FELIPE
Apenas quando entrei em meu carro, me permiti soltar o ar que estava prendendo sem nem perceber.
Antes de dar partida, olhei novamente para o hospital que estava do outro lado da rua.
Fazia mais de uma semana que eu tinha voltado para o Brasil, e costumava visitar meu pai no hospital com frequência. Sempre indo de manhã, no horário estipulado pela administração.
E como todos os demais dias, saí de lá me sentindo pequeno. Como se o homem de um metro e oitenta e cinco tivesse encolhido alguns míseros centímetros e tivesse que desviar das pessoas para não correr o risco de ser pisoteado por uma delas.
E era essa mesma sensação toda vez.
Balançando a cabeça, girei a chave na ignição e parti rumo à empresa que me aguardava.
As mudanças ainda eram recentes, mas estava conseguindo me adaptar com o tempo.
Ana era uma criança muito quietinha. Como se vivesse dentro de sua própria concha e tivesse medo de se expor ao mundo. Ela era muito comunicativa com Ivonete e com a Manuela – como pude perceber naquela última vez que ela veio até a BG e notei a sintonia das duas.
Comigo ela conversava, mas eu percebia que ela era mais hesitante. Como se estivesse medindo suas palavras ou atitudes antes de tudo. Ela era uma criança de apenas cinco anos, não devia ter esses receios, certo?
Claro que eu não era um conhecedor nato de como as crianças se comportavam, mas sempre ouvi que elas eram autênticas e espontâneas, e com a Ana eu sentia um controle que ela mesmo exercia sobre si.
E ela vivia para cima e para baixo com aquele cachorro que tinha um quê de psicopata, já que seu humor para comigo variava de acordo com o dia e a sua vontade.
Ontem mesmo ele destruiu um par de sapatos, deixando apenas as evidências e pistas do crime que cometera.
Manuela estava concentrada no computador quando cheguei, mas levantou os olhos assim que entrei em seu campo de visão. Como se tivesse percebido de soslaio que alguém se aproximava.
Nós nos cumprimentamos e ela perguntou sobre o meu pai, já que estava a par das minhas visitas frequentes. Eu sabia que ela também costumava ir até o hospital, não que ela contasse para tirar vantagem ou se promover, e sim porque o médico que estava cuidando dele desde o primeiro dia me dissera que Manuela o visitava quase no final do horário permitido.
Contei que, infelizmente, não tivera progressos desde a última vez que o vira e que tudo continuava na mesma.
Ela me informou sobre os compromissos do dia, mostrando que seria bem cheio. Do jeito que eu gostava.
— A propósito, o senhor Luquesi ligou agora há pouco, perguntando se o senhor tem algum horário disponível para uma reunião. Pediu que fosse ainda hoje, de preferência.
Quando assumi a cadeira de meu pai como CEO da BG Comunicações, fui informado sobre a proposta de parceria entre Olavo Baseggio e Ramon Luquesi.
Duas grandes agências que iriam firmar uma sociedade no mercado.
Pesquisei sobre a agência em questão e confirmei o quão consolidada ela era. E com o investimento e parceria, sabia que seria ótimo para a nossa empresa esse contrato.
Agradeci minha secretária, indo para a minha sala e ligando para o escritório de Ramon para marcamos essa tão importante conversa.
E foi assim que, um pouco antes das duas da tarde, Manuela ligara para o meu ramal informando que ele tinha chegado.
Fiz questão de eu mesmo ir até a porta recebê-lo com um aperto de mão, que mostrava o quanto eu estava nervoso.
Nós nos apresentamos – já que ele não me conhecia pessoalmente, e nem eu a ele – e fomos nos sentar.
Conversamos sobre amenidades em um primeiro momento, para tentar quebrar um pouco o gelo e deixar o clima mais agradável.
Pelo menos era o que eu pensava.
— Bem, Felipe, primeiramente gostaria de dizer que sinto muito pelo que aconteceu com seu pai e estimo melhoras em breve. — Proferiu, solene.
Aquiesci com um maneio de cabeça, agradecendo em silêncio.
— Acredito que você já deve saber sobre a parceria de nossas agências, certo?
—Sim, assim que assumi, a minha secretária me atualizou de tudo.
— Felipe, vou ser muito sincero com você — sua expressão adquiriu uma seriedade antes não vista. — Eu pensei seriamente em cancelar a sociedade.
Não me surpreendi com suas palavras, mas sim, pela sua sinceridade ao dizê-las.
Por mais que não trabalhasse na BG há muito tempo, eu conhecia como era o mundo dos negócios.
O quanto a confiança era papel fundamental em uma transação assim.
Ramon confiava no trabalho do meu pai e – nada mais que justo – que duvidasse da minha competência e responsabilidade. Ainda mais que eu era apenas um desconhecido para ele.
Jamais poderia me incomodar com isso.
— Entendo — respondi, simplesmente.
— Eu conheço o seu pai há alguns anos e já fizemos algumas campanhas juntos. Além de considerá-lo um bom homem e amigo também. E é em nome dessa consideração que tenho por Olavo que quero manter a proposta.
Aquilo sim era uma surpresa e tanto. E uma muito bem-vinda..
— Agradeço muito a sua confiança, senhor Luquesi. Prometo que me esforçarei ao máximo para não desapontá-lo.
— Iniciativa é tudo, meu rapaz — Sorriu. — Vou pedir para meu advogado fazer o contrato para assinarmos. Gostaria que fosse oficializada essa parceria no evento de aniversário da Luquesi, tudo bem?
— Como o senhor quiser
— Perfeito. Vou pedir para minha assistente te enviar o convite e todas as informações necessárias e...
— ele parou, como se só agora tivesse dado conta de ter esquecido alguma informação importante. — E claro, a presença da sua esposa é essencial.
— Esposa? — questionei, espantado.
— Eu li notícias que você se casou há anos.
— Ela faleceu tem algum tempo...
— Nossa, Felipe, sinto muito. Que insensível da minha parte, mas realmente não sabia — desculpou-se, visivelmente sem graça.
Garanti que não tinha problema. Por mais que fosse um assunto que sempre me doesse lembrar, ele não tinha culpa e nem o peso de acarretar essa responsabilidade.
Ramon, provavelmente, pesquisara um pouco sobre mim e deve ter visto alguma notícia que falava sobre o casamento.
Contei brevemente sobre como tudo aconteceu entre Jussara e eu.
— Sinto muito por tudo isso... — Ramon suspirou, passando a mão pelos cabelos e bagunçando-os. A impressão que eu tive era que algo o estava incomodando. — E sinto ainda mais por ter que deletar tudo que falei antes para você.
Aguardei o tempo que fosse preciso pela sua explicação. E ela não demorou a surgir:
— Eu já tive um... como posso dizer? Um problema com um antigo sócio e a minha ex-mulher. Ele era igual a você; jovem e solteiro e bem... a sociedade acabou quando flagrei os dois na cama.
Expressei um sinto muito, ainda sem entender o que aquilo tinha a ver comigo.
O que tinha a ver com o fato de eu não ser mais casado?
— Anos depois conheci a Sonia e nos casamos. Mas mesmo assim, o que aconteceu no passado me ensinou muita coisa.
— Senhor Luquesi, me desculpa, mas não estou conseguindo entender aonde quer chegar...
— O que estou tentando dizer, Felipe... é que não iremos mais prosseguir com a sociedade.
— Mas por quê? — questionei, entre surpreso e confuso. — Por que eu não sou casado?
Eu já tinha visto em reuniões e até em alguns lugares que, muitos empresários e CEOs, davam preferências em fechar contratos com quem já tivesse uma família estruturada.
Sempre achei isso um completo absurdo.
Desde quando ter uma certidão de casamento ao alcance era sinal de competência? De esforço e responsabilidade para com o trabalho?
— Exatamente, Felipe. A minha empresa, tanto quanto eu, prezamos pela família e bem... infelizmente, você não se encaixa no perfil de sócio que eu procuro.
Não me encaixo no perfil?
Tudo isso por medo de que eu acabasse transando com a atual esposa dele?
Eu poderia terminar aquela reunião ali mesmo.
Agradecer – por educação, claro – pela visita e pela oportunidade em me dar a chance. Até descobrir que eu era viúvo e solteiro.
Iria me empenhar de ir atrás de mais investidores, de clientes e campanhas. A minha meta era reerguer a BG.
Mas, e se o fato de recusar essa proposta fosse um empecilho da qual eu não imaginava as consequências...
E se a agência saísse prejudicada?
E se meu pai – quando acordar – se decepcionasse com a minha decisão?
O pensamento tinha que ser na empresa e não na minha vida pessoal.
Ramon agradeceu também, levantando-se da sua cadeira à minha frente e caminhando até a porta.
Poderia ser um tiro no escuro. Uma decisão ousada, mas o que eu tinha a perder?
— Espera, senhor Luquesi. — Ele estancou com a mão a caminho da maçaneta, virando-se na minha direção. — Eu não sou casado, mas tenho uma noiva.
— Tem? — vi os seus olhos brilharem diante da notícia.
Tenho? Mas que história era essa, Felipe?
Ramon Luquesei deu as costas para a porta, retornando a se sentar no mesmo lugar em que estivera antes.
— Conte-me mais sobre isso — desde o começo da nossa reunião, era a primeira vez que eu o via tão empolgado.
O que eu tinha para contar?
A única coisa que eu conseguia pensar com clareza era que eu estava me enrolando numa mentira.
Será que isso daria certo?
A partir daquele momento tudo poderia acontecer...