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A DAMA DO MORRO

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Blurb

Ele é o dono do morro Eu. 20 anos, virgem, costureira, fui subir pra pagar a dívida e fiquei presa na chuva. Ele me colocou pra dormir no peito dele, de moletom dele, e me marcou. Agora minha dívida acabou. Mas ele disse que se eu subir de novo, é porque eu quero dormir com ele de verdade. E eu quero.

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capítulo 1
CAPÍTULO 1 — O DONO DO MORRO O despertador nem precisava tocar. Seis da manhã na favela não é hora de silêncio; é o estalo de ferro das portas de aço das padarias subindo, o cheiro de café queimado misturado com poeira da ladeira, o escapamento furado das primeiras motos cortando as vielas e o passo arrastado de quem tem que descer para o asfalto antes do sol esquentar a cabeça. Eu já estava de pé, amarrando o cabelo num coque firme no alto da cabeça. Olhei para o espelho rachado colado na parede de alvenaria do banheiro: vinte anos na cara, olheiras que nem a água fria disfarçava, olhos verdes que eu herdei da minha avó e uma boca carnuda que vivia travada de preocupação. Eu não me achava feia — pelo contrário, sabia que chamava atenção —, mas vaidade não pagava conta de luz nem comprava carretel de linha. Meu nome é Larissa. De dia, eu era operária. Deixava os dedos calejados nas máquinas industriais do Bom Retiro, costurando tecido grosso sob a poeira que impregnava os pulmões, batendo ponto para garantir que a comida não faltasse dentro de casa. A outra metade do problema atendia pelo nome de Bia. Minha irmã tinha vinte e um anos, um ano mais velha e uma vida inteira de juízo a menos. Enquanto eu voltava do asfalto com a coluna em frangalhos, ela descia para o baile da DZ7. Gostava de bebida de graça, de giro de moto, de substância química rolando solta nos becos e da ilusão de que o morro pertencia a quem dançava no meio da rua. Eu sempre soube o limite, sabia a hora exata de recuar e trancar a porta do barraco. A Bia nunca soube o que era freio. E a conta de quem não sabe onde pisa sempre chega. Aconteceu numa sexta-feira. Eu subia a ladeira voltando da fábrica, arrastando as sapatilhas gastas pelo cimento quebrado, com a bolsa pesada pendurada no ombro e a cabeça latejando de enxaqueca. Foi na entrada da viela que dava acesso ao nosso barraco que o ar faltou nos meus pulmões. Dois homens da boca de fumo estavam encurralando a Bia contra uma parede de tijolo exposto. Um deles, alto, com uma corrente de prata pesada no pescoço e a coronha de uma pistola despontando sob a camisa preta, segurava o braço dela com uma força que deixava os dedos brancos. A Bia tremia inteira. O cabelo desgrenhado, o rímel borrado e os olhos arregalados de quem encarava a própria cova. — Já passou do prazo, garota — a voz do vapor saiu grossa, sem nenhuma paciência. — O patrão não brinca de esperar. — Semana que vem... eu juro por Deus que na semana que vem eu pago tudo! — ela soluçava, a voz fina e esganiçada pelo pavor. — Só mais uns dias, por favor! — Não tem mais semana que vem, c*****o. Tua cota estourou. Meu sangue gelou instantaneamente. O cansaço sumiu, substituído por uma descarga violenta de adrenalina que fez o meu estômago despencar até o chão. Acelerei o passo, o salto das sapatilhas batendo seco no concreto. A Bia me viu antes que eu pudesse gritar. — Lari?! — o grito dela foi puro desespero. Os dois homens viraram o rosto na minha direção. O que segurava o braço dela olhou para mim de cima a baixo, medindo a minha roupa surrada de trabalho, a bolsa da confecção e a postura dura que eu forcei meu corpo a manter, mesmo tremendo por dentro. — A tua irmã chegou — ele disse, com um sorriso cínico que não carregava pingo de humor. Ele soltou a Bia com um empurrão que a fez cambalear. — Dá o papo nela. O prazo acabou. Se não resolver, amanhã o desfecho é outro. Eles deram meia-volta, descendo a viela como se nada tivesse acontecido. Peguei a Bia pelo braço com uma rispidez que eu nunca tinha usado antes, puxando-a pelo beco estreito até passar pela porta de casa e passar a tranca de ferro. O barraco estava escuro. Joguei minha bolsa em cima do sofá puído e me virei para ela, com o peito arfando. — Quanto, Bia? — minha voz saiu baixa, perigosa. Ela desviou o olhar. Encolheu os ombros, encostando na pia de alumínio, mordendo o lábio até quase sangrar. — Fala logo, p***a! Quanto você pegou com eles?! — Oitenta mil — ela sussurrou. O silêncio que se instalou na sala foi ensurdecedor. Parecia que uma marreta de ferro tinha quebrado o meu peito ao meio. Oitenta mil reais. Eu passava o ano inteiro na frente da overloque, respirando fiapo de pano, engolindo desaforo de gerente no asfalto, e m*l juntava uma fração miserável daquele dinheiro. — Você tá devendo pra boca de fumo, Bia? — perguntei, as palavras saindo arrastadas, a garganta seca como lixa. — Oitenta mil reais pro tráfico? — Eu peguei... achei que ia conseguir vender, achei que ia dar giro com um pessoal do asfalto, mas deu r**m, Lari! Roubaram a carga, me deram golpe... — ela caiu de joelhos no chão batido, chorando alto, agarrando a barra da minha calça jeans. — Eles vão me matar! Eles vão subir aqui e me apagar! Passei a noite inteira deitada na cama estreita, encarando as telhas de amianto do teto. Lá embaixo, no coração do morro, o som grave dos paredões da DZ7 fazia as paredes do barraco tremerem de leve. Um eco de música alta, risadas e drogas circulando. Mas a cada estalo de galho na viela, a cada moto que passava acelerando, meu coração parava por um segundo. A boca não mandava recado duas vezes. Se eu não fizesse nada, o corpo da minha irmã ia descer a ladeira dentro de uma caçamba antes do fim de semana acabar. Quando os primeiros raios de sol tocaram a fresta da janela, tomei a minha decisão. Prendi o cabelo bem firme, vesti uma blusa preta de manga curta, calça jeans e tênis. Não passei maquiagem, não usei nada chamativo. Subi a favela a pé, deixando para trás as vielas movimentadas e entrando no miolo que ninguém de fora ousava pisar. Depois de um bar antigo com paredes descascadas, a ladeira afunilava num beco sem saída. A sede da boca. Dois homens de bermuda tactel e fuzis pesados pendurados no peito estavam postados na entrada da laje. O cheiro de maconha queimada e fumo barato tomava o corredor estreito. — Perdeu o rumo, mocinha? — o mais jovem debochou, dando um passo à frente com a mão apoiada no cano da arma. — Aqui não é salão de beleza não. — Vim falar com o Rafael — respondi, sem piscar, forçando a voz a sair estável, embora as minhas pernas parecessem feitas de gelatina. — Sobre a dívida da minha irmã. A Bia. O riso morreu na boca do homem no mesmo segundo. O parceiro dele ao lado cuspiu no chão, tirou o rádio da cintura, apertou o botão e murmurou algo inaudível antes de me encarar com um olhar carregado de aviso: — Entra. Mas mede a língua lá dentro se quiser descer inteira. A cortina de plástico pesado foi afastada. O cômodo era escuro, iluminado apenas por uma lâmpada amarela e fraca pendurada no teto. Uma mesa de madeira rústica, um ventilador de chão velho rodando com um rangido metálico irritante e papéis espalhados de qualquer jeito. E sentado no centro de tudo, estava ele. Rafael. O homem era imponente de uma forma que sugava todo o oxigênio do lugar. Ombros largos que preenchiam a cadeira de couro gasta, pele bronzeada, tatuagens escuras subindo pelo antebraço musculoso e cabelos pretos cortados na régua. Mas não era a beleza crua dele que assustava; eram os olhos. Dois poços negros, gélidos, desprovidos de qualquer tipo de misericórdia. O dono do morro. O cara que decidia quem vivia e quem virava fumaça naquele asfalto. Ele nem sequer levantou a cabeça de imediato. Terminou de assinar uma folha de caderno, jogou a caneta sobre a mesa com um estalo seco e só então cravou o olhar em mim. — Tu é a irmã da Bia. A voz dele saiu num tom grave, arrastado, que fez os pelos dos meus braços se arrepiarem por inteiro. — Sou — dei um passo à frente, mantendo o queixo levantado. — Ela sabe que tu tá aqui? — Não. O Rafael encostou as costas largas na cadeira, cruzando os braços no peito. A mandíbula dele estava trancada, observando a minha audácia de entrar na sala de comando dele sem pedir licença. — Então fala logo, costureira. Meu tempo custa caro. — Me dá trinta dias — soltei as palavras de uma vez, sem desviar o olhar do dele, sentindo o suor frio escorrer pelas minhas costas. — Trinta dias e eu pago a dívida da Bia. Os oitenta mil. Eu trabalho com registro no Bom Retiro, faço hora extra, consigo empréstimo... Eu pago até o último centavo. Um silêncio pesado caiu entre nós. O único som era o ranger do ventilador enferrujado. O Rafael continuou me encarando por longos, agonizantes segundos. O olhar dele desceu devagar pelo meu pescoço, bateu na linha da minha blusa justa e voltou para os meus olhos com uma frieza cortante. — Oitenta mil em trinta dias com salário de costureira? — ele soltou uma risada curta, sem o menor vestígio de humor, um som seco que bateu nas paredes. — Tu é louca ou é burra? Vai ser difícil pra c*****o. Quase impossível. — Eu não sou louca e não sou burra — retruquei, o orgulho falando mais alto que o pavor. — Mesmo assim eu vou tentar. Só preciso do prazo. O dono do morro respirou fundo. Ele descruzou os braços, apoiou as duas mãos na mesa de madeira e se inclinou para frente, a presença dele parecendo preencher a sala inteira. — Trinta dias. Nem um minuto a mais — a voz dele caiu um tom, perigosamente calma. — Mas tem uma condição. Se a tua irmã colocar a mão em mais uma grama de droga ou fizer mais um centavo de dívida com qualquer moleque meu... o acordo acaba na hora. Soltei o ar que eu nem sabia que estava prendendo. O nó na garganta afrouxou um milímetro. Tinha conseguido. — Obrigada — murmurei, dando meia-volta sem querer esperar mais nada, caminhando a passos rápidos em direção à cortina de plástico da saída. — Larissa. O som do meu nome na boca dele me paralisou. Minhas mãos congelaram no tecido plástico. Virei o corpo devagar. O Rafael estava de pé. Ele era ainda mais alto do que parecia sentado, com uma postura dominante que fazia qualquer um se sentir minúsculo. Ele deu dois passos lentos na minha direção, parando a uma distância em que eu conseguia sentir o cheiro forte de tabaco, couro e perfume amadeirado que emanava dele. Os olhos dele me varreram inteira de novo, demorando-se de forma pesada e calculada na minha boca antes de subirem para os meus olhos. — Não ache que a vida é fácil assim, costureira — ele falou baixo, a voz áspera soando como um aviso letal no meu ouvido. — Trinta dias. Mas tu vem aqui todo santo dia depois que descer do asfalto. Tu costura de dia na confecção... e passa as tuas noites aqui em cima, fechando a contabilidade das minhas biqueiras. O ar sumiu da minha garganta. — O quê?! — Tu ouviu muito bem — ele deu mais um passo, fechando qualquer espaço entre nós, a sombra dele me cobrindo por completo. A respiração quente bateu na minha pele. — E reza, Larissa. Reza com muita força pra tua irmã drogada não cruzar o meu caminho. Porque se ela fizer mais uma merda... quem vai pagar a conta é você. E eu te garanto que não vai ser com dinheiro. O pavor bateu no peito com a força de um choque elétrico, misturado a uma corrente escura e confusa que fez o meu estômago despencar. Passei pela cortina quase sem respirar, descendo o corredor da boca e saindo para a luz forte da manhã com o coração batendo na garganta. Eu tinha conseguido os trinta dias para salvar a vida da minha irmã de uma dívida de oitenta mil. O que eu ainda não entendia, com as pernas trêmulas descendo a ladeira, era que eu não tinha fechado um acordo com o dono do morro. Eu tinha acabado de me vender para ele

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