Capítulo 4

1596 Words
MANUELA Meu pai costumava dizer que "o mundo era um ovo". Realmente ele estava certo. E no momento, esse ovo estava reduzido para um de codorna, daqueles bem pequenos. Quem diria que o homem que praticamente roubou o meu táxi – certo, era um exagero da minha parte em usar essas palavras – numa cidade tão grande, fosse ser exatamente o meu novo chefe. O filho que brigara com o pai e foi embora sem olhar para trás. A primeira coisa que pensei assim que o vi – e o reconheci, é claro –, foi que ele iria esbravejar, reclamar do meu atraso – embora eu tivesse avisado com antecedência ao diretor, que era o meu responsável até ontem – ou até mesmo criticar o que acontecera mais cedo, na "disputa" do táxi. Mas não foi isso que aconteceu. Ele fora... simpático e atencioso. O que me foi uma surpresa e tanto, já que eu o xingara mentalmente e tinha pintado a imagem de s*******o. Para ver que o quanto as pessoas podem surpreender. Ele demorou a me reconhecer o que, no primeiro momento, eu achei que fosse melhor. Mas ele logo se lembrou do meu rosto e ficou tão impressionado com a coincidência quanto eu. Passei algumas informações de como a BG estava, quais eram os nossos principais clientes e as campanhas publicitárias que tínhamos que entregar para a aprovação da marca. Ele ouviu cada palavra com atenção, fazendo perguntas onde eram necessárias e mostrando real interesse pelo trabalho. A fama que pintaram para mim do filho do meu chefe não era em nada ao homem que estava na minha frente. Provando mais uma vez o quanto as fofocas maldosas são mentirosas. Logo após eu retornar do meu horário de almoço, o senhor Gomes chegou. E para minha surpresa, acompanhava alguém que eu conhecia e estava até com saudades. — Tia Manu! — A pequena Ana correu em minha direção e foi o tempo suficiente para eu me abaixar antes que ele chegasse para me enlaçar com seus bracinhos. Ana era filha do senhor Olavo Baseggio e eu a conhecia há alguns anos, desde que vim trabalhar aqui. A senhora – ou melhor, ex-senhora Baseggio – as vezes a trazia para o trabalho, mas não para ter a companhia da filha e sim para deixá-la aos meus cuidados enquanto resolvia algo importante – nas palavras dela. Eu sempre notei a falta de atenção que ela entregava para a própria filha. E com a vivência de alguns dias que eu fazia companhia para a pequena, me apeguei a ela de um jeito que eu nem saberia explicar. — Eu tava com saudades de você, tia... — Olhinhos azuis, muito parecidos com o do irmão que estava do outro lado daquela porta, me olhavam com carinho. Como uma garotinha tão pequena, com seus cinco aninhos, poderia despertar tanto sentimento dentro de mim? — Eu também, Aninha... — sorri, apertando seu nariz de leve, fazendo o som de uma buzina e arrancando um sorriso dela. Desde pequena ela me chamava de tia. Claro que Safira a corrigia constantemente sobre eu não ser parente dela, como se quisesse jogar na cara que eu era inferior a grande família Baseggio. Mas isso nunca me afetava. Ao contrário dela, nunca a proibi de me chamar assim. No fundo, eu gostava e foi assim desde a primeira vez. Eu era filha única e não tinha chances de ser tia, não pelo meu lado da minha família pelo menos. E quem disse que família é só a de sangue? Senhor Gomes pediu que eu anunciasse a sua presença para o senhor Felipe e assim o fiz. Antes de entrar na sala do meu chefe, o advogado da família que eu já conhecia pelas visitas anteriores, me pediu para fazer companhia para a Ana enquanto ele conversava com o seu cliente e em breve iria buscá-la para entrar também. Assim que ele entrou por aquela grande porta de madeira, estendi a minha mão para a pequena que, sem hesitar, aceitou. Levei-a até o as poltronas para que pudéssemos nos sentar. Como elas eram um pouco altas, ajudei-a primeiro e sentei-me ao seu lado logo em seguida. Conversamos sobre a sua escola e logo emendamos em mais alguns assuntos diferentes. — Será que o meu irmão vai gostar de mim, tia? — Aninha me perguntou depois de ficar em silêncio por alguns instantes. Seus olhinhos me encaravam com esperança e medo. Peguei-a delicadamente e a coloquei sentada no meu colo e esperei até que ela olhasse para mim para responder. — Eu tenho certeza que sim, meu amor. Seu irmão estava viajando lá longe e voltou só agora. — Isso o papai me contou, mas disse que eles tinham brigado. Eu já sei como ele é porque eu vi algumas fotos dele. Será que ele viu alguma minha? — Não sei, querida. Eu o conheci hoje de manhã, mas de uma coisa eu tenho certeza: ele vai adorar você. É impossível ser o contrário, só se ele for um bobão. Sorri para ela que correspondeu com um mais animado que o meu. Abracei seu corpinho pequeno no exato momento que a porta se abriu. — Ana, você pode vir aqui, por favor? — Senhor Gomes pediu, olhando em nossa direção. Ela se remexeu no meu colo, saltando no chão. Deu dois passinhos em direção a porta e olhou para mim como se buscasse apoio e eu estava ali para isso. — A tia Manu pode entrar comigo? — a vozinha meiga da criança pediu ao advogado que ainda esperava segurando a porta aberta. Ele a encarou por alguns segundos e depois levantou os olhos na minha direção, concordando com um aceno firme de cabeça. Sua mãozinha tomou a iniciativa e se esticou em minha direção. Com um sorriso, levantei-me e estiquei a minha também, nos aproximando da porta que nos aguardava. Eu entrei na frente, com o braço esticado e toda a minha atenção na criança que entrou logo atrás de mim, parando ao meu lado. Felipe, que até o momento estava sentado do outro lado da mesa, levantou-se e começou a caminhar em nossa direção. Pude notar em seus olhos a surpresa e o choque... Será que ele não sabia nada sobre a irmã? Minha atenção ia da reação do meu chefe a minha frente para a criança ao meu lado que ainda segurava a minha mão. A impressão que eu tive era que estavam se conhecendo – ou se reconhecendo – pelo olhar. Não havia palavras ditas ao vento, mas seus olhos não desviavam a atenção um do outro. Era como se existisse só os dois naquela sala. Por um minuto me senti como se estivesse me intrometendo em algo que não era para eu estar ali. Mas fora a pequena que queria a minha presença nesse momento que seria tão marcante para ela, e eu seria incapaz de negar. Seu pai estava em coma no hospital e sua mãe... bem, ela viajara há algumas semanas e não atendeu nenhuma das minhas ligações que fiz para contar sobre o acidente do senhor Olavo. Subitamente, Ana soltou a minha mão e correu em direção ao – até agora – petrificado senhor Felipe, abraçando-lhe as pernas. — Felipe, essa é a Ana. — A voz de Gomes ecoou pela sala silenciosa. — A sua irmã. Felipe mantinha o olhar para a pequena que ainda o enlaçava pelas pernas. Levantou o rosto e alternou o olhar entre mim e o advogado. Um medo enorme se apoderou de mim. Pela sua expressão, poderia julgar que ele não sabia da existência da irmã e se... E se ele a rejeitasse? Acabasse magoando-a de alguma forma. Ele era o único parente próximo dela devido a todas as circunstâncias. E se ele não quisesse a guarda ou cuidar da menina? Nem sabia se ele poderia negar, se tinha essa opção para a justiça, mas... e se? O que iria acontecer com a Ana? Quem iria ficar com ela? E a pergunta que mais me motivava: o que eu poderia fazer para que ela ficasse bem? E em apenas um gesto, todo o meu medo se dissipou como vapor sendo conduzido pelo vento até desaparecer dos nossos olhos. Lentamente, Felipe movimentou os braços – que pareciam estar colocados a cada lateral de seu corpo – colocando uma ambas as mãos nas costas da Aninha, como em um abraço, mesmo que meio desajustado no princípio. Sua cabeça continuava voltada para baixo, encarando a criança. Como se soubesse que estava sendo observado, ele levantou seu rosto em minha direção. Seus olhos naquele tom de azul de um céu sem nuvens se prendeu ao meu por alguns instantes. Eles estavam marejados e pareciam estar a ponto de transbordar toda a emoção que sentia. Se eu tinha algum pé atrás com ele pelo episódio do taxi, que acorrera naquela mesma manhã – embora parecesse que tivesse passado mais dias de intervalo, já que parecia tão distante – não existia mais. Percebi que também estava emocionada com a cena que se desenrolava a minha frente quando senti uma lágrima deslizar pelo meu rosto. Vi um pequeno vislumbre de um sorriso surgir em seu rosto, ou talvez tenha sido apenas impressão minha. Como se acabasse esse nosso momento, ele retornou seu olhar para a pequena, dando um pequeno passo para trás, afastando-se dela apenas o necessário para abaixar em sua direção, e conseguir, enfim, dar um abraço completo. Um sorriso surgiu em meus lábios e um alívio tomou meu coração. A pequena Aninha ficaria bem...
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