capítulo 19

1065 Words
CAPÍTULO 19 — FRENTE A FRENTE Larissa Eu tava no quarto dele. Trancada. A discussão lá fora ainda ecoava pela casa quando ouvi os gritos de Bia se afastando pela ladeira. Leão tinha acabado de arrastar minha irmã para fora depois de toda aquela confusão. A porta bateu. Silêncio. Eu estava usando uma das roupas de Rafael, com a chave da porta apertada na mão e o coração batendo tão forte que parecia querer sair pela boca. Eu ainda tentava entender como aquela noite tinha chegado àquele ponto quando a porta se abriu. Rafael entrou. Boné baixo, cordão de ouro no pescoço, cheiro de cigarro misturado ao perfume forte que eu já tinha aprendido a reconhecer. Ele fechou a porta atrás de si e ficou me encarando. Rafael: — Tua irmã foi embora falando que você se vendeu Meu maxilar travou. — E não me vendi! Ele se aproximou devagar. Rafael: — Então vamos resolver agora. Meu coração acelerou. Rafael: — Você e eu. Frente a frente. — Resolver como? Rafael parou diante de mim. Rafael: — Eu quito Seguro a Vila Nova para ninguém encostar na tua mãe por causa dessa dívida. Fiquei em silêncio. Aquilo parecia bom demais para ser verdade. — E o que você quer em troca? Os olhos dele ficaram presos nos meus. Rafael: — Você vai ser minha contadora. Pisquei. — Sua contadora? Rafael: — Minha. Quero que você cuide das minhas contas, organize o que precisar ser organizado e coloque ordem onde estiver bagunçado. Eu respirei fundo. Não era exatamente o tipo de proposta que eu esperava receber naquela noite. — E só isso? Um sorriso apareceu no canto da boca dele. Rafael: — Por enquanto. Meu estômago se apertou. Eu conhecia aquele olhar. Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, ele desviou os olhos para a porta. Rafael: — Mas hoje você não dorme aqui. Franzi a testa. — Por quê? Ele me encarou novamente. Rafael: — Porque depois do barraco da tua irmã, se você dormir aqui hoje, o morro vai falar que eu te tomei na sujeira. Ele se aproximou um pouco mais. Rafael: — E eu não te tomo na sujeira. Quando eu quero, eu tomo direito. Meu rosto esquentou. Rafael abriu a porta e gritou: Rafael: — LEÃO! Poucos segundos depois, Leão apareceu. Rafael apontou para mim. Rafael: — Leva ela pra casa da mãe dela. Agora. Eu olhei para Rafael, tentando entender aquela decisão. — E a minha coisa? Minhas roupas? Rafael: — Fica tudo aqui. Daqui a alguns dias eu mando te buscar. Meu peito apertou. — E depois? Ele sustentou meu olhar. Rafael: — Depois você volta para trabalhar. Fez uma pausa. Rafael: — Mas não volta mais para morar aqui. Aquilo me pegou de surpresa. Eu tinha passado tanto tempo naquela casa que a ideia de voltar para a casa da minha mãe parecia estranha. Mesmo assim, eu sabia que não tinha escolha. Peguei o pouco que tinha comigo e acompanhei Leão. Descemos a ladeira naquela madrugada. A cada passo, eu sentia que alguma coisa estava mudando. Eu tinha entrado naquela casa por causa de uma dívida que nem era minha. Agora estava saindo de lá com um novo acordo nas costas. E, pior ainda, com Rafael ocupando um espaço dentro da minha cabeça que eu não queria admitir. --- Alguns dias depois Eu achei que seria estranho voltar. Não imaginei que seria tanto. Durante aqueles dias na casa da minha mãe, tentei voltar à rotina. Acordava cedo, ajudava com o que precisava, trabalhava e tentava não pensar demais no que tinha acontecido. Mas o acordo com Rafael não saía da minha cabeça. Minha mãe protegida. A dívida resolvida. E eu trabalhando para ele. Quando o dia escureceu, coloquei uma roupa simples, peguei minha bolsa e subi novamente para o morro. Dessa vez, eu não estava voltando para o quarto de Rafael. Eu estava indo para o trabalho. A diferença parecia pequena. Mas, para mim, mudava tudo. As vielas estavam movimentadas naquela noite. Algumas pessoas me reconheceram e olharam de um jeito diferente quando passei. Eu fingi não perceber. Cheguei à casa de Rafael e fui conduzida por Leão até o escritório. Ele bateu duas vezes na porta. Leão: — Patrão, ela chegou. A voz de Rafael veio lá de dentro. Rafael: — Manda entrar. Leão abriu a porta. Entrei. A porta de madeira bateu atrás de mim com um baque abafado. O cheiro denso de fumo e poeira grudou no meu nariz na mesma hora. O escritório era pequeno, iluminado apenas pela luz amarela de uma luminária fraca sobre a mesa e pelo reflexo das luzes do morro lá fora. Rafael estava sentado na cadeira de couro sintético. Ele não mexeu um músculo quando entrei. Apenas cruzou os dedos sobre a mesa e levantou os olhos para mim. Por um segundo, o ar pareceu desaparecer dos meus pulmões. Rafael: — Olha só... Se não é a famosa contadora do asfalto. Revirei os olhos. — Eu prefiro Larissa. Um sorriso de canto apareceu no rosto dele. Rafael: — Então senta, Larissa. Aproximei-me da mesa. — Vim trabalhar. Rafael: — Eu sei. — E espero que você também saiba que aquele acordo não significa que eu vou aceitar qualquer coisa. O sorriso dele aumentou. Rafael: — Tu continua com a mesma marra. — E você continua gostando de provocar. Ele recostou na cadeira. Rafael: — Talvez. Pegou uma pasta e empurrou na minha direção. Rafael: — Tu vai começar por isso aqui. Olhei para a quantidade de papéis. — Tudo isso? Rafael: — Tu pediu trabalho. Peguei a pasta. — Então vamos trabalhar. Rafael ficou me observando enquanto eu me sentava. Eu abri os primeiros documentos e comecei a analisar os números. Por alguns minutos, nenhum dos dois falou. Até eu perceber uma coisa. Havia valores que não batiam. Franzi a testa. — Rafael. Ele levantou os olhos. — Tem alguma coisa errada aqui. O sorriso desapareceu lentamente do rosto dele. Rafael: — O quê? Virei a pasta na direção dele. — Esses valores não fecham. Ele se inclinou para olhar. Rafael: — Tem certeza? — Absoluta. Passei o dedo pela folha. — Alguém mexeu nessas contas. O escritório ficou silencioso. Rafael levantou os olhos para mim. Dessa vez, não havia deboche. Havia atenção. E alguma coisa muito mais perigosa. Rafael: — Então parece que eu fiz uma boa escolha.
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