Capítulo 17

1297 Words
*Jamaica* Beatriz Prazeres de Souza, o nome não parava de ecoar na minha cabeça enquanto andava com a bebê na sala de espera. Juro pra vocês, fiz um esforço danado pra não fantasiar nada com a resposta da Lizzie para a recepcionista. Mas, p***a, era como se a vida tivesse me dado um dia de “viva sua fantasia favorita”, exceto pela parte que a minha filha estava doente no meio disso tudo. Se eu não estivesse tão preocupado com o quanto ela estava quente nos meus braços, poderia perder mais tempo viajando no que tinha acontecido, em como a Lizzie simplesmente virou uma leoa na recepção do hospital, em como tinha agido exatamente como se fosse a mãe da minha filha... Mas não podia pensar nessas coisas, e não só em respeito a saúde debilitada da Bea, mas pela integridade da minha saúde mental também. A fase do Jamaica que alimentava esperanças românticas pela Lizzie, havia acabado, eu não estava disposto a voltar atrás nessa decisão. Não levou muito tempo para sermos chamados para a triagem, onde um enfermeiro mediu a temperatura e pesou a Bea, como ela tinha dois meses e três dias (segundo a informação que a Lizzie deu convicta a recepcionista), ela ganhou uma pulseirinha vermelha indicando prioridade assim que o enfermeiro constatou a febre de trinta e nove graus. E então nós estávamos de volta à sala de espera, aguardando outro médico chamar para atender ela de verdade. Eu odiava aquele sistema lento dos hospitais públicos. O descaso e todas as triagens e etapas, só serviam para prejudicar quem já estava m*l. Qual é, eles achavam mesmo que alguém ia se submeter a um ambiente péssimo daqueles e passar por toda aquela humilhação se não estivesse realmente precisando de socorro? Pra quê todo aquele protocolo de merda? — Ei, calma, vai dar tudo certo — Lizzie tocou na minha mão, me fazendo perceber como estava a abrindo e fechando em punho sem parar — Eles vão chamar logo. — Eu sei — mantive o olhar longe dela, a última coisa que precisava era assustá-la com todos os sentimentos que eu sabia que estavam bem claros no meu olhar, porque se já era difícil conter o que eu sentia em um dia normal, imagina em um dia com ela fazendo tanto por mim — Já disse que não sei como te agradecer por tudo isso? — Não tem porque agradecer, eu não fiz nada demais. Tive que sorrir da modéstia. — Você fez um barraco e agiu como uma atriz de responsa — meneei a cabeça, aquilo me fazia lembrar de tantas histórias que a gente já tinha vivido — Isso com certeza é fazer alguma coisa. — Você ia me ver fazer alguma coisa se aquela mosca morta não cadastrasse a Bea no sistema — acabei rindo do tom dela. — Não sei o que eu faria se não fosse você — as palavras saíram antes que eu pudesse pensar. Para minha sorte, e surpresa, a Lizzie não entrou na defensiva com elas, ou com a emoção clara na minha voz. — Você daria um jeito sozinho, eu tenho certeza. Sem resistir a tentação, levantei o olhar para o dela... E ela estava me olhando, e não tipo “mantendo o olhar em mim só por manter”, ela estava me olhando de verdade, sem nojo, ou raiva, ou receio, era como se as malditas barreiras que tinha levantado entre a gente tivessem sumido de vez... — Beatriz Prazeres de Souza — uma voz eletrônica chamou nos altos falantes — Dirija-se a sala nove. Lizzie piscou e qualquer que fosse o sentimento no olhar dela, desapareceu, voltando para trás da muralha que nos separava. — Vamos — ela chamou, já seguindo para as portas duplas de acesso a parte clínica do hospital. Foi ela quem tomou à frente quando entramos na sala do médico. Respondeu as perguntas, segurou a Bea e encheu o doutor de questionamentos. — Pronto, mamãe, pode ficar mais calma — o médico, que já era um coroa cheio de cabelos brancos, disse com toda a paciência do mundo — Essa mocinha aqui só está com uma amigdalite. — Uma o quê? — apesar do médico garantir que podia ficar calma, Lizzie soou ainda mais preocupada que antes. Ele sorriu. — Dor de garganta — explicou, retirando as luvas — A medicina inventa nomes complicados para tudo — murmurou para si mesmo — Mas é apenas uma garganta inflamada o que está incomodando essa mocinha — ele começou a digitar algo no computador, enquanto Elisa só faltava fuzilar o homem com os olhos. Apoiei a mão no braço dela, tentando fazê-la quebrar o contato visual com o homem. — Relaxa — movi os lábios quando me olhou, ela revirou os olhos, voltando em seguida a focar no doutor. — Como fazemos para ela melhorar? Ela deve estar com dor. — Estou receitando um anti-inflamatório, como o caso não é grave, não será necessário o uso de antibióticos. Aqui está — ele pegou uma folha de papel que saía da impressora ao lado da mesa e voltou a atenção para Lis, com um olhar divertido — Presumo que são pais de primeira viagem. — Somos — ela nem hesitou, e mesmo que eu soubesse que aquilo tudo era um teatro em prol da Bea, não consegui evitar a sensação que tomou meu peito. Caramba, Deus, isso é alguma prova? Porque tá difícil pra caramba não levar esse dia pro coração. — Então é melhor eu enfatizar como não precisam se preocupar, esse remédio tem ação rápida, a seringa dosadora tem um marcador de acordo com o peso do bebê, basta encher até o limite do peso dessa mocinha e dar a ela — ele entregou a receita para mim, já que a Lizzie estava com as duas mãos ocupadas segurando a Bea como se ela fosse a coisa mais frágil do mundo — A inflamação vai melhorar assim que o remédio fizer efeito. Esse segundo medicamento é para dor e febre, basta seguir a dosagem da receita — o homem riu quando Elisa estreitou o olhar para ele — Não é complicado, prometo. Acredite, parece aterrorizante, mas vai melhorar quando o segundo filho vier, aí vocês vão achar uma amigdalite uma coisa boba. Não comece a pensar nos filhos que você não vão ter, não comece a pensar nos filhos que você não vão ter, não comece... — Eu duvido muito — Lis murmurou, se levantando da cadeira — Obrigada, doutor — ela se mostrou simpática pela primeira vez desde que entrou na sala, mas a simpatia durou uns dois segundos, antes dela enfatizar: — Se ela não melhorar, eu volto aqui e te procuro. O médico riu. — E eu faço questão de atender vocês. Murmurei um agradecimento para ele antes de pegar a bolsa da Bea e seguir a Lizzie para fora. Só quando a gente saiu do hospital, deixei o riso escapar. — Achei que você fosse assustar o médico. Ela estreitou o olhar para mim. — A Bea sentindo dor e ele querendo dizer que uma dor de garganta não é nada — resmungou — Queria ver se fosse com ele. Continuei com uma conversa descontraída, zoando a pose brava dela, sem dizer como a pose de leoa tinha acabado de abalar o que restava do meu coração. Sem dizer como estava sendo ainda mais difícil que o normal manter aquela pose "amigável e não apaixonada" que vinha mantendo nos últimos dias para não espantar ela. Eu não fazia ideia de quais eram os planos do Cara lá de cima, mas se continuasse assim, meu coração não ia durar muito e a minha obstinação ia ter que trabalhar sobrado por ele.
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