Capítulo 1
Desde pequena a vida não se mostrou fácil ou dócil, ela se mostrou injusta e errada. Eu tinha apenas seis anos quando meu pai se foi, eu tinha apenas seis e já havia conhecido a crueldade da vida. Desde que ele,meu pai, faleceu tem sido apenas minha mãe e eu, ambas lutando para sobreviver e conseguimos passar pelo pior.
Depois do enterro e de todas as condolências e pesares, minha mãe me arrastou para outra cidade,longe dos olhares,longe dos indicadores,longe do mar de falsos sorriso que nos puxava para baixo e insistia em nos afogar. Buscamos refúgio em uma boa cidade,vivemos em uma boa casa e ela tem um bom emprego que paga as contas e nos possibilita a pequenos prazeres, mas, mesmo vivendo bem, a algo faltando,sinto um buraco vazio e oco no peito.
— Katy?! Venha aqui! — em alguns lugares,gritar seria motivo de ridicularização,mas que bom que estamos em casa.
Me levantei da cama e deixei o celular de lado. Me arrastei até o primeiro andar em passos agonizantes quase implorando para que ela vinhesse até mim. Não sou preguiçosa, eu só estou de férias,então eu mereço uns créditos!
Um degrau,dois degraus, três, quatro... Viu,não foi tão difícil.
— Mãe?
— Na cozinha!
Vou até ela e a encontro no balcão da cozinha preparando o que eu acho ser nhoque de quatro queijos. Isso não é uma boa notícia,para mim pelo menos,por que ela só prepara esse prato em duas circunstâncias, a primeira delas é quando ela quer algo de mim, eu estava comendo nhoque quando ela me disse que iríamos nos mudar, a segunda opção é impressionar alguém, mas essa não seria a opção certa,não é?
— Olha se você quer me pedir algo é só pedir,nhoque da muito trabalho e sou eu quem lavo a louça então...
— Vem cá,senta! — ela aponta para o banco de madeira do balcão.
O que será que ela quer? Nunca a vi tão feliz,o que será que ela está aprontando!?
— Sim,já estou sentada,o que quer de mim?
— Nossa, sou tão previsível assim?
— Um pouquinho! Mas é sério, eu estava em estado de hibernação e gostaria de voltar para a minha caverna!
—Ta,vou direto ao ponto! — ela abaixa a temperatura do fogo e para de preparar nosso jantar — seu pai foi meu maior amor, mas enfim, já fazem 12 anos que ele se foi e não é como se eu quisesse troca-lo ou algo do tipo... - esse é o jeito da minha mãe ir direto ao ponto e me contar que está namorando de novo. - mas ,eu conheci um cara e eu realmente acho que ele vale a pena e ele vai vir hoje,por que ele me pediu em noivado e quer te conhecer!
Essas cinco e simples palavras me fizeram perder o chão. Namorar é algo bom pra ela,viver a vida e ser feliz agora,casar? Assim,tão de repente! É loucura não é? Ou estou surtando para nada?
Ela está esperando minha reação, e em seu rosto vejo uma genuína esperança. Ela merece ser feliz e se é isso que ela quer, quem sou eu para negar?
-Tudo bem, mãe. A senhora gosta dele? - ela confirma minha pergunta . - então cabe a mim saber as intenções dele,não é? - brinquei.
-Como é que é? - ela cai na gargalhada e eu sorri.
-Ele vai ter que pedir a sua mão,se não eu não aprovo! — falei brincalhona.
-E o que você pode fazer hem? Aprovar já está aprovado! - e o humor dela mudou.
-Mae? Você anda tomando os seus remédios?
Ela me lança um olhar de fúria, e eu sinto em minha pele o medo que eu sentia quando eu era pequena, quando a mão dela estalava em meu rosto,as lágrimas...eu sinto vontade de correr.
- Você não sabe de nada, é uma criança que não sabe o que quer da vida,quando você souber o que é tomar aquelas drogas você vem falar comigo! Pode voltar pro seu quarto,só esteja pronta quando ele chegar!
Ela sofre de bipolaridade e depois do meu pai ela se afundou em uma depressão profunda, ela não é mais a minha mãe, ela é so o reflexo da mulher que já foi.
A situação é complicada,ela vai fingir que não está querendo me cozinhar e torra a minha pele,vai se passar pela boa mãe que ela finge ser,mas eu sei que o máximo que ela consegue é ser uma amiga ocasional,mas eu vou tentar fazer o meu melhor,e ser uma boa filha,eu a amo,mesmo ela sendo o caos que é. Eu vou me arrumar bem,um vestido preto, não...um vinho,sim, meu vestido vinho que usei no baile da Sarah, e o cabelo,o que eu vou fazer? Bom,eu adoro tranças,mas me deixam com um ar infantil,talvez eu devesse deixar solto,e passar uma maquiagem bem levinha. É isso, depois de um banho bem tomado para tirar a preguiça de mim,me visto assim e olha,não ficou tão r**m.
A campainha tocou e soou por toda casa. Ele chegou. Como ele deve ser? Minha mãe é bem nova, então não vai ser um idoso,mas também não vai ser um galã de novela.
-Katy,ele chegou! - minha mãe gritou novamente.
Ou isso vai ser mega constrangedor ou ele vai ser legal,afinal ele gosta da minha mãe,mas ele não conhece ela de verdade,quem ela se torna quando não toma os remédios. Eu sei de uma coisa, vou fazer minha parte e ser eu mesma, afinal se eles vão se casar ele vai ter que conhecer nossos pontos negativos também,já que a vida não é sempre um mar de rosas.
Desci as escadas e meu estômago embrulhou, por que estou tão nervosa? Cheguei ao fim da escada e o olhei. Minha mãe fala e nos apresenta mas eu me perdi no par de olhos azuis em minha frente. Ele possui um beleza tão simples mas desejável, seus sorriso e seus lábios...
-Katy? - minha mãe me puxa do meu transe.
-Oi!... Sim,é um prazer,te conhecer...
-não sei o nome dele,minha mãe falou? Eu realmente não escutei nada,mas tenho certeza que gravei cada detalhe do rosto dele.
-Sou o Christian,mas pode me chamar de Chris! Sua mãe me contou coisas bem... - senti meu humor mudar,o que ela falou de mim para ele? - interessantes sobre você.
-Posso até imaginar.
-Vamos para a sala de jantar? - perguntou minha mãe.
-Sim,estou morrendo de fome!
- Katherine Cooper,tenha modos! - minha mãe me repreende pela primeira vez na noite,vamos ver quanto mais isso vai acontecer.
Sentada a mesa envolta de risadas calorosas , estou imersa na beleza de Christian, estou sendo atraída para ele como um ímã é por outro, não vai cair um pedaço da minha mãe se eu o admirar ,não é?A final eles nunca irão saber e ele é... diferente, sinto isso
-E você Katherine, diga-nos quais seus planos? - Christian me pergunta.
-Bom,eu vou pra faculdade e meus planos se baseiam em não bombar em nenhuma matéria. - Christian riu e minha mãe deixou bem explícito que essa não foi a resposta correta.
-É um bom plano a curto prazo - ela disse irritada.
Será que ele nota essa inconsistência que ela é,ou apenas eu noto isso?
-Ser feliz é o que importa,certo? — perguntou Chris, olhado de minha mãe para mim.
-Depende - respondo abaixando meu olhar para o meu prato.
-O que quer dizer? — ele insiste.
-As vezes achamos que algo nós fará feliz, que é o certo para nós, mas a verdade é que a felicidade genuína é aquela que mais julgamos ser a incorreta para nós, por exemplo, estou entre contabilidades e gastronomia, um me faria feliz até certo ponto, mas o outro — suspirei — eu seria mais que feliz se pudesse seguir o meu sonho - o encarei e nossos olhares ficaram presos um no outro — se não são os nossos sonhos e desejos que nos levam a nossa felicidade genuína, porque sempre somos levados ao que é mais fácil?
— Talvez, porque sonhos podem não passar disso, uma ideia lúdica — ele falou baixinho, os olhos descendo até a minha boca e voltando até meus olhos, minha garganta secou.
— Meus sonhos não são uma ideia lúdica, e acredito que os seus também não — respondi desviando o olhar para meu prato.
-Que tal o jantar? — Clara falou, se incluindo em uma conversa.
-Esta perfeito, Clara! - elogiou Christian.
-Esta muito bom, mãe, a senhora se superou — lhe ofereci um sorriso.
-Fico feliz que gostaram — ela sorriu, mas algo em seus olhos estava abatido, calado.
— Mas então, o casamento,como vai ser — deixei o garfo e a faca sobre o prato branco.
— Algo simples e no civil — falou Christian.
— Eu pensei em algo mais elaborado, sabe? — falou minha mãe, confusa.
— Quer uma festa grande? — perguntou Christian.
— É só uma ideia,Chris.
Casamento, festa...família. Hum, talvez eu me torne mais um enfeite em que eles tenham que cuidar. Eles iniciarão uma família, começaram uma jornada a dois, e eu...cairei no esquecimento.
—Olha,o jantar estava ótimo e sei que a senhora fez uma sobremesa deliciosa,mas eu tenho que manter meu corpinho — me levantei da mesa e deixei o guardanapo sob ela — , e eu quero deixar vocês mais a vontade,então eu já vou me recolher!
-Tudo bem , boa noite — falou minha mãe.
Caminhei a largos passos até a porta,mas antes de cruzar o portal, olhei para os dois sob o ombro.
-Boa noite, Katherine - disse ele e eu apena acenei com a cabeça.
Sai da sala de jantar e me encaminhei para o meu quarto. E mais uma vez desejei que meu pai estivesse aqui, que ele me abraçasse e dissesse que tudo ficaria bem.