4

1534 Words
A luz do sol atravessava a cortina branca com delicadeza, criando desenhos dourados sobre o lençol amarrotado. Pisquei os olhos devagar, permitindo que o calor daquela manhã suave me abraçasse. Por um instante, fiquei ali deitada, imóvel, tentando prolongar a sensação que ainda dançava pela minha pele, a memória da noite anterior, da forma como ele me tocou, das palavras sussurradas entre beijos e carícias, da maneira como meu corpo respondeu a cada movimento seu. Isso me fez lembrar de como nos conhecemos. Nunca imaginei que um dia fosse flertar com alguém dentro do hospital. Mas foi exatamente ali, entre plantões estressantes e cafés apressados, que comecei a prestar mais atenção em Ricardo. Ele era alto, com a pele clara e os olhos escuros que carregavam uma intensidade silenciosa. Os cabelos castanho-escuros estavam sempre impecavelmente alinhados, e a barba bem-feita, aparada com precisão, contornava seu maxilar forte. E, por baixo do jaleco, dava para notar um corpo definido, resultado de uma disciplina visível. Ricardo era bonito, sério, daquele tipo que parece estar sempre resolvendo coisas importantes, mesmo quando só está indo buscar água. Tinha um ar protetor natural, uma atitude que o destacava no ambiente médico. No início, eu só o observava de longe. Tinha receio de me aproximar. Ele parecia inatingível, e eu... bom, eu sempre fui pé no chão demais pra alimentar crushes impossíveis. Mas o destino adora brincar com a gente, foi só quando fizemos aquela monitoria de anatomia juntos que as coisas mudaram. Ricardo começou a me notar, a me olhar de verdade, de um jeito que fazia meu coração acelerar mais do que qualquer taquicardia de paciente. Ele me surpreendeu flertando de forma sutil, quase imperceptível, mas que para mim parecia um terremoto. Um sorriso contido no canto dos lábios, um toque leve no braço enquanto falávamos sobre o coração humano em aula, foi aí que ele me conquistou. Ricardo começou a puxar conversa nos corredores, me lançava aqueles sorrisos de canto de boca que desmontavam qualquer tentativa de parecer indiferente. Ele tinha um jeito de olhar, de inclinar o rosto quando falava comigo, que me deixava completamente sem saber o que dizer. E quando percebi, já estava esperando encontrá-lo todo dia, mesmo que fosse só por alguns segundos. Pensei em como ele sempre parecia saber o caminho, como suas decisões eram firmes, como ele me dava uma sensação de segurança em um mundo que, muitas vezes, parecia caótico. Era por isso que eu o amava, não era? Por essa força que ele representava, por essa estabilidade que ele oferecia. A primeira vez que ficamos juntos não foi num cenário de filme romântico. Foi dentro do próprio hospital, num fim de tarde silencioso. Não foi mágico no sentido clássico, não teve trilha sonora, nem flores. Mas teve algo mais valioso: ternura. Teve cuidado, teve aquela tensão gostosa de dois corpos que se reconhecem. Teve o Ricardo de verdade. E foi aí que minha história com ele começou. Hoje, deitada na nossa cama, com o lençol ainda quente do nosso corpo da noite passada, senti tudo isso voltar como um redemoinho calmo no peito. Estiquei a mão instintivamente ao meu lado, mas encontrei apenas o vazio morno do colchão. Ele não estava ali. Senti uma pontada breve de decepção, mas logo notei um papel dobrado repousando sobre o travesseiro, junto a uma pequena barra do meu chocolate preferido. Sorri sem querer, levando o bilhete até os olhos ainda sonolentos. "Você dormia tão tranquila que não tive coragem de te acordar. Fui trabalhar cedo, mas queria que soubesse: a noite de ontem foi inesquecível. Quero mais. Te deixei um chocolate no criado-mudo — do seu preferido. R." Meu coração se apertou com ternura. Era raro vê-lo tão expressivo em palavras, tão entregue assim. Aquilo me fez lembrar o início da nossa história . Quando ele ainda era uma espécie de mistério pra mim. Sorri sem conseguir controlar. Peguei o chocolate e abracei o travesseiro com força, como se quisesse absorver de novo tudo que aconteceu. O que vivemos ontem me fez lembrar da nossa primeira noite. Aquela festa universitária bagunçada, com música alta e gente bêbada demais, foi o ponto de partida. Ricardo me convidou para ir ao apartamento dele, e eu fui com o coração acelerado, como se estivesse pisando fora de mim pela primeira vez. Lembro de como ele me recebeu com calma, como se não tivesse nenhuma pressa. A gente conversou um pouco, riu das besteiras da festa, e só depois ele se aproximou de verdade. Me beijou devagar, como quem descobre algo precioso. Me levou até o quarto com segurança, sem pressa, sem medo. E ali, pela primeira vez, eu senti o toque dele não só na pele, mas por dentro. Ricardo sabia muito bem usar as mãos, meticuloso, calmo, preciso. Como um bom cirurgião. Como um homem que entende os detalhes. Foi essa mesma sensação que revivi na noite passada. Ele foi o mesmo: atento, firme, mas gentil. Como se o tempo não tivesse passado. Como se meu corpo ainda fosse o mapa que ele aprendeu a decifrar naquela primeira noite. Deslizei os dedos pela coxa, lembrando da textura da pele dele contra a minha, do modo como nossos corpos se reconheciam como se fosse a primeira vez. Fechei os olhos por um instante, sentindo aquele calor voltar de leve, apenas como uma lembrança gostosa. Depois respirei fundo e me sentei na cama, determinada a começar o dia. Havia algo importante para fazer. Me levantei, vesti meu robe e caminhei até a cozinha. O aroma leve do chocolate me seguiu, e a imagem do bilhete continuava viva na minha mente, me dando forças para encarar o que vinha a seguir. Peguei o celular, hesitando. Contar para minha mãe sobre o concurso era como preparar o terreno para uma batalha. Sabia que ela me parabenizaria pela aprovação – a "concursada" era um selo de segurança e estabilidade, algo que ela valorizava – mas o local... Ah, o presídio. Isso seria um problema. Abri o aplicativo de mensagens. A tela branca do chat da minha mãe me encarava como se dissesse “vai, coragem”. Meus dedos hesitaram antes de escrever. Apaguei. Escrevi de novo. Até que, finalmente, deixei as palavras saírem: “Mãe, preciso te contar uma coisa importante. Passei no concurso. Fui convocada para trabalhar como médica no presídio. Eu sei que você tinha receios, mas queria que soubesse o quanto essa conquista significa pra mim.” Enviei. O coração martelava no peito, mas também havia alívio. Um suspiro profundo escapou dos meus lábios. Eu estava cansada de esconder a felicidade debaixo dos medos alheios. A verdade é que essa mensagem estava sendo adiada por um motivo: minha mãe sempre foi contra a ideia de eu trabalhar como médica em um presídio. Desde o princípio, quando apenas comentei sobre a possibilidade de prestar o concurso, ela foi categórica: "Num presídio, Marcela? Isso não é lugar para uma mulher como você. Perigoso. Desnecessário. Você se formou para cuidar de vidas, não para se meter com criminosos. O que as pessoas vão pensar?" As palavras dela, as preocupações com o que "as pessoas" diriam, eram como farpas que se prendiam em minha mente. Eu sabia o quanto isso a afligiria, o quanto ela se preocuparia com o impacto na imagem da família. E, de certa forma, isso me afetava. Cresci em um lar onde a reputação e o status profissional eram pilares inegociáveis. Antes de morar com Ricardo, dividia um kitnet apertado com duas amigas da faculdade – um período de liberdade e bagunça que minha mãe sempre via com certa desaprovação, como se eu estivesse "desperdiçando meu potencial" ao não buscar algo mais "adequado" e alinhado com o nome da família. Desde o início, ela deixou claro que esperava me ver seguindo um caminho mais tradicional, como assumir uma vaga em um hospital particular ou, quem sabe, trabalhar ao lado dela na gestão. Para ela, o presídio era perigoso demais, indigno demais, e, no fundo, acho que ela nunca conseguiu dissociar minha imagem da de uma filha que precisava ser protegida. Não seria uma conversa fácil e talvez por isso eu estivesse adiando tanto. Suspirei e encostei os cotovelos no balcão. Minha mãe era gestora de um hospital conhecido, admirada por muitos, respeitada por todos. Sempre me orgulhei dela. Mas ser filha de uma mulher tão forte e exigente às vezes era como carregar uma sombra grande demais. Meus pais moravam em outra cidade, a algumas horas dali, junto com meu irmão Hugo, o queridinho da família, dentista como o papai. Eles sempre foram unidos, e eu nunca fui excluída, mas... era como se estivesse num lugar à parte. Sempre fui a diferente. A filha que escolheu medicina quando todos esperavam odontologia. A que preferia plantões a reuniões sociais. E agora, a que decidiu enfrentar os corredores frios de um presídio em vez dos corredores iluminados de um hospital particular. Olhei pela janela. A manhã seguia quente e luminosa, como se o mundo me dissesse que tudo ficaria bem. Talvez minha mãe não entendesse agora. Talvez demorasse. Mas era a minha vida. Minha escolha. E, pela primeira vez em muito tempo, eu estava orgulhosa de mim.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD