Ricardo nem chegou a ver Sarah. O cheiro de macarrão com queijo m*l havia sumido da cozinha quando ele murmurou algo sobre estar exausto e não ter paciência para as "infantilidades dela", desaparecendo pelo corredor. A porta do nosso quarto se fechou com um clique seco, um som pequeno, mas que para mim ecoava como um corte, como se ele desligasse não só da minha vida social, mas de qualquer expectativa de alegria que eu pudesse ter.
Desde o começo, Ricardo nunca escondeu sua antipatia por Sarah. Na verdade, ele nem fazia questão de ser sutil. Dizia que ela era desajuizada, que levava tudo na brincadeira, que não tinha postura — “uma médica que parece que vive em um palco de stand-up”, ele já soltou uma vez. Lembro de ter rido na hora, tentando quebrar o gelo, mas por dentro fiquei desconfortável.
Para ele, Sarah era o completo oposto do que ele admirava em mim: responsabilidade, sensatez, foco. Sempre repetia que essas qualidades o tinham feito se apaixonar por mim. Como se a amizade com Sarah contradissesse isso.
E talvez... de certo modo, contradissesse mesmo. Sarah era o caos bonito da minha vida. Desde a faculdade, ela tinha o dom de transformar dias ruins em piadas internas, plantões estressantes em memes, e crises existenciais em festas improvisadas. Ela dizia que era um porre ter nascido numa família de médicos e sentir a obrigação de seguir a profissão da irmã mais velha e dos pais. “Todo mundo de branco e sério... e eu aqui querendo colorir o mundo”, ela dizia, jogando os cabelos para trás como se fosse uma atriz dramática.
Apesar disso, Sarah era brilhante. Tinha um raciocínio rápido, uma memória invejável e, embora desleixada com horários e regras, era impecável com seus pacientes. Isso eu sempre admirei nela.
Ricardo, por outro lado, parecia nunca enxergar nada disso. Sempre que ela vinha ao nosso apartamento, ele se fechava. Ficava meio ausente, respondendo com monossílabos, olhando para o celular ou se enfiando no quarto, dizendo que estava cansado ou precisava trabalhar. Sarah notava, claro. Uma vez chegou a me dizer brincando: “Teu boy acha que eu sou tipo um vírus da gripe, né? Tenta evitar contato.”
Eu dei uma risada forçada. Fingia que não me incomodava, que não via o desdém nos olhos dele. Mas via. E escondia. Porque amar, às vezes, é também inventar desculpas para quem não deveria nos ferir.
A campainha tocou no início da noite, interrompendo meus pensamentos.
Corri até a porta. Abri antes mesmo de confirmar pelo olho mágico porque só alguém como Sarah bateria duas vezes seguidas e depois daria um gritinho de “abra logo, mulher!”.
Ela entrou com um furacão de sempre. Cabelos levemente bagunçados, um moletom velho com estampa de unicórnio, e uma sacola com um vinho em uma mão e outra com salgadinhos.
— Você conseguiu! — gritou, jogando tudo no sofá e me puxando para um abraço esmagador.
Fui envolvida pelos braços dela, pelo cheiro familiar do perfume floral misturado com hospital e liberdade. Me permite mergulhar naquele abraço. Era calor. Era acolhedor. Era alguém feliz por mim sem reservas, sem pressa, sem meias-palavras.
— Sarah... — murmurei, rindo entre as lágrimas que voltaram aos olhos. — Você é louca.
— Não! Eu sou a melhor amiga da médica mais corajosa e badass dessa cidade! — disse, me soltando para me olhar com olhos brilhantes. — Você vai trabalhar num presídio! Isso é tipo Grey's Anatomy versão penitenciária! Acha que eu ia perder isso?
— Ah, não começa — falei, ainda rindo.
— “Doutora Marcela Vasconcelos Linhares. A detenta quebrou o nariz? Eu resolvo. O preso está fingindo dor? Eu descubro. O traficante quer atendimento preferencial? Eu digo: aqui não, querido!” — ela encenava com as mãos, fazendo vozes e poses, enquanto eu ria até a barriga doer.
Naquele instante, me senti inteira. Como se tudo fizesse sentido. Como se eu não estivesse mais sozinha comemorando minha conquista. Era ali, naquele abraço, naquela presença leve e vibrante, que morava a amizade verdadeira.
Ela sempre soube como me salvar de mim mesma.
— Você falou com o Ricardo? — perguntou, se jogando no sofá.
Minha risada murchou um pouco, mas tentei manter o sorriso.
— Falei. Ele chegou cansado, mas depois ficou feliz por mim. Me deu até um beijo daqueles...
Sarah arqueou uma sobrancelha e riu de canto.
— Humm... ele também vai pro presídio ou vai continuar preso nesse mundinho dele onde só ele importa?
— Sarah...
— Desculpa — disse, levantando as mãos. — É que você merece mais do que um beijo depois de uma ligação seca. Mas tudo bem, vou me comportar. Hoje é dia de comemorar, não de tretar.
E então ela abriu o vinho, tirou os salgadinhos da embalagem, colocou minha playlist favorita no fundo e, como sempre, fez a noite parecer um filme que eu gostaria de assistir em looping.
No fundo, eu sabia que a vida ao lado de Sarah nunca seria fácil — ela era emoção demais para o meu senso de equilíbrio. Mas também sabia que, mesmo com todos os defeitos e exageros, ela era minha verdade. Meu porto seguro. A única que, talvez, pudesse me mostrar o que eu fingia não ver.
Mas naquela noite, eu não queria pensar em conflitos. Queria apenas celebrar. Com ela. Comigo. E talvez, pela primeira vez em muito tempo, sentir que não era só mais uma peça no mundo de Ricardo, eu era protagonista da minha própria história.
[...]
Depois de horas rindo, brindando e comendo porcarias como se ainda estivéssemos no segundo ano da faculdade, Sarah se levantou do sofá e esticou os braços.
— Tá na minha hora, doutora. Amanhã tenho plantão às sete e, diferentemente de você, não tenho presidiários interessantes para conhecer — disse, piscando.
— Para com isso! — ri, acompanhando-a até a porta. — Obrigada por ter vindo. Você sempre me faz bem.
Ela me olhou com ternura e segurou meu rosto com as duas mãos.
— Eu te conheço desde antes de você saber o que queria da vida, Marcela. E eu tô aqui, viu? Sempre. Se precisar fugir, chorar, surtar ou rir de nervoso... me chama. Eu vou chegar assim — disse, estalando os dedos.
Nos abraçamos de novo, dessa vez num silêncio cheio de significado. Depois ela se foi, deixando um rastro de perfume leve e a energia caótica boa que só ela sabia espalhar.