CAPÍTULO 14 — — O PESO DO CORRE
Larissa.
Hora do almoço na confecção era único momento que a gente conseguia respirar um pouco, longe do barulho infernal das máquinas. Sentada num banquinho de plástico nos fundos do barracão, dividia marmita de arroz, feijão e frango com Manu, que comia como se tivesse disputando olimpíada.
Manu: — Amiga, se você não parar de engolir comida desse jeito, vai passar m*l no meio da produção — falei, rindo fraco enquanto passava guardanapo perto da boca dela.
Manu de boca cheia, gestos dramáticos com garfo: — Amiga, tô com fome desde cinco da manhã, quando minha mãe quase abriu minha cabeça com colher de p*u! — Mas falando sério... você tá com cara péssima. De novo pensando na sua irmã, né?
Sorriso sumiu na hora do meu rosto. Olhei pro fundo da marmita, mexendo no feijão sem conseguir comer mais nada.
Eu: — Não consigo parar de pensar, Manu. Ontem à noite, quando cheguei em casa depois do plantão extra, minha mãe tava na cozinha com pressão nas alturas, chorando sentada no chão porque os caras da boca foram lá cobrar conta que Bia estourou de novo. Bia nem tava em casa, claro. Tava virada em alguma balada com rapazes, querendo bancar rainha.
Manu largou garfo, e pela primeira vez semblante dela ficou sério, sem nenhuma piada. Esticou mão e apertou meu braço.
Manu: — Aquela infeliz da Bia tá cavando própria cova e levando tua mãe junto. Você não tem que carregar piano sozinha, Lari. Você só tem dezenove anos! Devia tá pensando em roupa, baile, curtir vida, e não em pagar dívida de droga de irmã irresponsável.
Eu: — Se eu não pagar, quem vai? Nossa mãe? Ela já tá com saúde toda quebrada, guria. Se a boca cobrar na força, você sabe como funciona lá no morro. Eles não têm dó de ninguém, seja parente de quem for. Preciso fazer mais bico no fim de semana. Se eu conseguir costurar por fora pra lojista da rua 25 de Março, consigo levantar grana pra quitar carnê da Bia com Leão de uma vez por todas.
Manu balançou cabeça, preocupada, mas logo tentou disfarçar tom dramático.
Manu: — Você vai cair dura de exaustão, amiga. Desse jeito não vai aguentar um mês. Mas quer saber? Se for pra 25, eu vou junto. Nem que seja pra segurar tuas sacolas ou xingar cambistas do metrô!
Dei suspiro fundo, sentindo pingo de alívio por ter Manu do meu lado, mesmo com todo caos. Mas por dentro, certeza era amarga: minha vida de garota de dezenove anos já tinha acabado faz tempo. No morro, a gente crescia na marra. E conta da Bia tava batendo na minha porta cada vez mais perto.
Foi quando a sombra caiu em cima da nossa marmita.
Não era sombra de telha.
Era de gente.
Manu levantou cabeça primeiro e engasgou com frango.
Na porta dos fundos da confecção, encostado na moto grande preta, de boné baixo, cordão de ouro e pistola na cintura aparecendo por baixo da camisa, tava ele.
Rafael.
Patrão do morro. Dono da Boca. O homem que tinha me tirado de casa três da manhã pra dormir na cama dele pra me proteger da Vila Nova.
Todo mundo na confecção parou de comer. Costureiras olhando, encarregado branco de medo.
Manu sussurrou: — p**a que pariu, Lari. É o Rafael.
Rafael não olhou pra ninguém. Olhos escuros cravados só em mim.
Rafael: — Larissa.
Minha garganta secou. Marmita tremendo na minha mão.
Larissa: — O que você tá fazendo aqui?
Rafael deu dois passos pra dentro, sem pedir licença. Chegou perto do banquinho de plástico, abaixou corpo até ficar na minha altura. Cheiro dele, perfume caro e cigarro, invadiu tudo.
Rafael: — Vim te buscar pro almoço. Tu não almoça marmita fria no chão. Tu almoça comigo.
Manu: — Ela tá no horário de...
Rafael olhou pra Manu, um olhar seco que calou ela na hora.
Rafael: — Ela tá liberada. Fala pro teu encarregado que a contadora da minha Boca tá comigo agora.
Ele pegou minha marmita da minha mão e jogou no lixo sem nem olhar. Pegou meu braço, não com força bruta, com posse. Como quem pega o que já é dele.
Rafael: — Anda, costureira. Quando eu quero, eu não peço. Eu tomo. E hoje tu é minha no almoço.
E me levantou do banquinho na frente de todo mundo.
Minha vida de dezenove anos tinha acabado mesmo. Porque agora todo mundo na confecção sabia: a costureira do Bom Retiro era do dono do morro.
NOTA DA AUTORA
Ele jogou a marmita dela no lixo e falou "quando eu quero eu tomo" na frente de todo mundo na confecção! 😍 Isso é dark romance que a gente gosta! O que vocês fariam se o Patrão aparecesse no seu trabalho assim? Comentem Team Rafael!