"Muitas vezes do inesperado,
nasce o que se espera uma vida inteira."
Mesmo que já houvesse tomado meu banho e estivesse em minha cama me preparando para dormir, meus pensamentos não saiam do banheiro, ou melhor dizendo, Lorenzo. E se Caterina não estivesse lá? E se ela não chegasse no banheiro naquela hora? Ele teria vindo comigo até o apartamento de Valerie?
Suspirei cansada, desejando que esses pensamentos um tanto errado com o meu chefe fossem embora.
— No que você tanto pensa? — Valerie perguntou assim que se sentou a mesa para tomar café da manhã.
— Não sei ao certo. — Respondi. — Sabe quando tudo te leva a uma pessoa?
— Está apaixonada senhorita Giullia? — Valéria perguntou debochada.
Dei risada da sua forma de falar e balancei a cabeça negativamente.
— Não é isso. — Neguei. — É mais uma coisa do tipo, você conhece alguém e vê que essa pessoa não é lá flor que se cheire, mas de repente acontecem algumas coisas que começam a fazer você mudar de opinião?
— Nem todas as pessoas mostram suas verdades logo de cara. — Opinou. — Você está há poucos dias na cidade, irá conhecer as pessoas aos poucos.
Minha prima estava a certa. Eu deveria ir mais com calma, essa coisa de ser intensa demais me trazia mais desafios do que era certo para o momento.
Eu não deveria estar criando tantas expectativas referente ao meu chefe, mas como Giovani já havia dito tanto para mim sobre sua vida, agora eu estava muito curiosa para saber sobre Lorenzo, mesmo que isso não fosse da minha conta.
— Já sabe quais são seus dias de folga? — Perguntou Valerie enquanto digitava freneticamente em seu celular.
— Toda segunda-feira, e um domingo sim e um não. — Respondi, lembrando do que Álvaro havia me falado no segundo dia de trabalho.
O restaurante não abria nas segundas-feiras, e domingo só abria no horário do almoço, portanto, trabalhavam em equipe reduzida.
— Quero que conheça alguém. — Valerie falou. — Vou marcar o jantar para segunda.
Alguém? Valerie estava saindo com alguém? Estava namorando e iria me apresentar uma pessoa?
Será que eles já estavam juntos há algum tempo e isso poderia afetar minha vida por eu estar morando com ela?
Passei o resto do meu dia pensando em quem iria conhecer na segunda-feira.
Estava terminando de passar o pano em todas as mesas como de costume e então iria colocar as flores e velas que ficavam em cada mesa como de costume.
Novamente fui atraída por risadas, mas dessa vez se tratava de Giovani e Lorenzo entrando no restaurante. Assim que ergui a cabeça para olhá-los, suas atenções vieram diretamente a mim.
— Boa noite Giullia. — Giovani falou educadamente.
Lorenzo ergueu a cabeça encarando o primo, como se houvesse estranhado aquela i********e.
— Boa noite senhor Giovani, boa noite senhor Lorenzo. — Saudei.
Giovani sorriu, dando um soquinho em Álvaro que estava apoiado no balcão, Lorenzo balançou a cabeça no ar sem dizer nada e adentrou o escritório.
Nada educado como de costume.
Terminei de aprontar as mesas perto do horário do restaurante abrir. A porta se abriu e o furacão Caterina adentrou o lugar, ela não me parecia bem. Os olhos estavam vermelhos e o rosto inchado como se houvesse chorado recentemente. Ela basicamente passou voando pelo salão até a cozinha.
— Será que o Lorenzo terminou com ela? — Álvaro cochichou perto do meu ouvido.
Dei de ombros, afinal eu não sabia e havia prometido para mim mesma que não falaria sobre meus chefes, principalmente aqui dentro onde qualquer um deles poderia me pegar no flagra.
Logo um barulho de louças sendo quebradas e gritos passaram a vir da cozinha, fazendo com que todos os funcionários que estavam no salão estivessem assustados com seus olhos arregalados.
— Você é um canalha. — Caterina falou saindo da cozinha. — Você é o pior de todos eles.
— Tente se acalmar. — Lorenzo pediu vindo logo atrás. — Você não deveria estar falando sobre isso aqui dentro.
Logo o senhor Riccardo saiu do escritório e passou a assistir aquele show calado, porém, era nítido que ele estava começando a ficar vermelho pelo vexame que estavam fazendo ali na frente.
Por sorte ainda faltavam alguns minutos para o restaurante abrir e para os clientes começarem a chegar.
— CHEGA! — Esbravejou. — Quero os dois fora daqui.
— Mas pai. — Lorenzo contestou.
— Os dois, RUA! — Mandou.
Caterina parecia satisfeita com o nervosismo do seu sogro, poderia chamá-lo assim? O sorriso de satisfação estava estampado em seu rosto.
O senhor Riccardo parecia nervoso, suas mãos estavam tremendo, por conta disso enchi um copo de água e levei até o mesmo.
— Acho que o senhor deveria se sentar. — Aconselhei, guiando-o para o escritório e ajudando-o a se sentar.
— Você é muito atenciosa, grazie. — Agradeceu. — Eu falei inúmeras vezes para Lorenzo que ele não deveria misturar as coisas com Caterina, que ela estava criando sentimentos, mas ele não me houve.
Eu nunca havia entrado no escritório até então, só nesse momento que passei a reparar as fotos daquela mulher que estava no colar de Lorenzo pela mesa de Riccardo.
— Paola, minha esposa. — O Sr. Riccardo notou meu interesse nas fotos. — Ela faleceu quando Lorenzo tinha dez anos.
— Deve ter sido muito difícil para vocês, sinto muito por isso. — Confessei.
— Ela tinha câncer de mama, um estágio mais avançado que a mãe de Giovani, elas são irmãs, a mãe delas também tiveram. —
Explicou. — Foi muito difícil para Lorenzo conviver com a morte, foram dias sombrios, anos na verdade, às vezes acho que ele ainda não se curou.
— Sei bem como é, também perdi alguém, meu pai se foi e levou com ele uma parte de mim. — Contei.
— Na terça-feira fará 20 anos da morte de sua mãe, então, prepare-se para um dos piores dias de se trabalhar aqui. — Avisou.
Fomos atraídos pela porta que se abriu, mostrando um Lorenzo bastante chateado ou quem sabe raivoso. Ele simplesmente fez sinal para que eu saísse da sala e assim fiz, provavelmente teriam uma conversa bastante delicada ali dentro.
Algo dentro de mim dizia que Lorenzo poderia estar zangado comigo, pela forma como ele me olhou quando sua conversa acabou e ele saiu de lá me fuzilando com o olhar. Era intimidador, seus olhos me olhavam como se me visse nua.
— Ah, antes que eu esqueça. — Ele disse antes de entrar na cozinha. — Essa noite você será a minha sub chef.