MANUELA
O elevador fez aquele sinal característico de que tinha chegado ao andar solicitado. Saí de dentro dele, mas ao invés de ir até a porta do meu apartamento, fui até a do lado.
Apertei a campainha e instantes depois foi aberta pelo meu vizinho simpático.
— Está tudo bem, minha menina? — seu Abílio perguntou, carinhoso como sempre. — Chegou em casa cedo. Brigaram com você por minha causa?
— Jamais seria por sua causa, seu Abílio. Fiz de coração e faria de novo. Está tudo bem sim, o meu chefe me liberou mais cedo hoje. — Sorri diante da preocupação dele. — Vim aqui para saber como o senhor está depois dos exames.
Ele aquiesceu em silêncio, abrindo a porta para que eu entrasse em seu apartamento.
Como sempre acontecia quando eu entrava em sua casa, a foto do seu casamento com a dona Benedita me cumprimentava da parede. Era ali que meus olhos recaiam sempre que eu entrava ali.
Eles tiveram um casamento de cinquenta anos feliz e cheio de amor, mas infelizmente ela partira.
Eu cheguei a conhecer a doce senhora que era minha vizinha. Ela fazia com certa frequência um bolo de cenoura com cobertura de chocolate que não tinha para ninguém.
Minha amizade com o seu Abílio costumava ser o meu refúgio, o meu ponto de paz. Conversar com ele me deixava sempre tranquila e tentava ver pelo lado positivo. E ele dizia que amava a minha jovialidade e esperança. Essa era a nossa amizade.
Conversamos por mais alguns minutos, e ele me alegou que estava se sentindo muito bem. Que desde aquele susto que ocorrera há alguns dias, não sentira mais nada.
Despedi-me do meu amigo mais que especial e fui em direção ao meu apartamento.
Girei a chave na fechadura e abri a porta em seguida.
— Chegou cedo... — Virei-me e vi Monique sentada no sofá com o notebook no colo.
Ela trabalhava com marketing numa marca de roupas, mas estava de férias. Embora que eu soubesse que costumava fazer um freelance de vez em quando também, como eu podia apostar que era o seu empenho da vez.
— Meu chefe me liberou mais cedo hoje e...
— Verdade! — Sua voz subiu um pouco diante da empolgação. Colocou o notebook ainda aberto ao seu lado, cruzando as pernas. — Me conta sobre o seu chefe novo.
— Ah, Moni... nem sei o que contar para você.
— Deixa que eu te ajudo e conduzo as perguntas aqui.
— Eu vou ser entrevistada por acaso? — provoquei e minha amiga mostrou a língua como resposta.
— Apenas concorde com isso, Manu... — Ela sentenciou, enquanto eu suspirava, derrotada. — A pergunta mais importante de todas... ele é bonito?
— E por que essa é a pergunta mais importante de todas? Não deveria ser se ele é responsável, dedicado ao trabalho e se, minimamente, ele aparenta ser uma boa pessoa?
Minha amiga me encarava como se minha cabeça tivesse ido embora e aparecido uma fruta enorme em seu lugar.
Ficamos alguns segundos em silêncio para ver quem iria desistir primeiro. Cansada desse joguinho, respondi:
— Sim, Moni, ele é bonito.
— Bonito que nível? — agora ela estava em um patamar de empolgação que eu nunca iria conseguir acompanhar. — De zero a dez, qual a nota que você dá para a beleza desse homem?
— Sério isso? Por que você está tão curiosa sobre isso, amiga?
— Ih, pelo jeito a nota passa dos dez e chega quase a um onze, acertei?
— Sim, acertou...
— confessei. — Sim, ele é muito bonito, mas você sabe que isso não vai interferir em nada no meu trabalho.
— Eu sei que não vai, amiga. Aliás, eu te conheço muito bem... — Ela ficou em silêncio por alguns minutos antes de retomar.
— E aí, ele é responsável, dedicado ao trabalho e se, minimamente, ele aparenta ser uma boa pessoa?
Peguei a almofada e joguei na minha amiga, que a pegou no ar e gargalhava com vontade, contagiando a mim também.
Quando cheguei no dia seguinte a BG, me surpreendi ao encontrar um pequeno vasinho com um girassol grande dentro.
O andar que eu ficava era todo ocupado pelo CEO da empresa. Que antes era o senhor Olavo e agora seria substituído pelo filho.
Mas quem deveria ter vindo até aqui em cima para deixá-lo na minha mesa? Será que esqueceram aqui ou entregaram por engano?
Aproximei-me, encantada pelo amarelo vivido daquela flor, e encontrei um pequeno envelope ao lado do vaso. Uma letra grande e bonita compunha o meu nome.
Muito curiosa, estava prestes a abrir o pequeno papel para descobrir quem teria me mandado essa flor tão linda, mas o barulho de porta interrompeu os meus movimentos.
Da única porta daquele andar. A do meu chefe atual. Felipe Baseggio.
— Bom dia, senhor Felipe. — Cumprimentei, educada.
— Eu já estava indo para a minha mesa, só parei aqui para ver as flores e...
— Bom dia. Gostou das flores? — perguntou, simpático.
— Sim, muito. Girassóis são as minhas flores favoritas.
— Falei, com um sorriso, enquanto passava os meus dedos pelas pétalas delicadas.
— Que bom que acertei na escolha, então. — E sorriu.
Era a primeira vez que eu via aquele homem sorrir. Um sorriso completo, pelo menos.
Claro que nem tivemos tempo para convivermos no trabalho, mas ele me dava a impressão de ser um homem mais sério, fechado.
E mais uma vez, as minhas primeiras impressões estavam erradas ao seu respeito.
Alguém tinha que avisá-lo que ele tinha um belo de um sorriso.
— Foi... foi você que me deu? — questionei, entre surpresa e confusa. Muito, muito confusa.
— Sim, como forma de agradecimento por ontem e por tudo que fez pela minha... bem, pela minha irmã. Aliás, foi ela que me contou sobre as suas flores favoritas. Está certo que ela falou que era a que o sol girava, mas acabei relacionando com Girassol.
Ri das palavras que remetiam a Aninha. Aquela criança era uma figura, apesar da pouca idade, e muito esperta também. Ao seu modo, é claro.
— Ela é uma garotinha muito especial — falei com ternura. — E aliás, ela está bem?
— Sim, ela está. — Ele desviou o olhar para o chão, como se estivesse constrangido. — Você pode vir até a minha sala? Precisamos conversar.
Concordei com um aceno de cabeça, colocando o envelope em cima da mesa, ao lado do lindo vasinho que ganhei e o segui em direção a sua sala.
O que será que ele tinha para falar comigo?
E foi com essa pergunta pela minha cabeça e um pouco aflita que eu entrei em sua sala.