Capítulo 7

1462 Words
FELIPE Fechei a porta da minha sala depois que Manuela entrou. Estendi o braço, indicando a cadeira para que se sentisse confortável e sentasse. Fui do outro lado da mesa e sentei a sua frente. — Claro que o girassol foi para isso, mas eu também queria te agradecer pessoalmente por tudo que fez pela Ana. Na noite anterior, Ivonete me deixara a par dos acontecimentos durante a minha ausência. Soube por ela que meu pai flagrara Safira com outro homem, que fora o motivo do divórcio dos dois. E nos dias que seguiram o acidente, quando minha irmã se sentia sozinha nesses dois dias antes de eu chegar, foi Manuela que foi até a nossa casa conversar com ela e tranquilizá-la sobre tudo. — Ivonete me contou que vocês são bem ligadas e quanto a sua companhia e cuidado foram essenciais nesses últimos dias. Então, muito obrigado. — Imagina. A Ana é uma criança carinhosa e merece tudo de bom sempre. Concordei com cada palavra. E eu esperava que pudesse ser capaz de cuidar da minha irmã e dar tudo que ela precisasse. Principalmente esse carinho que a pequena tanto merecia. Comentei com ela por alta que depois do meu afastamento, não tive nenhuma informação da minha família, desconhecendo completamente que eu tinha uma irmã. Por mais que ela não tivesse me cobrando informações e nem com o olhar acusador sobre, achei que ela merecia saber. Ainda mais que tinha tanto carinho pela Ana, a pessoa mais envolvida dessa história toda. Acabamos mudando de assunto e Manuela me passou toda a agenda do dia. E vi as horas passarem entre reuniões e telefonemas. Quando o relógio marcava um pouco mais das seis da tarde, uma batida suave na porta me chamou a atenção. — Com licença, senhor Felipe, precisa de mim para alguma coisa? — perguntou, solicita como sempre. — Não, Manuela. Pode ir e boa noite. — Boa noite. E muito obrigada pelo girassol, alegrou e muito o meu dia. Manuela fechou a porta, me deixando até sem palavras para responder. Embora não houvesse uma necessidade de réplica sobre isso. Minha falecida esposa não gostava muito de flores porque tinha uma alergia que atacava com qualquer cheiro que não fosse o habitual. Por isso, nunca havia presenteado nenhuma mulher com elas. E nunca imaginei que algo que, considerado até simples, pudesse fazer tanta diferença assim para alguém. Meus olhos recaírem sobre a última gaveta da minha escrivaninha. Seria mentira se eu disse que não fiz esse umas cem vezes – no mínimo – naquele dia. Com um suspiro que trazia tanta coisa à tona, abri e retirei o envelope que Gomes me entregara no dia anterior. Aquele pedaço de papel que tinha palavras que o meu pai queria que eu lesse, que eu soubesse... E por mais que estivesse curioso, eu estava adiando aquele momento ao máximo. Não por receio do que eu conteúdo me traria, eu ficara surpreso pela irmã que tinha, mas não podia culpá-lo, afinal, tínhamos nos distanciado e do mesmo modo que eu não sabia nada dele, também não foi atrás para que soubesse de algo meu. Eu tinha medo... Exatamente essa palavra. Eu não tinha vergonha – até porque isso não é motivo para se envergonhar – de assumir que estava assustado. Eu imaginava meu pai, debruçado sobre uma mesa. Provavelmente essa mesma da qual estava com uma das mãos apoiadas. Fazendo a caneta ganhar vida sobre o papel com aquela sua letra marcante. E se as palavras que ali continham fossem as últimas que eu teria contato? Eu não estava preparado para isso. Mas quando estaria? Com uma respiração mais profunda, abri o envelope e desdobrei o papel com cuidado, com medo que a minha emoção pudesse rasgar as palavras que deixara para mim. Felipe, Já perdi as contas de quantas cartas comecei a escrever e amassei o papel, jogando-as fora. Ou quantas que cheguei a terminar, mas nunca tive coragem de enviar. Mas essa está aqui como uma segurança se acaso algo me acontecer. Porque agora não é somente você e eu. Tem a Ana nessa história e é pensando nela que escrevo essas palavras. Se um dia algo acontecer comigo, eu gostaria que você fosse o responsável por sua criação. Gomes já está ciente de tudo e com toda a documentação necessária. Peço que cuide dela, como eu sei que você fará. Porque mesmo depois de tudo que aconteceu, eu sei do coração lindo que tem. Lamento não ter tido a chance de poder abraçá-lo uma última vez. Mas quero que saiba que a saudade, o perdão e o amor estarão sempre comigo. Seu pai. Deixei que suas palavras tomassem o tempo delas, fazendo que eu sentisse tudo ao mesmo tempo. No dia seguinte iria ligar para o escritório que trabalhei em Nova York e pediria para falar com o meu chefe, pedindo minha demissão. Eu iria ficar no Brasil cuidando da minha irmã. Estacionei em frente de casa, embora ainda fosse estranho vê-la como minha novamente. Ontem, com a Ana dormindo na cadeirinha do banco traseiro, a minha prioridade era deixá-la confortável. Hoje, permite-me hesitar enquanto meus olhos observavam a fachada. Quando entrei em casa, encontrei Ana sentada no sofá assistindo algum desenho da qual eu não saberia dizer qual é. — Oi... — falei, mesmo que ainda acanhado. Ana parecia tão concentrada no desenho que demorou a notar a minha presença. — Oi, maninho — um sorriso banguela fez conjunto. Aquela era a primeira vez que ela me chamava assim. Notei que tinha uma boneca ao seu lado e o que parecia ser um ursinho branco e peludo deitado. — Essa aqui é a Nina. — Ana respondeu ao percebeu meu olhar, apontando para a boneca, colocando-a em seu colo. — E esse aqui é o Bola de Neve. Ao ouvir o último nome, o que eu acreditei ser um urso de pelúcia começou a se mexer, espreguiçando-se aos poucos. Ao notar a criança ao seu lado, ele pulou no seu colo e disparou a lambê-la animadamente. — Você tem um cachorrinho... — foi mais para uma afirmação. Até porque era nítida a resposta. Me perguntei por onde andava essa bolinha de pelos da qual não tinha visto desde que cheguei na casa ontem à noite? Percebendo a presença de outra pessoa no mesmo cômodo, o cachorro que era um pouco maior que a minha mão parou a brincadeira e me encarou. Nunca imaginei que fosse presenciar a cena a seguir... O Bola de Neve – era esse o nome dele, se não estivesse enganado – mudou a expressão de cãozinho fofo para algo muito próximo de uma fúria assassina, mostrando os dentes e ameaçando avançar na minha direção. Maravilha! Tinha um cachorro bipolar morando sobre o mesmo teto que eu. — Bola de Neve! — A vozinha da criança se sobressaiu, chamando a atenção do cachorro, que desistiu da intenção de partir para o ataque e voltando ao seu colo. Claro que pelo tamanho, aquela criaturinha não assustava ninguém, embora eu não quisesse saber como seria ter os seus dentinhos pequenos e afiados me mordendo. — Ele é o meu irmão que eu tinha te falado — explicou com toda paciência para o animal que a encarava atento a tudo que dizia. Ambos pareciam ser devotados um do outro. — E como disse a tia Manu, ele é legal... — Quando que ela falou isso para você? Foi ontem? — Não, foi logo depois que o papai ficou dodói. Ela me falou que você poderia ser legal. — Pensei que ela tinha terminado a frase, mas notei pela sua expressão, como se tivesse se lembrado de algo importante, que iria falar mais um pouco. — Ontem ela disse que você seria um bobão se não gostasse de mim. Claro, minha própria secretária falando para a minha irmã – de cinco anos – que ela poderia me considerar um bobão. Muitos poderiam ficar ofendidos ou com o ego ferido, ainda mais por essa palavra ser apontada para uma criança. Mas para mim, não. E eu não poderia condená-la por falar isso, ainda mais sem saber como seria a minha reação com toda a revelação que se sucedeu. Eu notei muitos olhares quando retornei para BG. Algumas pessoas eu conhecia do tempo que trabalhava lá. E percebia os olhares atravessados e que cochichavam assim que eu passasse. Mesmo eu sendo o chefe delas, a fofoca não tinha limite. Com Manuela foi diferente, teve a surpresa da coincidência no começo, mas em momento nenhum desde que começamos a trabalhar juntos eu vi acusação em seus olhos. Poderia ser considerado um golpe de sorte em ter uma secretária que tivesse essas qualidades. Talvez retornar a trabalhar na BG não fosse tão complicado assim...
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