16

1214 Words
Depois do banho revigorante que lavou a tensão do dia na penitenciária, decidi que era hora de me dedicar ao jantar. Estava com uma fome que roncava no estômago, mas, mais do que isso, queria preparar algo prático e reconfortante para quando Ricardo chegasse, sabendo que ele também viria exausto de seu plantão. Queria que encontrasse uma refeição quentinha e pronta, um pequeno oásis depois de um dia duro para nós dois. Comecei a grelhar o frango, o chiado suave da carne na frigideira antiaderente era uma melodia calmante na cozinha silenciosa. Ao lado, preparei uma saladinha fresca, com folhas verdes vibrantes e tomates cereja que estouraram ao serem cortados, liberando um aroma ácido e doce. Depois, o arroz refogado com cenoura ralada, que dourou suavemente na panela antes de receber a água e o tempero. O cheiro na cozinha estava ótimo, uma mistura acolhedora de temperos e carne que, por um momento, me fez esquecer o cheiro persistente de desinfetante e metal que grudava nas minhas narinas da penitenciária. E para completar a refeição fiz um suco de uva. Estava quase tudo pronto e quando ouvi o som da chave girando na fechadura. Ricardo entrou no apartamento. Lancei um sorriso largo para ele, um sorriso carregado de expectativa e alívio por vê-lo, mas Ricardo apenas me olhou rapidamente e, sem dizer uma palavra, passou as mãos pelo cabelo, um gesto que eu conhecia bem. Sabia que, assim como havia acontecido dois dias atrás, e em tantas outras vezes, ele tinha chegado irritado e de mau humor, provavelmente por alguma coisa no trabalho, alguma complicação no plantão, ou apenas um cansaço avassalador, desses que roubam a paciência. Senti uma pontada de desânimo. Eu também estava exausta, meus músculos doendo e a mente a mil com as questões dos detentos, mas isso não significava que eu poderia simplesmente me irritar e jogar toda a minha frustração em cima dele. A vida em conjunto, a gente aprende, exige mais do que isso. Apenas fiquei na minha, observando-o tirar os sapatos na entrada, jogando a mochila em um canto. Continuei a grelhar a última porção de frango, o som suave preenchendo o silêncio tenso que se instalara. De repente, para minha surpresa, ele veio até a cozinha, não com a expressão fechada que eu esperava, mas com um andar mais leve. Ficou atrás de mim, e antes que eu pudesse virar, seus braços fortes me envolveram pela cintura, um abraço firme e inesperado que me fez relaxar instantaneamente. Ele depositou um beijo suave no meu pescoço, um arrepio percorrendo minha pele. — boa noite amor ! — falou com a voz baixa e calma, um sussurro que desfez minhas preocupações. Meu corpo amoleceu em seus braços. Fazia tempo que Ricardo não me chamava de "amor" com aquela ternura, que não me abraçava assim por trás sem um motivo aparente, apenas para demonstrar carinho. Eu estava completamente equivocada. Ricardo não estava irritado. Ele estava bem. Calmo e, eu diria, até de bom humor, uma leveza que eu não via nele há dias, talvez semanas. E eu, que andava tão faminta de afeto, me permiti ser levada por aquele momento. —Boa noite ... — consegui dizer, um pouco sem fôlego, enquanto desligava o Cooktop, a chama azul sumindo silenciosamente. Seus braços continuavam me apertando, a cabeça repousando em meu ombro.. — Como foi seu dia ? — perguntou ele, ainda com as mãos firmes na minha cintura, os dedos massageando levemente minha pele através da camiseta. — bem cansativo… — comecei, a voz já denotando a fadiga acumulada. — Hoje comecei meus atendimentos mais a fundo na penitenciária. Foi assustador no início, confesso, sentir aquela pressão, a realidade nua e crua... Mas sabe, o mais difícil foi a falta de medicamentos. — Fiz uma breve pausa, a memória da frustração ainda fresca. — Atendi um paciente com infecção estomacal, e eu simplesmente não tinha o que precisava para tratá-lo direito. Tive que dar um paliativo, e a sensação de impotência em não poder cuidar dele de forma adequada foi... sufocante. — Amor, essa infelizmente é a realidade do sistema público do nosso país — ele murmurou, a voz grave e compreensiva. — É eu sei. Mas eu consegui encarar — continuei, respirando fundo. — Estou aprendendo a lidar com isso, por mais difícil que seja. Me virei para Ricardo, ficando de frente para ele, e olhei diretamente em seus olhos. Ali estava. Aquele brilho familiar, aquele olhar que me fisgou há tantos anos. Ele estava ali, o Ricardo que era apaixonado por mim, o homem que me fez sentir borboletas no estômago, o Ricardo que me trazia segurança e desejo, estava ali, presente. Fazia tempos que ele não me mostrava esse seu lado tão abertamente, essa ternura espontânea que eu sentia tanta falta. Não era uma constante, eu sabia; o dia a dia, a rotina pesada de ambos, o estresse dos trabalhos, tudo contribuía para que a chama parecesse, às vezes, um pouco mais fraca, mais distante. Era normal, eu entendia; o relacionamento, depois de quatro anos juntos, vai esfriando em alguns aspectos, os gestos grandiosos dão lugar a pequenas rotinas, e a paixão fervorosa do início se transforma em um amor mais calmo, uma cumplicidade profunda. Mas era justamente por isso que, quando esses momentos de amor, de paixão reacendida, surgiam, eu me permitia embarcar neles sem reservas, aproveitando cada segundo, cada toque, cada palavra como se fossem presentes preciosos. — Você é incrível. — disse ele, a voz um pouco mais grave, e antes que eu pudesse responder, seus lábios encontraram os meus em um beijo. O beijo era lento, um convite silencioso, mas cheio de uma fome e um desejo que me arrepiaram. Não era apenas um beijo de boa noite; era um beijo que trazia consigo a promessa de algo mais, algo que há tempos eu ansiava. Ele estava ali, presente de corpo e alma, e a paixão que eu sentia por ele reacendeu novamente, vibrando em cada fibra do meu ser. — Vou te fazer uma massagem ... mas tarde pra você descansar melhor. —ele sussurrou, a voz rouca, os lábios ainda roçando os meus, uma promessa que pairava no ar. — obrigado amor — disse eu, sorrindo para ele, o coração batendo mais forte, e dei um selinho rápido. Eu sabia muito bem do que aquela "massagem" se tratava, e meu corpo já clamava por isso, por aquele toque, por ser desejada por ele de uma forma que ia além do carinho cotidiano. Eu esperava, ansiosamente, por cada segundo daquela massagem. — vou tomar um banho — ele disse, desprendendo-se de mim com um suspiro satisfeito, e saiu da cozinha, o som de seus passos ecoando enquanto ele se dirigia ao banheiro. Eu ainda conseguia sentir a tensão no ar, não mais a do trabalho, mas uma tensão diferente, quase palpável. Era eletrizante, percorrendo cada centímetro do meu corpo, como se Ricardo tivesse despertado algo profundo em mim depois que falou sobre a "massagem". Era um fogo que eu sentia falta, uma necessidade de ser vista, tocada e desejada como mulher, não apenas como colega de trabalho ou parceira de rotina. Eu clamava por isso, clamava por ser desejada por ele, pela intensidade que nossa relação, às vezes, esquecia de ter.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD