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O cursor piscava no campo de busca como se zombasse da minha ansiedade. A página do concurso estava instável, e cada segundo parecia um teste de paciência. Meu coração estava disparado. As mãos suavam enquanto eu atualizava pela terceira vez a página do concurso. A lista de convocados, finalmente, tinha sido liberada. Senti o estômago embrulhar aquela mistura de nervoso com esperança que só quem já esperou por um resultado importante conhece.
Passei os olhos pela tela, linha por linha... até que vi meu nome.
“Marcela Vasconcelos Linhares — Aprovada”
Por um segundo, fiquei imóvel, encarando aquelas palavras como se não fossem reais. Meu nome estava ali. Eu tinha passado! Senti os olhos se encherem de lágrimas. Um riso saiu sem que eu controlasse.
— Eu consegui... — murmurei, ainda sem acreditar. — Eu consegui!
Peguei o celular com pressa e disquei o número de Sarah. Ela tinha que saber. Minha melhor amiga, minha irmã de coração, minha parceira desde o primeiro dia da faculdade. Mas... nada. Chamou até cair na caixa postal.
Tentei de novo, com o coração ainda acelerado pela euforia. Nada.
— Que estranho... — murmurei, franzindo a testa. Sarah sempre atendia minhas ligações, ainda mais depois de tudo o que passamos juntas. Talvez estivesse dormindo depois de um plantão puxado, pensei. Ou talvez só... sei lá. Eu respirei fundo, tentando afastar aquela pontinha de frustração. Decidi tentar Ricardo.
Estávamos juntos há quatro anos. Ele tem 29 anos, é cardiologista, trabalha em hospitais renomados e clínicas particulares. Eu o conheci quando estava no quarto período da faculdade ele estava se formando. Lembro como se fosse ontem: ele parecia inacessível, sempre cercado de respeito, falava com confiança e aquele olhar direto. Era bonito, elegante, daqueles que sempre pareciam prontos para uma foto de revista.
Ele gostava de passar uma imagem séria, profissional, e por fora parecia até um pouco frio. Mas comigo, nos primeiros meses... era diferente. Atencioso, protetor, gentil. Eu me sentia segura ao lado dele, mesmo sendo tão mais nova, tão crua na medicina e na vida. Ele era… meu ideal.
Mal o celular completou o primeiro toque, ele atendeu.
— Amor, estou ocupado. Ligo mais tarde. — disse, seco, sem nem esperar eu dizer "oi".
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, ele desligou.
Fiquei olhando para a tela, ainda acesa, sentindo um peso estranho no peito. Ele não parecia... ele mesmo. A voz dele soou distante. Fria. Como se eu fosse só mais uma ligação inconveniente no meio de uma agenda lotada. Ultimamente... ele tinha feito isso bastante. A pressa. As mensagens curtas. Os toques vazios. Mas toda vez que essa sensação de incômodo surgia, eu empurrava pra longe. Tentei afastar o pensamento.
Às vezes eu falava do casamento, e ele respondia com grunhidos cansados. Quando tentava desabafar sobre meu dia, ele apenas assentia, os olhos no celular ou na tela do notebook. E eu o amava. Amava tanto que não via ou não queria ver o quanto ele tinha mudado.
Ricardo estava sempre atolado de trabalho. Talvez estivesse atendendo alguém, talvez fosse apenas o cansaço. Sim, só isso. Só estresse. Nada com que me preocupar. Mas eu insistia. Dizia para mim mesma que era só uma fase. Que a vida médica era exaustiva. Que o amor dele estava ali, só escondido atrás do estresse
Balancei a cabeça e me obriguei a sorrir de novo.
Eu tinha acabado de passar num concurso público. Ia trabalhar como médica em um presídio de segurança máxima. Um desafio gigantesco e eu sabia disso. Mas também era uma oportunidade única. Um passo importante na minha carreira. Eu estava feliz. E não ia deixar ninguém roubar isso de mim.
Abri o freezer, peguei meu sorvete favorito e coloquei minha playlist animada para tocar. Dancei sozinha no meio da sala, com a colher na mão e o coração cheio de orgulho. A vida às vezes é silenciosa nas comemorações. E tudo bem. Eu tinha conseguido. E isso era só o começo.
— Parabéns, doutora. Você venceu mais uma.
Tentei sorrir. Era meu momento. Eu merecia me sentir feliz, mesmo sozinha. Mesmo que ninguém estivesse vibrando comigo.
[...]
O tempo passou devagar. A tarde virou noite. O sol se foi e com ele parte da minha euforia. A chave girou na porta. Ouvi o som familiar de passos masculinos e o tilintar do chaveiro de Ricardo.
Ele entrou com a postura habitual: cansado, elegante, distante.
— Oi — disse, apoiando a mochila na cadeira da sala.
Me aproximei com um sorriso pequeno, esperando talvez uma surpresa dele, um “como foi seu dia?”, qualquer coisa. Ele me deu um selinho apressado, passou a mão de leve nas minhas costas e se afastou. Mesmo assim, aquele toque rápido me encheu de esperança.
— Tô morto. O que você ia me dizer mais cedo? — disse, já indo em direção ao quarto.
— Eu... eu passei, Ricardo. No concurso do presídio.
Ele parou imediatamente no corredor e se virou para mim, os olhos se arregalando por um breve instante. Uma expressão de surpresa genuína atravessou seu rosto e, por um momento, ele parecia o Ricardo que me encantou anos atrás.
— Você passou? Amor! — Ele deu dois passos largos até me alcançar e me puxou pela cintura. — Eu sabia! Sabia que você conseguiria.
Antes que eu pudesse responder, ele me beijou.
Foi um beijo quente, cheio de presença. Não apressado, não distraído. Um beijo como os de antigamente, que me fazia esquecer do mundo e que, naquele momento, me fez esquecer também da frieza com que ele havia me tratado horas antes no telefone.
Aquele gesto bastou para silenciar todas as inseguranças que insistiam em sussurrar dentro de mim.
— Você é incrível, Marcela — ele disse, com a testa colada à minha. — Eu tenho tanto orgulho de você.
Sorri com os olhos marejados e o coração finalmente aquecido. Mesmo que algo em mim tivesse se machucado mais cedo, era difícil manter mágoa diante de tanto carinho agora.
Talvez ele só tivesse tido um dia difícil. Talvez eu estivesse mesmo exagerando…
Me mudei para o apartamento dele há pouco mais de um ano. E há três meses, ele me pediu em casamento em um restaurante caro, com uma aliança clássica e um sorriso que, na época, eu não duvidei. Ricardo parecia verdadeiramente feliz. Seus olhos brilhavam quando falou em "futuro", suas mãos tremiam um pouco ao abrir a caixinha com a aliança, e sua voz falhou ao dizer meu nome. Ele parecia nervoso — e apaixonado.
Naquela noite, fizemos amor como se estivéssemos selando algo sagrado. Seus toques eram cuidadosos, suas palavras, doces. E, por mais que hoje algumas coisas pareçam incertas, naquela noite... naquela noite havia amor. Eu podia sentir em cada gesto, em cada beijo, que, pelo menos naquele momento, ele me escolhia de verdade.
O som do meu celular me trouxe de volta à sala. Era Sarah.
— Oi! — atendi rápido, tentando disfarçar a ansiedade.
— MARCELA! — gritou ela do outro lado. — Me desculpa! Eu vi agora sua ligação! Tava apagada, exausta. O que aconteceu?
— Tudo bem. Eu só... queria te contar. Eu passei no concurso. Aquela vaga de médica no presídio. Eu consegui, Sarah!
Ela soltou um grito empolgado do outro lado da linha.
— SÉRIO? Marcela, que incrível! Parabéns, amiga! Eu sabia que você ia conseguir. Você é demais!
Sorri aliviada. Era isso que eu esperava ouvir o dia todo. Era isso que meu coração precisava.
— Vem aqui! Vamos comemorar. Sério. Eu preciso de você.
— Tô indo! Só vou trocar de roupa e levo um espumante.
Desliguei com o coração um pouco mais aquecido. Talvez eu não estivesse tão sozinha assim.
Ricardo passou por mim no corredor com uma toalha no ombro e disse:
— Sarah vem aqui?
— Vem. Pra comemorar.