capítulo 1

479 Words
CAPÍTULO 1 - o dono do morro Seis da manhã e o morro já tava acordado. Moto subindo, porta de aço da padaria levantando, cheiro de pão fresco. Eu, Larissa, 20 anos, loiro-escuro, olhos verdes, boca carnuda, bonita na medida. Costureira no Bom Retiro de dia. Minha irmã Bia, 21, drogada, gostava de bailão, bebida e droga. Eu sabia a hora de voltar, ela não. Naquela sexta voltei do trabalho cansada e vi ela na viela. Dois homens da Boca segurando o braço dela. "Já passou do prazo." "Semana que vem eu pago." "Não tem mais semana que vem." Meu estômago gelou. Bia me viu: "Lari?" O homem soltou ela: "Sua irmã chegou." Levei ela pra dentro. "Quanto, Bia?" Ela desviou o olho. Falou o valor. Oitenta mil. Mais do que eu faço em um ano na confecção. "Você tá devendo pra Boca, Bia?" "Tô." Naquela noite fiquei olhando pro teto. O bailão da DZ7 comendo solto lá embaixo e eu pensando que eles iam voltar. E da próxima vez não iam conversar. De manhã prendi o cabelo, roupa simples e subi sozinha até a Boca. Depois do bar antigo, numa viela que ninguém de fora conhece. Dois caras na porta. "Perdeu, mocinha?" "Vim falar com o Rafael. Sobre a dívida da minha irmã Bia." O sorriso sumiu. Entrei. Mesa simples, ventilador velho, cheiro de cigarro. E no fundo, sentado como dono de tudo, Rafael. Muito bonito de um jeito irritante. Cabelo escuro, corpo grande, mas os olhos frios, sem emoção. O dono do morro. O homem que não perdoava dívida. Rafael: — Você é a irmã da Bia. Larissa: — Sou. Rafael: — Ela sabe que você tá aqui? Larissa: — Não. Rafael: — Então fala. Larissa: — Me dá trinta dias. Eu pago. Eu trabalho no Bom Retiro. Ele ficou em silêncio me olhando. Eu não abaixei os olhos. Rafael: — Vai ser difícil. Muito difícil. Larissa: — Mesmo assim eu vou tentar. Rafael: — Trinta dias. Se sua irmã fizer outra dívida, o acordo acaba. Soltei o ar. Consegui. Levantei pra ir embora. Na cortina ele me chamou. Rafael: — Larissa. Virei. Ele me olhou de cima a baixo, parou na minha boca. Rafael: — Trinta dias. Você vem todo dia aqui depois do asfalto. Costureira de dia, contadora da minha Boca de noite. E antes de eu sair, ele falou baixo, com aquela voz que me deu pavor e outra coisa junto: Rafael: — E reza pra sua irmã drogada não fazer mais dívida. Porque se ela fizer, quem paga é você. E não vai ser com dinheiro. Saí com o coração na garganta. Tinha conseguido 30 dias pra pagar 80 mil. O que eu não sabia era que eu tinha acabado de me vender pro dono do morro. NOTA DA AUTORA Primeiro capítulo, meninas! Já comenta o que achou da Lari enfrentando o Rafael!
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