capítulo 16

660 Words
CAPÍTULO 16 — A CHAVE DE CASA Larissa. Subir ladeira do morro no final da noite era momento que meu corpo inteiro pedia socorro. Peso da bolsa com retalhos, cheiro de suor misturado com cansaço do dia inteiro na confecção e vento frio da madrugada batendo no rosto, mas nada se comparava ao nó no estômago toda vez que me aproximava de casa. Só que hoje eu não tinha saído da confecção sozinha. Eu tinha almoçado na laje do dono do morro. Ele tinha jogado minha marmita no lixo na frente de todo mundo e falado "quando eu quero eu tomo". Quando empurrei portão de zinco, cena na sala era de sempre, mas cada dia corda apertava mais. Minha mãe sentada na beira do sofá, pano úmido na testa e olhos inchados de tanto chorar. Televisão ligada no volume baixo só pra fazer ruído num ambiente pesado. Olhei em volta e Bia não tava. Claro que não tava. Pelo visto, dinheiro da última balada tinha saído de mais um rolo com caras da biqueira. Mãe: — Filha... tu chegou tarde de novo. Não aguento mais essa vida, Lari. Eu: — Mãe, tomou remédio da pressão? Mãe levantou rosto lentamente, parecendo dez anos mais velha. Olhar dela me cortava por dentro. Mãe: — Os homens da boca passaram aqui cedo. Deixaram recado que falta acerto da Bia. Se a gente não pagar até final da semana, disseram que vão vir buscar qualquer coisa de valor aqui de casa... ou pior. Meu sangue gelou. Cansaço sumiu, substituído por onda de pavor e revolta. Eu: — Quanto falta, mãe? Quanto exato falta pra quitar essa conta maldita? Mãe soluçou, escondendo rosto nas mãos calosas. Mãe: — Oitenta mil, Lari. Os oitenta mil que tua irmã estourou na Vila Nova e na boca do Rafael. Eles falaram que agora a conta não é mais da Bia. É tua. Leão falou que Patrão riscou nome dela e escreveu teu nome. Larissa, minha. mesmo eu entregado todo salário. Oitenta mil era sentença de morte. Fui até meu quarto, joguei bolsa em cima da cama e apertei mãos contra cabeça, respirando fundo pra não gritar de raiva. Tinha trabalhado até coluna travar, feito hora extra, recusado qualquer lazer, e mesmo assim minha família continuava refém das escolhas inconsequentes da minha irmã mais velha. Olhei pra janela do quarto, de onde dava pra ver luzes acesas da biqueira lá no alto, brilhando como lembrete c***l de quem realmente mandava em tudo ali. E foi quando tentei fechar porta do meu quarto e percebi que minha bolsa não tava lá. Minha chave não tava lá. Na cama, em cima do meu travesseiro velho, tinha uma chave diferente. Chave grande, de casa de laje. E um bilhete com letra grossa, de homem: "Minha contadora não dorme em casa que Vila Nova pode invadir. Tua chave agora é da minha casa. Sobe. — R." Manu me mandou mensagem na mesma hora: Manu: "Amiga, Leão acabou de passar aqui em casa e falou que tu não dorme mais na tua casa essa semana. Que tu vai dormir na casa do Patrão. É verdade?" Minha mãe definhando em vida por causa da Bia. E eu sabia, com todas as letras, que se eu não resolvesse aquilo logo, conta ia estourar de um jeito que a gente não ia conseguir consertar. Pela primeira vez, ideia de subir até biqueira e olhar na cara do Rafael pra peitar essa dívida deixou de ser apenas medo... e começou a virar única saída que me restava. Só que eu não ia precisar subir. Ele já tinha descido. E já tinha deixado a chave. Peguei a chave da casa dele e subi a ladeira de novo. Não pra minha casa. Pra casa dele. NOTA DA AUTORA Ele trocou a chave da casa dela pela chave da casa dele! 😍 Safadinho possessivo! Quando quer toma mesmo! Ela vai subir e dormir lá de novo? O que vocês fariam, meninas?
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