Depois que Sarah foi embora, a casa mergulhou num silêncio reconfortante. Recolhi as taças com os últimos resquícios de vinho e os restos do brigadeiro improvisado que dividimos entre risadas e suspiros. A sala ainda parecia respirar a energia vibrante da minha amiga, e sorri sozinha ao lembrar das gargalhadas que ecoaram ali minutos antes.
Arrumei as almofadas no sofá e apaguei a luz, deixando tudo à meia-luz, como eu gosto. Caminhei devagar até o banheiro, retirando a camisa com calma, sentindo no corpo o peso bom de um dia intenso. A cabeça ainda girava com a reviravolta que aquela tarde tinha trazido.
Eu tinha conseguido. Depois de tanto estudar, chorar em silêncio, duvidar de mim mesma, aceitar plantões ruins só pra pagar o cursinho, e dizer “não” para momentos em família, festas, descanso… finalmente, o resultado veio. E era “sim”. “Concursada.”
Essa palavra ainda soava surreal. Eu tinha vencido uma das provas mais difíceis da minha vida. Agora era médica de verdade em todos os sentidos — inclusive para o sistema. E ainda que trabalhar em um presídio me deixasse inquieta, fazia parte do caminho. Um começo.
Liguei o chuveiro e, enquanto esperava a água esquentar, tirei a roupa com movimentos lentos. Entrei no box e deixei a água morna escorrer sobre mim, aliviando a tensão dos ombros e lavando os resquícios do dia. Fechei os olhos. Me concentrei no barulho da água, nas gotas que desciam pela minha pele, no cheiro do shampoo de lavanda que comecei a massagear nos cabelos.
Demorei um pouco mais que o normal. Precisava daquele tempo. Passei o sabonete devagar, enxaguei com cuidado. Quando saí do banho, me enrolei na toalha azul e fui direto para a pia. Escovei os dentes com calma, depois enxaguei o rosto com água fria era minha maneira de sinalizar ao corpo que o dia tinha acabado. Apliquei o hidratante no rosto, depois um creme corporal com cheiro de flor de laranjeira. Sempre começava pelos braços, depois pernas, barriga... um gesto de carinho silencioso.
Abri a gaveta da cômoda e escolhi minha camisola preferida, uma peça de renda azul-clara, com detalhes sutis em cetim. Quando a vesti, me senti abraçada por algo familiar. Bonita. Serena. Apaguei a luz do banheiro e segui descalça até o quarto. A porta estava entreaberta e tudo ali dentro parecia calmo. Ricardo já estava na cama, deitado de lado, voltado para a parede. Respiração leve, corpo imóvel. Achei que ele estivesse dormindo. Ele parecia exausto mais cedo.
Respirei fundo. Não queria acordá-lo e me deitei com o máximo de cuidado, puxando o lençol devagar, evitando qualquer som brusco. Me virei de costas pra ele, o corpo cansado, a mente cheia demais.
Mas, segundos depois, senti um movimento atrás de mim. O colchão cedeu sutilmente e, de repente, a mão dele pousou devagar sobre minha cintura.
— Achei que você já estivesse dormindo... — sussurrei, sem me virar.
— Eu estava esperando você. — ele respondeu com a voz baixa e quente, ainda rouca do quase-sono.
Ele se aproximou mais, colando o corpo ao meu. Sua respiração encostava na curva do meu pescoço, e os dedos, antes imóveis, começaram a desenhar caminhos lentos pela minha pele. Um arrepio me percorreu. Os lábios dele passearam suavemente pela minha pele, despertando arrepios que se espalharam como uma corrente elétrica. Me virei devagar para encará-lo. Os olhos dele estavam abertos, focados em mim de um jeito que não via há semanas. Não havia pressa nem distração ali. Só presença. Só ele inteiro.
— Estou orgulhoso de você — ele disse, depositando beijos suaves no meu ombro nu, na curva do pescoço como se estivesse tentando se desculpar por todas as vezes em que não demonstrou apoio mais cedo . Fechei os olhos, permitindo que aquele gesto me acalentasse, mesmo que algo dentro de mim, muito no fundo, ainda sentisse a ausência dele nas horas em que mais precisei.
— De verdade, Marcela. Eu vi o quanto você se dedicou. Você merece isso. — disse contra minha pele, e senti sua respiração quente me atravessar feito um afago.
Suas mãos deslizavam com calma pelas minhas costas, desenhando caminhos que ele já conhecia, mas que pareciam novos naquela noite. Era diferente. Não havia pressa, não havia automatismo. Havia presença. Havia desejo, mas também ternura.
Nosso beijo começou com lentidão, se intensificando à medida que nossos corpos se ajustavam, como duas peças de um quebra-cabeça que, apesar do desgaste do tempo, ainda se encaixavam. Meus dedos se entrelaçaram aos cabelos dele enquanto ele me envolvia com firmeza, como se quisesse me prender ali, naquele instante.
Ricardo me olhou como se me visse pela primeira vez. Como se naquele instante tudo nele estivesse voltado apenas para mim. Seus olhos passearam pelo meu corpo com uma reverência quase silenciosa, e ele se aproximou, colando seu peito quente no meu.
— Vem cá — sussurrou, com a voz rouca e baixa, me puxando para o colo dele.
Devagar, ele puxou a alça da minha camisola, deslizando-a pelo meu braço até deixá-la cair pelos meus quadris. Meu corpo ficou exposto para ele, e mesmo depois de anos juntos, senti minhas bochechas corarem.
Sentei sobre suas pernas, sentindo a pele dele quente contra a minha. Seu tronco nu, forte e familiar, me envolveu num abraço onde meu corpo parecia se encaixar naturalmente. As mãos dele subiram pelas minhas costas, e o arrepio que me percorreu foi quase eletrizante.
Meu corpo respondeu ao dele, como se fôssemos uma dança ensaiada há anos. A forma como ele me tocava dizia mais do que qualquer palavra: ele me admirava, me desejava, me reconhecia. E naquele momento, tudo o que eu precisava era me sentir assim, inteira, amada, celebrada por ele.
Seus lábios tocaram minha clavícula, depois desceram até os s***s, com beijos demorados, úmidos e provocantes. Meu corpo reagia em ondas, como se cada toque ativasse uma memória sensorial adormecida. Meus dedos se apertaram em seus ombros enquanto ele traçava um caminho lento, torturante e delicioso entre minha pele e sua boca quente.
Me inclinei para ele, buscando seus lábios. O beijo foi profundo, urgente. Minhas pernas apertaram sua cintura e senti seu corpo rígido contra o meu, o desejo dele tão evidente quanto o meu. Ele deslizou os dedos entre minhas coxas com a precisão de quem conhecia meus limites e gostava de empurrá-los devagar, meticulosamente.
— Você está tremendo — ele murmurou, com um sorriso no canto da boca.
— É você... — respondi, ofegante, apertando as mãos em seus cabelos.
Ricardo manteve o toque até que meu corpo arqueou, tenso, pedindo mais. Quando finalmente retirou os dedos de dentro de mim, me olhou nos olhos e levou a mão até a boca, lambendo-os devagar, como se saboreasse um vinho raro. Depois se aproximou, colando os lábios nos meus, me beijando com intensidade, com fome.
— Sente o seu gosto... — sussurrou entre o beijo, e aquilo me arrepiou inteira.
Eu gemi contra a boca dele, deixando minhas mãos deslizarem por suas costas quentes. O desejo entre nós já não era só físico, era um idioma sem tradução, feito de pele, suor e entrega. E naquele momento, mais do que nunca, eu era dele. E ele, meu.
Ricardo me deitou devagar sobre os lençóis, cobrindo meu corpo com o dele. Seus quadris se encaixam aos meus com uma naturalidade antiga, mas cada movimento parecia novo. Meus suspiros escapavam entre beijos e mordidas suaves, e quando ele entrou em mim, tudo o que eu podia fazer era me agarrar a ele, completamente entregue.
— Você é minha perdição, Marcela — disse ao me penetrar devagar, com olhos fixos nos meus, como se me invadisse por completo — corpo, alma, pensamento.
O ritmo era lento, como se o tempo não tivesse pressa. Nossos corpos conversavam sem palavras, no vai e vem profundo, molhado, entre gemidos abafados e olhares fixos. Eu me perdia nas sensações, no calor, na pele, nos cheiros. O mundo inteiro cabia naquele momento. Era entrega. Era amor. Era o que me fazia, mesmo nos dias mais difíceis, lembrar por que escolhi estar ali.
Ele apertou meus dedos com força, e quando o ápice veio, foi como um mergulho, inteiro, intenso, quente, feito para durar na memória. Nos olhos dele, vi ternura e prazer entrelaçados. Ele me beijou uma última vez, mais doce, mais calmo, e deitou ao meu lado, puxando-me para perto.
Encostei a cabeça em seu peito, sentindo o ritmo desacelerado do seu coração. Ele beijou minha testa e sussurrou:
— Parabéns, doutora. Você merece o mundo.
Sorri no escuro, sentindo que, mesmo com todas as dúvidas que ainda existiam, naquela noite, naquele instante, tudo fazia sentido.