"Muitas vezes do inesperado,
nasce o que se espera uma vida inteira."
Aproximei-me com cuidado de Lorenzo, fazendo com que nossas pernas tocassem uma na outra. Ele encostou sua cabeça em meu ombro, o que me deixou bastante impressionada. Não estava entendendo se isso era mais um jogo seu, ou se de fato estava querendo se aproximar. Apesar de parte de mim querer relutar e me afastar, meu corpo não obedecia bem meu cérebro.
— Pode chorar comigo, eu não ligo. — Sussurrei. — Quando perdi meu pai também senti o chão se abrir, como se eu não tivesse onde me segurar, a todo momento parecia que iria desmoronar.
— Você tem noção que já se passaram vinte anos e eu continuo da mesma forma? — Perguntou desanimado.
— Já pensou em procurar ajuda? — Perguntei. — Tive acompanhamento psicológico durante seis meses.
Tentei olhar para o lado para ver sua reação a minha sugestão, ele estava com os olhos fechados. Aos poucos ouvi sua respiração se acalmar, a respiração estava tranquila, cutuquei seu braço e percebi que não havia tido nenhuma reação.
O ajudei a deitar-se e utilizei sua coberta para mantê-lo aquecido. Lorenzo estava dormindo sereno, tranquilo, parecia ter encontrado uma confortável posição para dormir. Retornei para a cozinha em busca de um café, estava sem sono, então utilizei a cafeteira de Lorenzo para preparar quente.
Encontrei um cobertor extra no guarda-roupa do quarto de Lorenzo e o utilizei na sala, em seu sofá para me manter aquecida. Deixei a televisão ligada no volume mais baixo possível, apenas assistindo um programa de culinária que estava passando. Era uma competição americana em duplas.
Senti o cobertor se mexer em cima de mim, e uma pequena onda de ar gelado entrar pela fresta. Abri os olhos lentamente ao perceber que havia dormido no sofá e ao abrir completamente os olhos, me deparei com Lorenzo abaixado me olhando.
— Estava pensando se deveria levá-la ou não para a cama. — Sussurrou. — E então fiquei me perguntando o motivo de ainda estar aqui.
— Queria me certificar que teria uma boa noite de sono. — Expliquei. — Além do mais, não gosto de andar pelas ruas na madrugada.
Eu definitivamente tinha muito medo de que algo acontecesse comigo durante a madrugada, mesmo que morássemos em uma região bastante segura, sei que a qualquer momento algo r**m pode acontecer, quando menos esperamos.
— Venha. — Estendeu a mão em minha direção e eu a segurei.
Caminhamos até seu quarto, onde ele me colocou para dormir em sua cama e assim fiz. Havia sido um dia cheio e eu estava exausta. Aconcheguei-me em sua cama, sentindo seu cheiro na coberta que agora estava tampando meu queixo.
Ele não precisava ligar o seu ar tão gelado assim em seu quarto, mas a casa era sua e eu não iria reclamar.
Lorenzo se deitou onde antes estava deitado e permaneceu calado. A coberta cobria até a metade de seu peito, seus braços estavam acima de sua cabeça e seus olhos abertos, concentrado no teto acima de nós.
— O seu coração é muito bom. — Sussurrou. — Não deixe que as pessoas tirem isso de você, nem mesmo as mais amarguradas.
Era nítido que ele estava incluso nessa frase. Convenhamos que não recebia o melhor tratamento dele. Não pude deixar de sorrir ao ouvir sua frase e pensar em papai, e em tudo que me ensinou antes de partir.
Virei-me em sua direção e aproximei meu corpo, colocando a cabeça em seu peito, como fazia quando papai estava vivo e deitávamos os quatro na cama.
— Eu tinha uma conexão de outro mundo com papai. — Iniciei a contar. — Eu deitava minha cabeça em seu peito e parecia que todos os problemas desapareciam. Nós poderíamos passar horas ali falando sobre comida.
Senti que Lorenzo se ajustou e pousou sua mão em minha cabeça e aos poucos seus dedos passaram a acariciar ali. Fechei meus olhos no instante que senti seu toque e desejei que parássemos no tempo, eu sentia tanta a falta de momentos como aquele.
— Tenho certeza que ele está muito orgulhoso de quem você se tornou. — Afirmou.
O carinho continuou até que eu não aguentasse mais manter as pálpebras abertas. O cansaço venceu mais uma vez e me permiti dormi ali em seu abraço.
Um cheiro de perfume amadeirado adentrava minhas narinas. Sentia um corpo prensado contra o meu e assim que abri os olhos, constatei que estava diante de Lorenzo. Havíamos dormido juntos, basicamente grudados, como se ninguém houvesse se mexido na noite anterior.
Naquele instante me arrependi de não ter enviado uma mensagem para Valerie, ela com certeza estaria preocupada comigo. Afastei-me com cuidado e caminhei para a sala a procura de meu celular.
"Espero que não tenha a deixado preocupada. Esqueci de ligar avisando que não dormiria em casa essa noite, espero que não esteja brava. Conversamos mais tarde, até logo." Giullia
A minha bolsa já estava em meu ombro e estava prestes a sair de seu apartamento, quando ouvi passos atrás de mim.
— Você é do tipo que foge de manhã? — Lorenzo perguntou com a voz divertida, ele havia acordado de bom humor.
— Só quando eu não gosto muito do s**o. — Fingi entrar na onda dele, como se houvéssemos feito algo além de conversar na noite anterior.
Lorenzo se apoiou na parede com os braços cruzados, e riu debochadamente. Ele tinha um sorriso muito bonito, deveria rir mais vezes, sua risada era gostosa de ouvir.
— Quer dizer que eu mando tão m*l assim? — Se fez de ofendido.
— Vejo que alguém acordou de bom humor hoje. — Falei animada, depositando minha bolsa no balcão da cozinha.
— Digamos que eu tenha uma funcionária muito bisbilhoteira e insistente. — Reclamou.
Fora de longe o maior tempo de diálogo que tivemos sem que ele não estivesse me denegrindo com suas palavras. Não havia comentários travessos, ou arrogância na forma como falava comigo e isso era muito bom.
Me despedi dizendo que precisava voltar ao apartamento, hoje era o dia de lavar roupa e precisava aproveitar meu tempo livre antes de ir para o trabalho.