capítulo 21

701 Words
CAPÍTULO 21 — A PEÇA NO TABULEIRO Rafael A porta bateu com força quando a Larissa saiu da sala, deixando para trás um rastro de perfume barato misturado com cheiro de suor de quem tinha corrido o dia inteiro na confecção do Bom Retiro. Fiquei parado atrás da mesa por alguns segundos, olhando para o espaço vazio onde ela estava agora há pouco, sentindo o maxilar trancado. A marra dela batendo na minha mesa, peitando o dono do morro por causa da dívida da irmã . Nenhuma mulher nunca tinha feito isso aqui dentro. O Leão empurrou a porta segundos depois, com a sobrancelha arqueada e aquela cara de quem não estava acreditando no que acabou de ver. Leão: — Fala sério, Patrão. Trazer a irmã da caloteira pra dentro da nossa base, mexer com os papéis do movimento? Cê perdeu o juízo? Se vaza alguma informação sensível, ou se essa menina dá com a língua nos dentes pra polícia, a casa cai pra todo mundo. Joguei o corpo pra trás na cadeira de couro, acendendo um cigarro novo com calma. A fumaça subiu grossa, rodopiando no ar abafado do escritório. Rafael: — A Larissa não vai dar com a língua nos dentes, Leão. Cê não reparou nos olhos daquela garota? Ela tem orgulho demais e responsabilidade de sobra. O medo maior dela não é cadeia, é ver a mãe morrendo em cima de uma cama na casa dela por causa dos erros daquela imprestável da Bia. Ela vai fazer o trampo direitinho justamente pra proteger a família dela. Leão balançou a cabeça, cruzando os braços, ainda desconfiado. Leão: — Sei não... Mas se cê diz. Só que eu te aviso: botar ela aqui dentro todo santo dia, a sós com a gente, vai virar um imã de problema. A guria tem sangue nos olhos, bateu na sua mesa, peitou o dono do morro. O bagulho tá ficando pessoal. Soltei a fumaça devagar, olhando fixamente pra fumaça se dissolver no teto. Pessoal? Talvez estivesse mesmo. Mas era exatamente isso que tava quebrando a rotina entediante da biqueira. Ver o desespero virar marra, e a marra virar obediência sob o meu controle, era um jogo que eu fazia questão de jogar até o fim. Leão: — E agora? Vai buscar ela amanhã pra almoçar lá no Bom Retiro? Vai ficar de motorista da contadora? Dei uma risada seca. Rafael: — Eu? Buscar pra almoçar? Eu não busco, Leão. Eu não sou moleque que fica na porta de confecção esperando mulher sair pra comer. Minha mulher não come marmita fria dividida no chão da confecção igual ela fazia. Apaguei o cigarro no cinzeiro. Rafael: — Manda entregar quentinha todo dia no serviço dela no Bom Retiro. Todo dia onze e meia. Com meu nome no bilhete. Quero que as costureira tudo lá dentro saiba que a Larissa agora é minha contadora e que ninguém encosta. E avisa o dono da confecção que se atrasar o pagamento dela de novo, eu subo lá. Leão arregalou o olho. Leão: — Quentinha todo dia, Patrão? Cê nunca mandou nem água pra ninguém. Rafael: — Pois agora mando. E manda quentinha boa, não aquela gororoba que elas comem. Manda com bife, ovo, tudo. Ela fica de sol a sol costurando, coluna estourada, e ainda tem que vir contar meu dinheiro à noite aqui. Não quero minha contadora desmaiando na minha mesa. Me levantei, fui até a janela que dava pra ladeira. Rafael: — Deixa o andamento rolar. Amanhã às sete da noite ela vai tá aqui na porta da minha casa de novo, descendo direto da confecção. Quero ver se toda essa bravura dela continua inteira quando ela sentar na mesa e perceber que agora quem dita as regras sou eu. E que até a quentinha que ela come no Bom Retiro tem meu nome. Leão riu, entendendo. Leão: — Tá possessivo, hein, Patrão. Rafael: — Tô marcando o que é meu. E a Larissa... a Larissa já é minha. Só ela que ainda não entendeu. Fiquei olhando a ladeira escura lá embaixo. Na casa da mãe dela, ela devia tá agora tentando dormir, com a dívida quitados e minha quentinha já encomendada pro almoço de amanhã.
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