Capítulo 9

1307 Words
MANUELA Com um suspiro, saí do elevador visualizando a porta do meu apartamento como se fosse uma miragem que eu queria muito alcançar. Antes que eu pudesse procurar pela chave na minha bolsa, a porta se abriu e uma Monique muito animada me encarava do lado de dentro do apartamento. — Escutei o barulho do elevador e, pelo horário, imaginei que fosse você — comentou animada. Até demais. — E o que devo a honra de ser recepcionada assim? — questionei, tirando meu sapato de salto alto e me jogando no sofá com bolsa e tudo. — O Márcio acabou de me ligar e convidou a nós duas para comemorarmos o aniversário dele amanhã naquele bar novo que abriu. — Bacana. Mas Moni, não sei se estou com vontade de sair amanhã e... — Como assim não sabe se está com vontade? Manuela Lima, vai ser só amanhã à noite, como você consegue prever o futuro dessa maneira em saber exatamente como vai estar? Se for assim, me passa o número da mega que estamos precisando ficarmos ricas. E isso para ontem. A semana tinha sido longa e podia jurar que tinha durado bem mais do que os cincos dias de expediente. Agora eu teria o final de semana todo para descansar e me preparar para a próxima que viria. O receio que tivera antes sobre como seria trabalhar com Felipe Baseggio se dissolvia a cada dia que passava. E eu tinha que dar o braço a torcer sobre o quanto ele se mostrava responsável no que fazia, além de muito sério também. Pude notar que nos últimos dias ele ficara mais fechado, não que fôssemos colegas de trabalho, que conversássemos sobre tudo. Mas agora ele quase não saía da sala e me dirigia poucas palavras. Isso desde que Ramon Luquesi aparecera na agência. Dormi mais que a cama e acordei completamente disposta no sábado e, mesmo preferindo ficar o dia todo dentro de casa lendo ou assistindo um filme, acabei sendo convencida por Monique a irmos nesse tal barzinho. Márcio era um amigo nosso que conhecemos na faculdade. Éramos praticamente a versão estudantil de os três mosqueteiros e vivíamos juntos. Mesmo depois de formados, a amizade continuou e nos víamos com frequência. Então – mesmo com a insistência de Monique –, eu iria concordar em sair pelo meu amigo. Esse barzinho que eles queriam tanto conhecer ficava próximo do nosso apartamento e chegamos lá depois de vinte minutos. Monique tinha carro, mas como ela estava animada para beber, optamos por ir de táxi por ser mais seguro. Encontramos uma galera já bebendo quando chegamos ao bar Mix, cumprimentamos todos e dei um abraço apertado no aniversariante da noite. O papo descontraído se tornou agradável e todos estávamos empenhados em conversar. Talvez pudesse ser a bebida que tenha deixado a maioria de nós mais falante do que o normal. Bem, Monique estava em seu estado normal porque ela falava pelos cotovelos até quando estava sóbria. E talvez por esse motivo, ela sugeriu algo depois de algumas cervejas: — Vamos brincar de verdade ou desafio? — soltou e todos se empolgaram com a ideia. Menos eu. Que nesse momento preferia me esconder embaixo da mesa. Eu sempre fui a mais tímida do grupo de amigos. Aquela que tem assuntos que não se sente confortável em conversar e fica vermelha por qualquer coisa. Então, sempre fugi dessas brincadeiras porque a chance de eu ficar constrangida com elas era enorme. Eu era a que menos tinha bebido naquela mesa. Tanto que a mesma latinha que eu pedi quando cheguei ao bar estava pela metade à minha frente. Claro que eu não queria ser a amiga chata que não topa uma simples brincadeira, então me afundei na cadeira enquanto alguém colocava uma caneta em cima da mesa e a girava para escolher as próximas vítimas. Sim, porque ser selecionada para aquela brincadeira te tornava uma vítima. Não sei se meu anjo da guarda estava com pena de mim naquele dia – e provavelmente fazendo hora extra – que a tampinha da caneta não parou na minha direção nenhuma vez. Obrigada aos céus por isso! Poderia considerar como meu dia – digo, noite – de sorte, né? Mas claro que, conhecendo meu histórico para sorte – ou a falta dela, no caso – eu não poderia comemorar a vitória antes do tempo. E como a vida tinha um senso de humor diferente comigo, vi a caneta girando loucamente até perder velocidade e parar com a ponta na minha direção. — Finalmente chegou a vez da Manu! — Márcio exclamou, animado. E seria justo ele que me faria a pergunta. Pena que o meu sorriso de empolgação não chegou ao rosto. — Verdade ou desafio? Esse era aquele dilema de não saber para onde correr. Se eu preferisse escolher a verdade, teria que admitir ou negar algo que me deixaria envergonhada. Ainda mais conhecendo muito bem o amigo que eu tinha; optar pelo desafio poderia ser vergonhoso também, mas eu não iria precisar me expor. — Desafio — escolhi, entre o hesitar e a vontade de permanecer quieta. Vai que desistissem de mim. Quem eu estava querendo enganar? Justo o Márcio que jamais faria isso. — Sabia que você ia escolher essa opção — seu sorriso de triunfo chegava até as orelhas. — Por isso me preparei aqui. Te desafio a pedir o número do telefone de um homem aqui do bar. Um que eu vou escolher. E pode me agradecer que eu peguei leve — fiz uma careta e ele percebeu. —Não estou pedindo que beije um desconhecido ou nem que faça um pedido de casamento para ele. É apenas o número, mas caso você queira fazer essas opções é por sua conta. Todos na mesa riram até eu não aguentei ao ouvir suas palavras. Conhecendo o passado daquela turma e dos desafios que foram lançados aos demais participantes, eu até tivera um cuidado melhor já que não seria nada tão difícil assim. Eu tive um namorado, mas que não durou muito tempo já que ele queria avançar e eu pedi um tempo. E o que ele fez? Traiu-me na primeira oportunidade. O que aconteciam com os homens que não sabiam respeitar? Não que eu planejasse me manter virgem a vida toda ou só depois do casamento. Não era isso. Eu só... sentia que ainda não era a hora. — Aquele cara ali. Sentado no canto com o outro, mas eu quero o que está de costas. — Você está querendo usar a Manu de isca, né, Márcio? Por que é você que quer o número do celular dele. — Monique falou, arrancando uma risada gostosa do meu amigo. — Poxa, Moni, você acabou de estragar o meu disfarce e a minha motivação. — Virou-se para mim, com os olhos brilhando. — Mas eu não mudo a minha escolha. João, o namorado de Márcio, deu um t**a no seu braço, mas estava rindo de suas palavras. Virei-me na direção dos homens que ele mencionara. O escolhido em questão estava de costas, conversando com outro. Um cabelo castanho-escuro estava levemente bagunçado e ele parecia ser enorme, usando suas costas como indicativo. Percebi quando o outro homem levantou-se e foi em direção ao banheiro. — É agora ou nunca, mulher — Márcio me encorajou e bem... eu não podia fugir do que me foi imposto. Levantei-me, sentindo minhas bochechas corarem a cada passo que me distanciava da mesa dos meus amigos e me aproximava do tal homem misterioso. Parei atrás dele e estava dividida entre falar um simples oi, pedir licença ou tocar em seu ombro. Mas antes que eu decidisse por qual das três formas iria abordá-lo, ele se virou em minha direção. E foi ali que eu percebi que o meu desafio seria ainda maior do que me foi proposto.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD