Capítulo 03

1054 Words
ANA Eu estava arrasada, debaixo do chuveiro, deixando a água quente escorrer sobre mim. As lágrimas se misturavam com as gotas, uma expressão física da dor que estava me rasgando por dentro. A água corria pelos meus cabelos e escorria pelo meu rosto, levando consigo um pouco do meu sofrimento. — Por que ele foi pilotar na rua durante a tempestade? — eu me questionava em voz alta, mesmo que ninguém estivesse ali para responder. As palavras ecoaram no pequeno banheiro, perdidas no vapor que preenchia o espaço. Ao terminar o banho, eu me envolvi na toalha, mas não pude evitar que meus olhos ainda estivessem cheios de lágrimas. Caminhei para o quarto, onde a televisão estava ligada, como se esperasse por mim. O noticiário mostrava a foto de Jhon, um sorriso congelado no tempo, e ao fundo, o local do acidente de carro. A voz da jornalista ecoava no quarto, descrevendo a tragédia que havia tirado a vida do homem que eu amava. — Um caminhão colidiu com o carro, o motorista não viu o semáforo vermelho durante a tempestade, acabando por colidir com o veículo — disse a jornalista com uma expressão séria. Eu me encolhi na cama, abraçando as pernas e lembrando da imagem de Jhon gelado na maca hospitalar, sem vida. As palavras da jornalista ecoavam na minha mente, e eu não conseguia evitar a sensação de que essa tragédia era irreparável. No silêncio do quarto, eu solucei, deixando as lágrimas fluírem livremente. O cheiro do sabonete do banho ainda pairava no ar, uma lembrança vívida de um momento que parecia distante e irreal. Mas a dor em meu coração era agonizante, real e implacável, e eu não sabia como seguir em frente sem a pessoa que significava o mundo para mim. O som do meu celular tocando quebrou o silêncio opressivo do quarto, interrompendo a tristeza e a solidão que me envolviam. Eu sabia quem estava ligando. Eram os amigos de Jhon, preocupados com ele, tentando obter informações sobre sua situação. Mas eu não queria atender. Não queria ouvir as palavras de pesar ou as perguntas que eu não tinha respostas. O som da televisão ainda ligada, combinado com o toque estridente do celular, tornava a atmosfera insuportável. O barulho ecoava em meus ouvidos de uma forma ensurdecedora, como se quisesse me lembrar de que o mundo continuava a girar, mesmo que o meu próprio mundo tivesse desmoronado. Eu coloquei as mãos nas orelhas, tentando abafar os sons que pareciam penetrar em minha mente. A pressão sobre meu peito se tornava quase insuportável, e a sensação de asfixia me dominava. Eu só queria que o barulho parasse, que o telefone deixasse de tocar, que as notícias na televisão desaparecessem. Mas nada disso aconteceu. O mundo continuou girando, a vida seguia seu curso implacável, e eu estava ali, no meio desse turbilhão de dor e perda, tentando encontrar um lugar seguro para me agarrar. Eu levantei da cama com determinação, determinada a pôr fim à cacofonia de sons que me cercava. Caminhei até a televisão e a desliguei, fazendo com que o quarto mergulhasse em um silêncio triste. Em seguida, eu tirei a toalha do corpo, sentindo o ar frio tocar minha pele úmida, enquanto meus cabelos ainda gotejavam água. Meus olhos se fixaram em uma camisa usada que estava jogada sobre uma cadeira. Era a camisa de Jhon, e eu a peguei, trazendo-a até o rosto. Fechei os olhos por um momento, sentindo o cheiro do perfume dele impregnado no tecido. A camisa era grande demais para mim, mas naquele momento, eu queria a sensação de estar envolvida por ele. Eu a vesti, sentindo a maciez do tecido em minha pele, e depois caminhei pelo quarto. Cada passo parecia pesado, como se eu estivesse carregando o peso do mundo sobre os ombros. Cheguei ao banheiro e peguei o secador de cabelo, começando a secar os fios molhados. Mas eu não conseguia me olhar no espelho. A dor emocional que me assolava parecia se manifestar fisicamente, e eu não queria encarar o rosto inchado pelas lágrimas ou os olhos vermelhos e vazios. Eu apenas continuava a secar os cabelos mecanicamente, tentando encontrar alguma forma de conforto na rotina. A camisa de Jhon envolvia meu corpo como um abraço, e eu me sentia mais próxima dele do que nunca. Naquele momento, a saudade e a dor eram insuportáveis, e eu não sabia como enfrentar um futuro sem ele ao meu lado. Eu peguei o celular, percebendo que a tela estava trincada. Era uma lembrança física de como eu havia deixado cair o aparelho no chão da sala de emergência quando fui ver Jhon. Naquele momento, a preocupação com o estado dele era mais importante do que o próprio celular. Sabia que precisava ligar para a minha cunhada. As duas precisavam preparar o velório para Jhon, e os amigos e familiares estariam querendo saber o que estava acontecendo. Não havia tempo a perder. — Ana — a voz da minha cunhada era rouca, e eu sabia que a garota havia chorado tanto quanto eu. — Estava pensando em te ligar agora. — Sim, precisamos preparar o velório de Jhon. Sua família tem um plano funerário? — perguntei preocupada. Todo o dinheiro que eu e Jhon tínhamos na reserva havia sido gasto nos preparativos do casamento, que estava marcado para dali a dois meses. Nada estava preparado para este momento, e eu esperava que a família de Jhon tivesse um plano para arcar com os custos. A voz da dela soou mais aliviada do que eu esperava. — Minha avó tem, liguei para ela para dar a notícia e já resolvi tudo. Eu dei um suspiro, sentindo o alívio temporário, mas sabendo que o peso da realidade ainda estava por vir. — Sinto muito. Não sei o que está sentindo. Jhon era meu irmão, e eu sei como é perder um irmão. Mas ele era seu noivo, Ana. Não posso nem imaginar como está sendo difícil para você. As palavras da minha cunhada me atingiram em cheio, e eu não pude mais conter as lágrimas. Sentei na beira da cama e me encolhi, deixando as lágrimas escorrerem pelo meu rosto, uma expressão do vazio e da dor que eu estava sentindo. O mundo havia desabado ao meu redor, e a tristeza parecia insuportável.
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