"Muitas vezes do inesperado,
nasce o que se espera uma vida inteira."
Finalmente segunda-feira havia chegado, constatei que definitivamente estava precisando de um dia de folga, embora houvesse prometido para Valerie que iria fazer o jantar essa noite para nós três.
Ela havia saído logo após o café da manhã para trabalhar e mantido o mistério sobre quem viria jantar conosco essa noite.
Lembro-me bem de antes de sair de casa, ela ter colocado a cabeça para dentro e me olhado em expectativa.
— Faça uma lasanha à bolonhesa, por favor. — Pediu.
Levantei o polegar em direção dela, avisando que com certeza eu faria o que estava pedindo. Ela já havia feito favores demais para mim, o maior deles me deixar ficar em seu apartamento. Mesmo que ela estivesse precisando de ajuda para pagá-lo, poderia ter oferecido a chance para qualquer amiga sua, em vez disso me deu oportunidade de voltar para Gênova.
Como não tinha nada para fazer, iria aproveitar o tempo livre para preparar alguns cannolis para a sobremesa. A única coisa que não gostava em toda essa curiosidade, era não saber o quanto a pessoa que viria comeria.
E se eu cozinhasse pouca quantidade? Quem sabe eu devesse cozinhar como se fosse para quatro pessoas, mesmo que sobrasse comida, era melhor do que faltar.
Um pouco após o almoço solitário no apartamento, fiz uma chamada de vídeo para mamãe. Ela e Teresa pareciam bem. Estavam rindo e contando várias coisas, o que de certa forma aliviava meu coração.
Esperava que dentro de no máximo dois anos conseguisse dinheiro o suficiente para trazê-las.
Estava empolgada preparando a lasanha bolonhesa que havia combinado com Valerie, o cheiro dela estava espetacular. Embora não fosse um prato que se costuma fazer em um restaurante como o que eu trabalhava, era um dos meus preferidos para comer.
Ouvi passos no corredor e logo o trinco da porta foi girado. Valerie entrou primeiro no apartamento e fez sinal para que quem estivesse do lado da porta entrasse. Me agachei alguns segundos para mexer na temperatura do forno, quando levantei a cabeça novamente, havia uma moça ao lado de Valerie, minha atenção foi desviada para suas mãos entrelaçadas.
Uau, minha prima estava namorando uma mulher e eu não sabia disso? Por que ela nunca me falou que gostava de mulheres? Nós tínhamos i********e para isso, sempre conversamos sobre tudo.
— Então, essa é a Elisa, minha namorada. — Apresentou-a. — Essa é a minha prima que veio de Potenza.
Apertei a mão dela que estava em minha direção e lhe dei um meio abraço, com um beijo na bochecha, vim de uma família receptivamente calorosa.
— É um prazer conhecê-la. — Falei. — Fiz lasanha e cannoli, espero que goste.
— Lasanha é definitivamente a minha comida preferida. — Elisa falou animada ao sentar-se na mesa.
A lasanha já havia terminado de dourar como o esperado, então a coloquei na mesa. Valerie parecia nervosa pelo jantar, seus olhos me procuraram a noite toda, quem sabe em busca de uma aprovação, que na verdade ela não precisava.
Será que em algum momento teve medo do que eu acharia de seu relacionamento? Jamais seria contra qualquer relacionamento.
— Agora, por favor, estou curiosa sobre como se apaixonaram. — Pedi, eu era apaixonada pela história de amor dos meus pais, então amava escutar histórias de amor.
Elisa começou a contar que tudo começou na empresa que trabalham. Que ela foi efetivada e passou para o mesmo setor que minha prima estava trabalhando. Falou um pouco sobre como Valerie a ensinou a melhorar seu desempenho em um dia que houve uma grande falha na empresa.
— Enquanto todos eles se recusaram a me ajudar, ocupados demais com seus trabalhos, Valerie me estendeu a mão. — Elisa falou com carinho. — Foi ali que me apaixonei.
Era interessante como seus olhos brilhavam, eles demonstravam que havia muito amor ali, entre elas. Você sabe quando é de verdade, quando consegue perceber a troca de olhares inevitável, como se seus olhos buscassem a noite toda.
Apoiei meus cotovelos na mesa, e meu queixo em minhas mãos. Passei admira-las, a forma como suas mãos se esbarravam e sorrisos envergonhados surgiam a cada toque, como se aquele relacionamento fosse recente.
As duas ficaram tomando vinho na sala e decidi que deveria deixá-las sozinha a partir daquele momento. Estavam envolvidas em uma conversa sobre algo particular, mas divertida, porque davam inúmeras risadas.
Deixei toda a louça lavada e secando do escorredor. Tomei um banho rápido e quente e me aconcheguei em minha cama.
Amanhã seria um dia delicado, lembrava de cada palavra dita pelo senhor Riccardo. Amanhã faria vinte anos da morte de sua esposa e não seria fácil trabalhar com Lorenzo.
Agora que passaria alguns dias na cozinha, até que acertassem as coisas com Caterina, não sabia se iria retornar ao trabalho, porque eles não falavam nada sobre isso comigo, não que precisassem, mas parte de mim gostaria de saber se continuaria trabalhando na cozinha.
Eu havia adorado começar a ajudar Lorenzo a fazer os pratos. Eu amava demais cozinhar e era como se eu estivesse ainda mais perto de papai.
Mesmo que Lorenzo fosse muito arrogante comigo, era um bom professor, e era visível que ele cozinhava com muito amor.
Apesar de não ter o hábito de rezar desde que papai havia partido, nessa noite em especial decidi rezar.
— Senhor, antes de qualquer coisa gostaria de agradecer o privilégio que está sendo trabalhar no que gosto. — Agradeci. — Queria agradecer por estar olhando pela mamãe e Teresa e por deixá-las forte em Potenza. Mas agora, queria que o senhor olhasse com atenção para Lorenzo, amanhã será um dia difícil para ele, não me importo que ele não me trate bem, mas queria aliviasse a dor que irá sentir. Amém.
Eu estava rezando para um estranho, o que era diferente para as minhas orações. Apesar de eu sempre pedir pelas pessoas do mundo, definitivamente essa minha oração fora destinada exclusivamente a alguém.
Eu entendia a dor da perda. Felizmente eu tive a sorte de ter papai por mais tempo, tive o privilégio de passar boa parte da minha vida ao seu lado. Lorenzo era muito pequeno e impactou muito em sua vida não ter uma figura materna. Agora Giovani estava vivendo por algo parecido, mas tendo a sorte de poder passar bons anos ao lado de sua mãe.