CAPÍTULO 26 — CONTAS E DESABAFOS
Larissa
O silêncio na sala só era quebrado pelo tec tec da calculadora e o risco do meu lápis nos quadros de receita. Quase nove da noite do terceiro dia. Meu cérebro fritando de tanto cruzar dado, mas me recusava a pedir ajuda ou demonstrar fraqueza na frente dele.
Rafael tava na cadeira dele, fingindo mexer nos papéis da associação, mas eu sentia o peso daquele olhar escuro em cima de mim a cada segundo. Irritante, sufocante e, pior, tava mexendo com minha concentração de um jeito que eu odiava admitir.
— Dá pra parar de me secar? — soltei sem levantar os olhos, paciência estourada. — Desse jeito vou errar a soma de novo e a culpa vai ser tua por ficar me encarando igual gavião.
Ouvi o couro da cadeira ranger e ele cruzar os braços. Quando olhei de canto, ele tava com o copo d'água que o Leão deixa toda noite já empurrado pra minha beirada da mesa. De novo.
Rafael: — Não tô te secando, costureira. Tô vigiando meu investimento. E até agora os números tão batendo redondo. Diferente da tua paciência, que tá por um fio. E você ainda não bebeu água.
Levantei o rosto de súbito, fuzilando ele.
— Minha paciência acabou no segundo que fui obrigada a entrar nessa sala, Rafael! Tu acha o quê? Que tô achando o máximo? Que gosto de passar o dia costurando até furar o dedo e a noite conferindo dinheiro de biqueira enquanto minha mãe tá acamada em casa?
Minha voz subiu, ecoou na madeira. Por um segundo achei que ele ia levantar, mandar baixar a bola, me colocar no meu lugar. Mas o Rafael só recostou, expressão fechando aos poucos, perdendo o deboche cínico que me tirava do sério.
Rafael: — Ninguém tá achando graça de nada, Larissa — voz mais baixa, sem pressa, mas cortante. — Tua irmã fez a merda dela sabendo com quem tava se envolvendo. Eu podia ter cobrado de outro jeito, a Vila Nova ia cobrar de outro jeito. Eu aceitei teu acordo. Então baixa a bola tu também, porque aqui quem manda sou eu, mas quem tá escolhendo aguentar tudo pra proteger a família é tu. E por isso eu não te deixo descer essa ladeira sozinha de noite, não te deixo sem comer no Bom Retiro e não te deixo sem água nessa mesa. Entendeu?
Aquilo bateu no peito como balde de água fria. Doía porque era verdade. Ninguém apontou arma na minha cabeça pra vir; eu escolhi pra salvar minha mãe e blindar a Bia de um fim pior.
Desviei o olhar, garganta apertada com bolo de revolta e cansaço. Pisquei rápido pra nenhuma lágrima cair na frente dele.
— Termino em dez minutos — sussurrei áspera, engolindo seco. — E amanhã tô de volta pra cumprir o resto dessa droga de acordo. E pra achar quem roubou seus duzentos contos.
Rafael não disse mais nada. Silêncio voltou pesado, carregado de tensão diferente, como se uma linha invisível tivesse sido esticada entre nós dois. Ele só pegou o copo e colocou mais perto ainda de mim.
Rafael: — Bebe primeiro. Depois termina.
E eu bebi. Com ódio. Mas bebi.
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NOTA DA AUTORA:
EU AVISEI QUE ESSE CAPÍTULO IA DOER! 😭 A Larissa explodiu e o Rafael finalmente falou o que a gente queria ouvir: ele cuida dela porque ELA escolheu proteger a família!