CAPÍTULO 9 - bia no baile
Bia.
O grave da caixa já tremia o chão do morro antes de eu terminar de passar batom. Eu sabia que tava brincando com perigo, mas o vício era maior. Vício em baile, bebida, pó que acelerava a noite e, acima de tudo, em Rafael.
Pra mim a conta era simples: se eu fui pra cama com o patrão algumas vezes, eu já não era qualquer uma. Na minha cabeça confusa de quem passa semana à base de brisa e promessa vazia, eu era a fiel. A dona do morro.
Coloquei o menor shorts que tinha, cropped colado que quase não cobria nada, cabelo trançado pra trás, perfume doce. Desci a viela rebolando, sentindo olhares dos caras nas esquinas. Mas nenhum importava. Só queria chegar no camarote e ver o Rafael.
O morro fervia. Cheiro de espetinho misturado com fumaça de maconha e lança. Neblina artificial e suor da multidão, atmosfera pesada.
Subi direto onde ele tava. Rafael sempre mais afastado, cercado de seguranças, cara de quem não pertencia a p***a nenhuma dali, mas comandava tudo. Leão do lado, mão na pistola.
Vapor chegava com fita dada, prestando continência, resolvendo cor da Boca, mas Rafael só despachava com aceno seco.
Esperei os caras saírem e me encostei nele, empinando corpo e jogando charme barato que eu achava que ia desmontar homem.
Bia: "E aí, vida? Demorei mas cheguei."
Ele virou rosto lentamente. Olhos escuros sem pingo de calor. Mesma expressão fria, indiferente, de quem olha pra inseto.
Rafael: "Bia."
Bia: "Tá muito parado aqui em cima. Desce comigo pra pista, vamos curtir um pouco. O som tá pesado hoje."
Rafael cruzou braços, maxilar trancado.
Rafael: "Não tenho tempo pra gracinha, Bia. E muito menos pra baile."
Bia: "Ah, para, Rafael! Só um pouquinho. Fica se fazendo de difícil... esqueceu o que a gente faz quando tá sozinho?"
Leão atrás deu canto de olho disfarçado, segurando riso. Empinei mais peito, achando que ia dobrar na marra como fazia com outros otários da favela.
Rafael: "Eu não esqueci de p***a nenhuma. Quem tá esquecendo as coisas aqui é tu."
Tom despencou. Ríspido, cortante. Sorriso na minha boca começou a murchar.
Bia: "Qual é a tua, Rafael? Fica me tratando assim na frente dos teus homens... Eu sou tua mulher, c*****o!"
Assim que soltei "tua mulher", ar da área vip sumiu.
Rafael deu passo à frente. Não gritou. Não precisava. Presença sozinha já pesava tonelada de chumbo. Olhos faiscaram ódio puro.
Rafael: "Tu é o quê minha, sua desgraçada?"
Bia: "Eu... a gente já ficou..."
Rafael: "Tu ficou com a boca cheia de droga na minha cama, foi isso que tu fez!" Cuspiu palavras com nojo e arrogância, apontando dedo na minha cara "Escuta aqui, sua maluca: eu já falei e não vou repetir. Tu não é p***a nenhuma minha! Tu é só uma nóia desgraçada que tá me devendo até a alma! 80 mil! Tu sabe o que aconteceu com o Nando hoje que tava devendo 3 prazos?"
Sangue subiu quente pro rosto. Fiquei zonza, mas tentei peitar.
Bia: "Tá me esculachando por quê? Só porque tem essa marra de Patrão? Se eu tô devendo a droga que eu consumi na tua Boca, eu pago, mas não precisa me humilhar!"
Rafael colou rosto no meu. Bafo de whisky misturado com gelo do olhar me fez gelar espinha. Sem pena. Nunca teve.
Rafael: "Tu acha engraçado vir aqui se esfregar em mim achando que vai dar golpe da barriga ou virar dona da Boca? Acorda pra vida, sua desgraçada! Tu só tá respirando ainda e andando por esse morro porque eu não mandei te arrastarem pro mato pra cobrar o que tu gasta com pó! E tu ainda tem coragem de vir aqui depois que tua irmã costureira tá todo dia na minha Boca contando meu dinheiro pra pagar tua dívida de drogada?"
Todo mundo ouviu. Vapor, seguranças, Leão. Todo mundo ouviu que a Lari costureira, bonita na medida, olhos verdes, tava todo dia com ele.
Meu ódio virou pra ela.
Bia: "Ah, então é isso? Você tá comendo minha irmã lá? Por isso deu 30 dias pra ela?"
Rafael deu mais um passo, colando rosto.
Rafael: "Cala a boca! O dia que tu aparecer na minha frente sem estar me devendo nem um centavo de pó ou de fuzil, tu abre essa tua matraca. Enquanto tu for só uma devedora fudida que vive se entupindo de droga e subindo pro baile com roupa de p*****a pra chamar atenção, tu pra mim é lixo!"
Lágrimas de ódio e vergonha queimando olhos, mas engoli seco, tremendo por dentro. Inferno congelou ali.
Rafael: "Leão."
Leão: "Fala, Patrão."
Rafael: "Joga essa p***a pra fora da minha vista. E avisa lá na Boca: se essa maluca aparecer perto daqui enchendo saco de novo antes de acertar caderneta, tu raspa cabeça dela na zero e bota pra correr do morro."
Leão: "Recado tá dado. Bora, Bia. Anda."
Leão sem dó. Me pegou pelo braço com força, me arrastando pra fora da área VIP enquanto multidão na pista pulava ao som do pancadão, alheia ao meu esporro.
Olhei pra trás uma última vez. Rafael já tinha virado costas, acendendo cigarro, voltando a falar com vapor como se eu nunca tivesse existido.
Fui descendo escadaria com coração disparado, ódio entalado na garganta e corpo tremendo. Ele achava que ia me pisar assim e ficar por isso mesmo?
Eu ia pagar aquela p***a de dívida. E quando pagasse, ele ia ter que olhar na minha cara de outro jeito.
Não. Mais que isso.
Se a Larissa acha que vai virar Dama do Morro só porque tá contando dinheiro dele todo dia na Boca depois do asfalto, ela tá muito enganada.
O Rafael vai ser meu. E ela vai sair da Boca. Nem que eu tenha que vender até a alma da minha mãe costureira pra isso.
NOTA DA AUTORA
Meninas, o que acharam da humilhação da Bia? Ela merece ou o Rafael pegou pesado? Comentem Team Lari ou Team Bia! E me segue que no Cap 10 a Larissa vai descobrir que a Bia foi humilhada no baile e vai ter briga de irmãs na viela!