir e pensar em tudo. — E por isso, me deixou de sobreaviso que se algo acontecesse com ele como... aconteceu, era para te ligar imediatamente e pedir para que retornasse. — Por causa da empresa? — questionei, já imaginando o óbvio. — Podemos considerá-la também, mas a maior motivação é outra. — Gomes fez uma pausa, o que me deixou ainda mais apreensivo. — Foi por causa da Ana. — De quem? — Você realmente não sabia sobre ela, certo? Seu pai me contara por alto que vocês acabaram se distanciando, mas imaginei que soubesse das notícias. — Não, eu não sabia... Eu não pesquisava sobre notícias nem do meu pai, nem da empresa. — Suspirei, passando as mãos pelo cabelo. — Eu ainda achava que ele estava casado com a Safira. — Eles se separaram têm alguns meses, mas ainda não oficializaram o divórcio. A última informação que eu soube, ela que Safira tinha viajado para a Suíça uma semana antes do acidente do senhor Olavo. Meu pai e a Safira não estavam mais juntos? Essa era realmente uma notícia muito boa. Será que finalmente meu pai havia aberto os olhos para a esposa que tinha ao seu lado? Apesar de não saber o motivo da separação dos dois – embora eu já fosse grato –, essa parte já estava resolvida na minha cabeça. Mas tinha outra, que veio logo em forma de pergunta para o advogado a minha frente? — E quem é Ana? A primeira hipótese que eu pensei fosse que meu pai tivesse encontrado outra mulher. Quem sabe esse não foi o motivo da separação dele com Safira. Eu só podia esperar que a Ana fosse um ser humano melhor que a ex-mulher do meu pai. — Ela é... Bem, ela está aqui fora esperando. Talvez seja melhor você conhecê-la primeiro antes de mais explicações. Fiquei surpreso com a novidade e em saber que ela estava tão perto, mesmo que eu não fizesse ideia de quem seria essa pessoa. Gomes foi até a porta, abrindo-a e pedindo para que ela entrasse. A primeira pessoa a passar pela porta foi Manuela, a minha assistente, que estava com o braço esticado para trás. Seus olhos também encaravam o mesmo ponto de sua mão. Foi quando uma segunda pessoa entrou na sala, logo atrás dela. De todas as possibilidades que passou pela minha cabeça, aquela era a última das hipóteses. Pequenos olhos azuis me encaravam com curiosidade, mas não tinha estranheza nela. Foi questão de segundos para ela vir em minha direção e abraçar as minhas pernas. Olhei para baixo, para a criança que demostrava carinho sem nem me conhecer direito. — Felipe, essa é a Ana. — A voz de Gomes preencheu a sala, mas ela chegou até mim como um zumbido. — A sua irmã.
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