Capítulo 27

1113 Words
*Elisa* Na segunda-feira Elisa acordou animada pela primeira vez em muito tempo. Não teve mais nenhuma crise de pânico desde o dia em que fez os testes com Jamaica. Estava se esforçando o bastante para não ceder a vontade de passar o dia no quarto. Havia notado que sua mãe parecia um pouco menos preocupada com suas ações. Começaria a cuidar de Bea naquela manhã. E, o que mais a animava nos últimos dias: não estava grávida. Apesar do fato lhe trazer uma imensurável leveza, não podia pensar muito nele. Era estranho, mas mesmo após os testes negativos, pensar na gravidez, em Grego ou em qualquer repercussão da presença dele no morro, desencadeava uma sensação de ansiedade. A mesma sensação que antecedeu as piores crises dela. Por isso Elisa simplesmente não pensava, o que no fundo não era tão simples assim. Era exaustivo. Controlar pensamentos involuntários era uma tarefa enlouquecedora e desgastante. Normalmente não lhe sobrava muita energia no fim do dia para fazer qualquer coisa, mas ela continuava. Não só por seu orgulho, que não admitia qualquer tipo de dano causado por Grego, mas principalmente por sua mãe, que sempre parecia extremamente atenta a seus comportamentos. Era realmente cansativo socializar e fingir animação o dia todo, porém, aquilo estava prestes a melhorar, já que a partir daquela segunda-feira todos os seus dias seriam preenchidos pela fofura e paz que emanavam de Bea. A garotinha era como um tratamento terapêutico particular, Elisa m*l conseguia acreditar que em algum momento pensou em não se aproximar da menina. As ruas do morro já estavam movimentadas quando ela se despediu da mãe e saiu de casa, o que significava que havia muitas pessoas lhe olhando de esguelha e cochichando pelo caminho. Ela se perguntava quanto tempo levaria para o assunto das fofocas mudar e tirá-la dos holofotes. Esperava que não demorasse muito, pois a cada dia que passava, a vergonha e o constrangimento cediam lugar à uma grande vontade de mandar todos aquele fofoqueiros se foderem, em alto e bom tom. Chegou na casa de Jamaica meia hora antes do combinado, coisa que ela só percebeu ao entrar e vê-lo franzir as sobrancelhas para o relógio antes de voltar a encará-la com um sorriso nos lábios. Um sorriso que Lis certamente não reparou em como era bonito e sincero. — Parece que você e a Bea gostam de acordar cedo demais — ele brincou, voltando sua atenção para a cozinha — Mas chegou na hora certa, acabei de fazer o café. Elisa o acompanhou até a mesa, sem saber muito bem o que comentar. Tinha passado os últimos dias imaginando como seria estranho vê-lo novamente depois da crise que ele presenciou, imaginou que Jamaica a olharia de um jeito estranho, como se ela fosse alguém instável prestes a surtar, ou como se fosse uma bonequinha de porcelana prestes a se quebrar, porém ele a olhava como sempre olhou, ou melhor, como vinha olhando nas últimas semanas: sem aquela sombra de paixão desenfreada, quase como seu velho amigo. Aquilo era bom, ela pensou enquanto inspirava o cheiro do café. As coisas pareciam prestes a melhorar, talvez tudo voltasse ao seu lugar e... Uma mensagem surgiu na tela do celular de Jamaica, que estava sobre a mesa, roubando toda a atenção de Lis. Ela nem devia estar olhando, mas de repente queria ler o que estava escrito, ainda mais quando o nome “Indiazinha” surgiu no topo do texto. “Já chamou a mina pra sair?” Lis só percebeu que estava mesmo encarando o celular com as sobrancelhas franzidas, quando Jamaica pigarreou e disse: — Ela tá falando da Dandara. Claro que era da Dandara, de quem mais ele falava ultimamente? Elisa tentou ignorar como de repente o bom humor da manhã esfriou. Mas que droga, por que tinha de implicar tão gratuitamente com a tal Dandara? Como se você não soubesse o motivo, sua mente prontamente ressoou com ironia. — Você tá bem? — Jamaica pegou o celular justamente quando outra mensagem brilhava na tela — Lizzie? — Tô bem — ela sorriu da forma mais doce que conseguiu — Ultimamente eu tô meio desligada, não sei explicar. Minha mãe vive reclamando. Realmente era uma ótima desculpa, talvez até ela mesma se convencesse disso. — Você vai melhorar — ele abriu mais um sorriso, Lis se forçou a retribuir. — Com certeza — afinal, ela tinha superado tudo aquilo muito bem nos últimos dez anos, não ia ter nenhuma recaída logo agora — Então, decidiu investir na Dandara? — Isso aí — ele digitou algo no celular, meneando a cabeça para a tela — A Índia e a Pat conseguiram me convencer. — Você vai investir em uma garota só pra agradar elas? E por que mesmo você não cala a boca, Elisa? — Não é só pra agradar elas — ele deu de ombros — Se for para investir em alguém, ela é a melhor opção dentro das minhas possibilidades. Elisa voltou a atenção para o pão no seu prato. Por que raios se importava tanto com aquilo agora? Você sempre se importou, uma parte sua rebateu e, como de costume, ela a ignorou. Não, ela não se importava. — Isso é ótimo — disse, tanto para ele quanto para convencer a si mesma. Porque era ótimo. Jamaica merecia alguém legal e Dandara era alguém legal — Espero que dê tudo certo. — Eu também espero — ele deixou o celular de lado — Mas duvido muito. Sério mesmo, eu não sei nem pra onde vai essa história de namoro. Qual é, nunca chamei uma mina pra sair, não nesse sentido, sabe? — Sei — ela acabou rindo, ele parecia aflito de verdade — Você sempre conseguiu tudo fácil demais. — Nem tudo — ele rebateu a olhando nos olhos, o que foi o suficiente para enviar um arrepio por seu corpo. Ela sabia exatamente do que ele estava falando, de quem ele estava falando. E talvez por isso, as próximas palavras tenham escapado da sua boca: — Acho que posso te dar umas dicas, te ajudar em algumas coisas, certeza que assim você consegue conquistar ela. Ele desviou o olhar, ela respirou fundo. Mas que droga tinha acabado de dizer? Como é que ia dar dicas quando m*l conseguia engolir a ideia dele e Dandara juntos? Era justamente por isso que tinha que dar dicas, pensou, mantendo o foco no café que bebia rápido demais, dar dicas, ajudar e quando ele e Dandara estivessem juntos, ela finalmente perceberia como todos aqueles sentimentos adolescentes não passavam disso: sentimentos bobos que já haviam passado. Isso mesmo, era um ótimo plano.
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