"Muitas vezes do inesperado,
nasce o que se espera uma vida inteira."
Estava terminando de amarrar o tênis em frente à televisão que passava as notícias do dia. Valerie havia acabado de chegar em casa e se sentou ao meu lado, aumentando o volume da televisão.
A reportagem mostrava o ato de vandalismo que houve a tarde no cemitério principal da cidade. Não entendia muito bem o que essas pessoas sentiam ao quebrar o que as pessoas batalharam tanto a conquistar.
Um local tão sagrado, onde enterrávamos nossos entes queridos para que pudessem descansar em paz.
— Um bando de idiotas. — Valerie falou irritada. — No mínimo são um bando de adolescentes sem cérebro.
Me perguntava por que essas pessoas não buscavam outras maneiras para expressar seus sentimentos. Não havia necessidade alguma de quebrarem tudo.
— Tenha uma boa noite, até mais tarde. — Falei antes de sair.
Estava endireitando as cadeiras nas mesas e ajustando as velas e flores no centro das mesmas. Lorenzo passou por nós como um furacão, batendo a porta atrás de si.
— Outro dia daqueles. — Álvaro desabafou ao meu lado. — O chefinho está ficando louco.
— Ele deveria estar frequentando um psicólogo. — Sussurrei.
Esperávamos que Caterina viesse para o restaurante nessa noite, como senhor Riccardo havia dito que haviam conversado para ela retornar ao trabalho. Mas já estávamos quase abrindo e nenhum sinal dela.
Giovani surgiu na porta da cozinha e fez sinal para mim.
— Pode nos ajudar na cozinha? — Giovani perguntou.
Era claro que eu iria, mas sabia muito bem que ele estava se referindo a ajudar Lorenzo.
Aproximei-me amedrontada de Lorenzo, tentando observar o que ele estava fazendo. Assim como os outros ajudantes que haviam na cozinha, ele estava acertando os cortes dos legumes e carnes para deixar tudo pronto para quando os clientes começassem a chegar.
Pelo menos nessa noite ele não estava falando nada. Quer dizer, vez e outra me dizia o que fazer com a voz baixa, como se já houvesse gasto toda a sua voz antes. Os olhos estavam vermelhos de quem havia chorado recentemente.
Maldita vida que nasci curiosa. Por que ele estava triste novamente? Era por conta da sua mãe? O fato de fazer vinte anos de sua morte estava mexendo com ele de novo?
Havia uma pequena televisão na cozinha que ficava no canal local, era horário do jornal novamente e enquanto servíamos os pratos, repassaram a reportagem do cemitério e do estrago que haviam feito.
Lorenzo simplesmente explodiu. Passou a jogar tudo que estava na sua frente no chão. Lágrimas percorriam seu rosto. Fortes estrondos ecoavam pela cozinha. Pratos quebrados estavam espalhados por todo chão.
Olhei em volta e todos olhavam assustados a cena. As senhoras que cuidavam da louça pareciam aterrorizadas, assustadas no canto da cozinha, como se tentassem se esconder.
Péssimo dia para o seu pai não vir para o restaurante. Giovani estava sem reação, não conseguia se mover. E então era eu, a funcionária metida que não conseguia cuidar da própria vida que teria que intervir.
Aproximei-me decidida enquanto ele derrubava tudo, e passei meus braços em volta de seu corpo, fazendo com que seus braços ficassem presos ao lado de seu corpo. Seu corpo estava rígido e conseguia sentir suas lágrimas caindo em mim.
— Acalme-se Lorenzo, por favor. — Pedi. — Está assustando a todos, os clientes estão escutando.
— Destruíram o túmulo de mamãe. — Choramingou. — Ela só queria descansar.
— Eu sei e sinto muito por isso, mas você precisa ficar calmo e parar com isso. — Pedi.
Aos poucos o corpo rígido de Lorenzo passou a relaxar em meus braços e quando menos esperava estava envolvida em um abraço. Ele havia abaixado sua cabeça de modo que ela estava encostada em meu ombro e chorava ali.
— Vamos usar a porta dos fundos e iremos embora. — Avisei.
Ele não havia estragado tudo, muitos dos acompanhamentos estavam prontos, ou seja, os outros ajudantes conseguiriam dar sequência em nossos pratos sozinhos. Giovani tomaria conta da cozinha até fecharem o restaurante, o que não demoraria muito.
Busquei minha bolsa no armário e conduzi Lorenzo para fora do restaurante até chegarmos em seu carro.
— Respire fundo. — Pedi. — Pelo menos até chegarmos em seu apartamento.
Fomos o caminho em silêncio como da primeira vez. Não esperava ficar muito ali, apenas até me certificar que ele se acalmaria e ficaria melhor.
Lorenzo caminhou até o seu quarto, e eu o segui, mesmo não recebendo nenhum convite. Assim que me encostei na porta, o vi se despir ali mesmo, não sei ao certo se sabendo que eu estava olhando.
Não consegui desviar o olhar, fiquei parada olhando-o trocar sua roupa de trabalho por uma calça de moletom escura. Ele se deitou em sua cama e ficou encarando o teto.
— Sei que terá a chance de fazer algo ainda melhor para ela. — Afirmei ao me sentar ao seu lado. — Mas de coração, mesmo que não me queira aqui e deteste que eu me meta na sua vida, acho que deveria procurar ajuda de um psicólogo.
Lorenzo virou a cabeça para me olhar, ele realmente parecia atento ao que eu estava dizendo.
— Sei que parece assustador procurar ajuda, não quer dizer que você esteja doente, só que precisa de alguém com experiência para seguir em frente. — Expliquei. — Nem sempre conseguimos desabafar e resolver nossos sentimentos com as pessoas que amamos. Às vezes o que precisamos é desabafar com um estranho.
— Eu odeio que você esteja aqui. — Sussurrou.
— Eu sei. — Afirmei. — Eu sei que sou muito intensa e metida, que com certeza não deveria estar interferindo na vida do meu chefe e que isso pode resultar na minha demissão amanhã, mas meu coração estará em paz, e é isso que importa.
Lorenzo soltou um pequeno sorriso e deu duas batidinhas no espaço da cama vazio ao seu lado, afinal, eu havia me sentado bem na ponta da cama, mantendo uma boa distância entre nós dois.