capítulo 8

826 Words
CAPÍTULO 8 - - A ÚLTIMA COBRANÇA Leão. Quando Rafael me chamou naquela tarde, eu já sabia que não era pra conversar. Tava sentado atrás da mesa, celular na mão, aquele olhar frio. Rafael: "A dívida do Nando." Parei na frente dele. Leão: "Ainda não pagou?" Rafael levantou os olhos. Rafael: "Não." Leão: "Quanto tempo?" Rafael: "Três prazos." Não precisei perguntar mais nada. Três prazos no morro é sentença. Rafael colocou o celular na mesa. Rafael: "Vai lá." Leão: "E se ele não tiver?" Olhar cortante. Rafael: "Ele teve tempo. Acerta isso." Era o que bastava. Saí. Encontrei Nando perto de uma casa abandonada, tentando se esconder. Quando me viu, o sangue sumiu do rosto. Recuou, costas na parede descascada. Nando: "Leão... por favor." Leão: "Você sabe por que tô aqui." Nando: "Eu consigo arrumar, juro! Só mais um pouco... minha mulher tá doente..." Leão: "Eu sei. E mesmo assim você teve três prazos pra resolver a dela e a nossa." Nando: "Me dá mais uma chance! Só mais uma! Amanhã te dou o dobro!" Leão: "Você falou isso ontem. E semana passada também." Ele passou a mão trêmula no rosto suado. Nando: "Fala com o Rafael, ele me ouve..." Leão: "Rafael já decidiu." O medo virou desespero. Tentou correr, meu parceiro agarrou pelo colarinho e jogou contra a parede de concreto. Impacto seco. Nando: "Me solta! Me solta, desgraçado!" Leão: "Você teve oportunidade de resolver como homem." Nando: "Eu vou pagar! Juro!" Leão: "Agora é tarde pra promessa vazia." Nando chorando, soluçando. Não senti pena. Não porque é fácil, mas porque no morro tolerar dívida impaga abre brecha pro império desabar. Leão: "Última vez. Você tem o dinheiro aqui e agora?" Silêncio. Tremedeira tanta que dente batia. Resposta dada. Leão: "Então acabou." Tentou se debater, golpe cego. Luta curta e brutal. Gancho seco no estômago que tirou ar, cotovelada na lateral do rosto. Nando caiu de joelhos na terra batida, cuspindo sangue, sem ar. Nando: "Leão... para... por favor..." Fiquei olhando de cima. Desespero é cego. Num impulso, Nando ergueu o tronco e levou mão na cintura, tateando cabo de pistola velha escondida sob camisa encardida. Um segundo. Erro fatal dele. Mais rápido, saquei a minha. Estampido cortou a viela estreita como trovão, eco nas paredes de tijolo. Nando tombou de bruços, convulsionando leve antes de estancar. Sangue se espalhando na poeira, escuro e denso. Silêncio pesado, cortante. Fiquei parado segundos, respirando fundo, cheiro de pólvora e ferro no ar. Olhei pros homens que vieram comigo. Um pálido. Homem: "E ele?" Leão: "Deixa." Virei as costas e saí sem olhar pra trás. Celular vibrou antes da esquina. Rafael. Atendi no segundo toque. Rafael: "E aí?" Leão: "Resolvido." Silêncio do outro lado. Rafael: "Certo." Desligamos. Guardei aparelho no bolso e continuei andando. Crianças rindo atrás de bola na ladeira; mulher chamando filho pro jantar; pagode vazando de bar na curva; padaria do Seu João com luz acesa. Morro continuava respirando normal. E era isso que mais assustava. Pra quem olha de fora, noite comum. Mas poucos metros atrás, homem jazia frio numa poça de sangue. E eu sabia que execução nunca fica sem troco. Algumas mortes desaparecem no esquecimento. Outras deixam cicatrizes fundas. E aquela ainda teria preço muito alto a ser pago. Voltei pra Boca. E adivinha quem tava lá sentada contando dinheiro, de cabelo preso, roupa simples de confecção, tremendo? Larissa. A costureira do Bom Retiro. Irmã da Bia que deve e não e pouco Ela me viu suado, ouviu o barulho que veio da viela de baixo, e ficou branca. Larissa: "O que aconteceu?" Não respondi. Olhei pro Rafael. Rafael tava olhando pra ela. Não pra mim. Pra ela. Com aquele olhar que eu conheço. Olhar de quem acabou de mandar matar um homem por não pagar dívida e agora tá com medo de perder a mulher que tá pagando a dívida da irmã drogada. Rafael: "Nada que você precise saber, costureira. Só precisa saber que dívida aqui se paga. De um jeito ou de outro. E você tem 30 dias. Todo dia aqui. Sendo minha contadora. Minha e de mais ninguém. Nem a Vila Nova encosta." Larissa engoliu seco. Entendeu. Se o Nando morreu por três prazos, o que aconteceria com a Bia se ela não pagasse os 80 mil? Ela continuou contando dinheiro, mão tremendo mais ainda. E o Rafael não tirou o olho dela a noite toda. Porque ele sabia, e eu também: a última cobrança do Nando foi aviso. Mas a próxima cobrança ia ser da Bia. E quem ia pagar era a Larissa. E não ia ser com dinheiro. NOTA DA AUTORA Meninas, pesado né? Agora vocês entenderam porque a dívida de Bia é vida ou morte e porque o Rafael tá tão obcecado em manter a Larissa todo dia na Boca? Ele tá protegendo ela! Comenta o que acharam e me segue que o Cap 9 a Bia vai descobrir que o Nando morreu e vai surtar!
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