09 // Substituir?

1198 Words
"Muitas vezes do inesperado, nasce o que se espera uma vida inteira." Estava tentando recordar um pouco da noite em que trabalhei na cozinha no lugar de Giovani, e eu claramente não lembro de Lorenzo ter tratado Caterina tão m*l, como ele estava me tratando agora. Era como se nada que eu estivesse fazendo fosse certo, criticava cada passo que eu dava na cozinha. — Se continuar assim nunca trabalhará numa cozinha. — Disse raivoso. Parte de mim sentiu dor ao ouvir suas duras palavras, mas eu sabia que ele não estava lá em um momento bom, então, por conta disso relevei, mesmo porque não poderia abrir mão do meu emprego. Agradeci mentalmente por a chuva ter aparecido naquela noite novamente, fazendo com que o movimento fosse mais leve de ser levado. Ainda assim, cozinhamos e preparamos muitos pratos. Não era nada que eu nao soubesse fazer ou que tivesse muito segredo, a maioria deles de alguma forma já havia preparado com papai, só mudava a questão de montar o prato. Lorenzo estava encostado em uma bancada da cozinha com os olhos fechados, havíamos entregado os últimos pratos e logo o restaurante seria fechado. Passei por ele com as panelas em direção a pia, onde as mulheres iriam começar a lavar os utensílios. Retornei para perto de Lorenzo com cautela. — O Sr. irá precisar de mais alguma coisa? — Perguntei fazendo-o abrir os olhos. Encarou meus olhos por alguns segundos, fazendo com que eu desviasse o olhar. — Você pode ir embora, todos já foram basicamente. — Avisou com a voz baixa. Quando ele se retirou da cozinha, aproveitei o curto momento para ajudar as mulheres a lavarem os últimos pratos que haviam ali. O grande problema é que todo mundo se assustou ao ouvir um grito, que me parecia de dor e um forte barulho, como se alguém houvesse batido em alguma coisa. Caminhei a passos lentos até onde era perceptivo o barulho do choro de alguém, vinha do banheiro dos funcionários. Mexi no trinco da porta e constatei que a porta estava aberta. Que diabos alguém deixa uma porta aberta ao tomar banho? Em um local que qualquer pessoa poderia entrar facilmente. A tranquei no instante que adentrei o local para que ele tivesse privacidade. Ouvi os soluços e palavrões ditos, e ao olhar para a direção do chuveiro, encontrei Lorenzo sentado no chão. Ainda estava com sua roupa, mas estava completamente encharcado. Sentei ao seu lado, encostando nossas pernas, fazendo com que a água respingasse um pouco em mim. Lorenzo notou minha presença e travou sua mandíbula. — Você é muito metida. — Reclamou. — O que está fazendo aqui? — Você não trancou a porta. — Respondi ao dar de ombros. — Isso não quer dizer que eu queira alguém aqui. — Afirmou raivoso. Olhei para ele e vi sua mão vermelha com resquícios de sangue, ao olhar para o chão, constatei que ele havia se cortado de alguma forma, por conta do tom avermelhado indo pelo ralo. — Você se machucou? — Perguntei, pegando sua mão e a olhando com cuidado. — Talvez eu tenha socado a parede. — Respondeu como se não fosse nada. — Não deveria descontar seu sofrimento assim. — Afirmei. — Talvez chorar seja melhor. Lorenzo bufou ao meu lado e passou as mãos pelos olhos, para tentar evitar que as lágrimas continuassem, mas seus olhos estavam bem avermelhados. — Por que você acha que eu estou sofrendo? — Perguntou com a voz travada. — Porque eu sei o motivo de estar aqui. — Falei encarando seus olhos. O seu olhar agora era diferente, me olhava com curiosidade e atenção. Coloquei a mão sobre a sua mão que não estava machucada e a apertei, o que o fez fechar os olhos e deixar as lágrimas rolarem novamente. — Vai embora. — Mandou entre soluços. — Eu não vou a lugar nenhum. — Afirmei. — Meu pai me ensinou a fazer pelas pessoas enquanto elas estão aqui, enquanto estão vivas. Desliguei o chuveiro minutos após minhas palavras. Estendi a mão para que ele se levantasse, apesar de ter relutado muito com a minha atitude, aceitou minha mão e se levantou. Saímos lá de dentro em silêncio, porém juntos. Passei no armário pegar minhas coisas, todos já haviam ido embora. Lorenzo trancou a porta atrás dele e eu me encostei na parede do restaurante, procurando um carro no aplicativo para ir embora. Lorenzo foi até seu carro, mas estava caminhando em direção ao banco do carona, abriu a porta e apontou para mim. — Entre. — Falou autoritário. Pensei antes de entrar, mas quer saber? Dane-se. — Está bem para dirigir? — Perguntei. — Você sabe dirigir? — Perguntou curioso como se soubesse a resposta. — Não. — Balancei a cabeça negativamente. — Não fiz a carteira, nunca tive dinheiro para poder pagar. Ele deixou um pequeno sorriso escapar. Não esperava que fosse se animar de alguma forma. Lorenzo já havia dirigido tanto e eu ainda não havia passado meu endereço para ele. — Eu moro na... — Quando estava prestes a dizer meu endereço, fui interrompida. — Não estamos indo para a sua casa. — Afirmou. Agora ele iria descontar sua fúria me matando? Estava bastante curiosa para saber para onde estaria indo. Me tranquilizei quando o vi abrir um portão automático em um prédio e guardando seu carro no estacionamento. — Por que me trouxe aqui? — Perguntei já no elevador. — Quero saber o motivo de saber sobre minhas lágrimas. — Respondeu. Será que ele ficaria muito bravo por seu pai ter contado sobre sua vida particular? E se eu dissesse tudo que sabia? Ele arrumaria um jeito de me afastar ainda mais? Ele pediria para seu pai me demitir? Estava muito confusa entre contar e não. Eu poderia mentir e dizer que escutei atrás da porta uma conversa de seu pai e seu primo. E então ele me demitiria por estar ouvindo atrás da porta. Mais uma vez estava encurralada em tomar uma decisão. — Aceita um chocolate quente? — Ofereceu indo para a cozinha. Ele não me parecia o tipo de pessoa que faz um chocolate quente para uma estranha, ainda mais uma estranha que se mete em sua vida. Balancei a cabeça positivamente e me aproximei da cozinha, encostando as costas na bancada, olhando-o atrás do fogão. Chocolate em **, leite, amido de milho, açúcar, canela em ** e creme de leite. O cheiro estava maravilhoso. — Seu pai me contou sobre sua mãe, no dia que você e Caterina brigaram na cozinha. — Expliquei. — Ela vai voltar? Vai voltar a ser sua sub chef? Lorenzo se virou após colocar o chocolate quente nas xícaras e deixou-as na bancada. Aproximou-se de mim como se estivesse decidido a algo, passou os dois braços em volta do meu corpo, deixando uma mão de cada lado apoiado na bancada. — Você acha que é boa o suficiente para ficar no lugar dela? — Sussurrou com a voz rouca perto do meu ouvido, fazendo meu corpo se arrepiar com a aproximação. — Isso é você que tem que me dizer. — Sussurrei nervosa, com a voz falha.
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