EDUARDO
A cozinheira havia preparado um bolo de chocolate, meu preferido. O aroma tentador se espalhava pela sala de estar, mas a simples ideia de pegar uma colherada daquele bolo já me causava enjoo. Sabia que meu estômago não estava bem e que, muito provavelmente, aquela refeição resultaria em um desagradável episódio de vômito. Mas eu forçava mesmo assim, engolindo com dificuldade, apenas para evitar chegar ao jantar com Rose com o estômago vazio.
O medo de passar m*l em público era uma preocupação constante. Eu não queria dar motivos para a mídia sensacionalista que rodeava a vida de um bilionário famoso na cidade. A cada garfada do bolo, a sensação de enjoo se intensificava. Era difícil mastigar o pequeno pedaço, e tomei um gole do chá para ajudar a descer.
O mordomo, sempre atento, percebeu minha aflição e perguntou com preocupação:
— Está tudo bem, senhor?
Eu o encarei, forçando um sorriso tenso.
— Sim — respondi, sentindo o gosto amargo da bile na boca. — Só preciso comer.
Após conseguir engolir o bolo e beber o chá, o mordomo trouxe os comprimidos de azia.
— Não vou tomar, isso vai piorar — disse, empurrando a mão dele.
O mordomo continuou preocupado.
— Tem certeza, senhor? Você tomou hoje de manhã e parece que melhorou.
Minha resposta foi seca.
— Tenho. Não posso tomar mais nada sem que o médico receite.
O mordomo olhou para mim, claramente inquieto com a minha condição.
— O que ele disse? — perguntou.
Eu dei um sorriso forçado.
— Nada que eu não possa resolver.
Caminhei em direção à escada, sentindo o estômago queimar. Eu precisava correr para o banheiro, mas não podia deixar ninguém saber, pelo menos ainda não.
A preocupação de encontrar Rose pairava sobre mim. Eu queria ser o primeiro a lhe dar a notícia. Não sabia como ela reagiria, mas estava determinado a enfrentar o que estava por vir.
Eu entrei na suíte, correndo desesperadamente para o banheiro. Não havia tempo a perder. Abaixei-me de frente à privada e vomitei, o estômago se contraindo de forma violenta. Sentia-me um lixo, um covarde, inútil, fraco demais. Deveria ter ido ao médico antes, em vez de ignorar os sinais. Agora estava ali, como o meu pai, uma sombra do que costumava ser, algo que eu deveria ter evitado a todo custo.
Enquanto eu me sentia fraco e indefeso, escutei passos se aproximando. Era o mordomo, o homem que era como um pai que nunca tive. Seus cabelos brancos denunciavam sua idade, mas seus braços eram fortes. Ele se aproximou e me ajudou a me levantar.
— Senhor... — começou ele com gentileza.
Mas eu estava irracional, irritado comigo mesmo, com a minha situação, e não queria aceitar ajuda. Empurrei o mordomo com brusquidão.
— Me viro sozinho — resmunguei, empurrando-o com raiva.
Não queria ser tratado como um inválido, mesmo que naquele momento me sentisse exatamente como um.
— Eu posso te ajudar, não precisa ser teimoso.
Minha frustração transbordou, e gritei, descontando minha raiva no mordomo.
— Não estou morrendo! Posso me virar sozinho!
O homem parecia magoado com minha reação, e se retirou do banheiro sem dizer mais nada. Senti-me m*l por tratá-lo daquela maneira, mas a sensação de autoaversão e impotência era esmagadora. Eu estava irritado comigo mesmo por ter sido negligente com minha própria saúde. Agora, precisava esfriar a cabeça.
Dei descarga e fui até a pia para lavar a boca e o rosto. Encarei meu reflexo no espelho e vi um homem doente, um estranho olhando de volta para mim. A sensação de desconexão com minha própria imagem era perturbadora.
— Não posso aparecer assim para a Rose — murmurei para mim mesmo, sentindo o peso da responsabilidade e o medo de como ela reagiria à notícia que eu estava prestes a dar.
Respirei fundo e tomei a decisão de esconder a exaustão e o m*l-estar que me consumiam. Não podia deixar que Rose visse o estado em que eu me encontrava. Eu precisava ser forte por ela, como sempre fui. Afinal, o mundo inteiro estava observando nosso relacionamento, e a última coisa que eu queria era preocupá-la ainda mais.
Enxuguei o rosto e a boca, tentando recuperar um pouco da dignidade que sentia ter perdido. Eu era um homem de negócios, um bilionário, e a fraqueza não fazia parte de meu repertório. No entanto, naquele momento, eu me sentia como um mero mortal, vulnerável e com medo do que o futuro me reservava.
Voltei ao quarto e peguei o celular, curioso e distraído, abrindo a página de notícias. Logo me deparei com uma história trágica. Um jovem de vinte e cinco anos havia morrido em um acidente de carro, quando um caminhão colidira com seu veículo. Fiquei pensando na fragilidade da vida, como um sopro que podia se extinguir a qualquer momento.
À medida que continuei a leitura, descobri que o jovem deixara para trás uma noiva. Eles planejavam se casar dentro de dois meses. Os pensamentos voaram para Rose, minha noiva. Nosso casamento estava marcado para daqui a cinco meses. O que ela faria se eu realmente morresse? Sofreria por mim da mesma maneira que o jovem deixara sua noiva sofrendo pela perda?
Sentei na beira da cama e respirei fundo, passando a mão na barba por fazer. Bloqueei o celular ao notar que faltavam apenas vinte minutos para o nosso encontro. Tinha que estar presente e forte para Rose, e não podia permitir que ela percebesse o turbilhão de pensamentos que dominavam minha mente naquele momento.
Vesti o blazer e saí do quarto, encontrando o mordomo parado na porta. Ele me olhou com preocupação, como sempre fazia.
— Estou bem — assegurei a ele. — Vou jantar com Rose.
Ele assentiu, com uma tonalidade paternal em sua voz.
— Cuidado.
Desejei poder abraçar aquele homem, mas eu não era esse tipo de pessoa. Mantive minha expressão serena e segui em direção à saída, determinado a enfrentar o que quer que estivesse por vir. A noite prometia ser desafiadora, e eu precisava estar à altura das circunstâncias, não só por mim, mas também por Rose.
Entrei no carro e senti o peso avassalador da responsabilidade. Dei a partida no motor e segui o caminho em direção à casa dos pais de Rose, meu coração pesado e cheio de pensamentos tumultuados. Enquanto parava em frente à casa dela, olhei para o lugar vazio no banco do passageiro, lembrando-me de como nossas conversas costumavam preencher o silêncio. Uma onda de dúvida me invadiu, e me perguntei se Rose sofreria por mim da mesma forma que a noiva do jovem no noticiário.
Balancei a cabeça para afastar esses pensamentos sombrios. Não era hora de deixar o medo tomar conta. Eu estava ali para apoiar Rose, para enfrentar o futuro ao lado dela, independentemente dos desafios que estivessem por vir. Com um suspiro, saí do carro e segui em direção à casa dos pais de Rose, determinado a ser o homem que ela precisava naquele momento difícil.