capítulo 23

603 Words
CAPÍTULO 23 — LINHAS CRUZADAS Larissa A luz amarela da luminária piscava fraca, jogando sombras compridas sobre a pilha de cadernos. Já passava das oito e meia da noite. Costas ardendo, vista pesada de tanto número miúdo e a mente pedindo arrego, mas eu mantinha a cabeça abaixada, mordendo o lábio enquanto passava tudo pra folha limpa. Cheiro de fumo misturado com perfume amadeirado dele preenchia a sala pequena. Rafael não tinha saído desde que cheguei às sete, descendo direto da confecção. De vez em quando ouvia o metal da pistola que ele limpava, de vez em quando só o tec tec da minha calculadora. — Tem erro aqui — soltei de repente, apontando com a caneta pra linha borrada do segundo caderno. Rafael parou na hora. Cotovelos na mesa, mãos cruzadas, sobrancelha arqueada. Rafael: — Fala aí, contadora. Que tipo de erro? — Na página anterior, o valor que os comércios da parte de baixo repassaram na sexta não bate com o somatório que o Leão anotou no caixa geral. Faltam duzentos contos. Ou alguém esqueceu de registrar a taxa de um dos mercados, ou o dinheiro sumiu no meio do caminho. Silêncio curto. Olhei esperando irritação. Em vez disso, o canto da boca dele curvou num sorriso irônico. Rafael: — Cê tem olho clínico mesmo, hein? Em menos de duas horas achou o furo que os outros tentaram encobrir a semana inteira. — Eu não tenho olho clínico, só sei fazer conta direito e não gosto de trabalhar em dobro por desorganização alheia — respondi seca, voltando pros números pra disfarçar o incômodo. Rafael levantou devagar, contornou a mesa. Passos no cimento batido me deram volta no estômago, mas mantive a coluna reta. Parou bem do meu lado, quadril encostado na borda da mesa, a centímetros do meu braço. A presença sufocante. Ele inclinou o corpo pra frente, olhando meu papel. O braço roçou de leve no meu moletom. Calor estranho subiu pela pele. Rafael: — A desorganização aqui dentro custa caro, Larissa. Mas gente que enxerga o que os outros fingem não ver... vale ouro. Virei o rosto, irritada com a calma dele. — Guarda os elogios pros teus vapores, Rafael. Tô aqui obrigada pra tirar minha mãe da mira de vocês. Termino isso amanhã e quero ver se minhas horas tão abatendo na conta Ele não recuou. Olhar escureceu, fixou na minha boca por um segundo antes de voltar pros meus olhos. Rafael: — Cê tem pressa pra sumir daqui, né? Ele puxou a garrafa d'água que o Leão tinha deixado e empurrou pra perto de mim. Copo já servido. Rafael: — Bebe. Tá pálida. De novo. Se você desmaiar aqui eu vou ter que te carregar até a casa da tua mãe, e aí o morro inteiro vai falar que eu te tomei na sujeira de novo. E você sabe que eu não te tomo na sujeira. Fiquei vermelha. Era a mesma frase da noite que ele me mandou de volta com o Leão na madrugada. Rafael se abaixou até a altura do meu ouvido, voz baixa só pra mim: Rafael: — E sobre os duzentos... amanhã você me mostra quem assinou essa página. Porque quem mexeu na minha conta mexeu no que é meu. E agora que você é minha contadora... mexeu no que é seu também. Cê vai passar muito tempo sentada nessa mesma cadeira. E quer saber? Eu tô achando ótimo. O coração bateu forte contra o moletom emprestado dele que eu ainda usava. Gancho vendável: possessivo, cuida da água, lembra da frase do "não tomo na sujeira", e já protege ela do roubo interno.
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