capítulo 7

508 Words
CAPÍTULO 7 Rafael. Eu não preciso anunciar quando chego. O morro sabe. É só eu aparecer no começo da viela que os olhares mudam. Respeito não se pede, se constrói. E eu construí o meu durante anos. Mas hoje eu não queria respeito. Eu queria que acabasse logo o dia pra ela chegar. Larissa. A costureira do Bom Retiro, loiro-escuro, olhos verdes, boca carnuda, bonita na medida. Irmã da Bia drogada que deve 80 mil porque vendeu na Vila Nova. Que pediu 30 dias e agora tem que vir todo dia depois do asfalto contar meu dinheiro na Boca. Minha contadora. Minha e de mais ninguém. Mandei buscar ela no fim da tarde. Dois homens foram. Ela entrou tremendo. Mesma roupa simples da confecção, cabelo preso de qualquer jeito, cheiro de sabonete barato. Larissa: "Vim contar." Sentei ela na minha mesa. Caderno aberto, dinheiro. Ela contando, mão tremendo. Leão encostado na parede rindo: "Vai quebrar a contadora, Rafa." Não respondi. Tava olhando pra boca dela. Pra nuca dela. Pra ela mordendo o lábio quando erra a conta. Rafael: "Calma, costureira." Cheguei por trás da cadeira dela. Quase encostando a boca no ouvido dela. Eu não beijo na boca. É minha regra desde moleque. Beijo prende. Eu não me prendo. Mas com ela eu quis quebrar no primeiro dia. Larissa travou. O corpo inteiro arrepiou. Eu senti. Larissa: "Eu... eu errei a conta." Rafael: "Erra de novo. Eu gosto quando você fica nervosa." Ela contou errado de propósito pra eu chegar perto. Eu sabia. Leão: "Rafa. Vai ter baile hoje." Eu não tirei o olho dela. Rafael: "Hoje não. Hoje a contadora vai ficar aqui até fechar a conta. Mesmo que demore a noite toda." Larissa me olhou. Pela primeira vez sem pavor. Com outra coisa. Raiva e outra coisa junto. Larissa: "Você tá fazendo de propósito." Rafael: "Tô." Encostei na mesa, bem perto da boca dela. A um centímetro de quebrar minha própria regra. Rafael: "Você tem 30 dias pra pagar 80 mil da sua irmã drogada. Com salário de costureira você não paga nem o juro. Então você vai pagar ficando aqui. Todo dia. Sendo minha." Ela não saiu correndo hoje. Ficou. E eu soube na hora: trinta dias não vai ser suficiente. Eu não vou deixar ela ir embora depois. No fim da noite, quando ela saiu, Leão falou: Leão: "Você tá pensando nela." Rafael: "Em quem?" Leão: "Não precisa fingir que eu não percebi. Desde que a costureira saiu da Boca , você ficou diferente." Fiquei em silêncio. Porque era verdade. Eu sou o dono do morro. Controlo dinheiro, homem, ordem, limite. Mas eu não tava conseguindo controlar a vontade de quebrar minha regra de não beijar na boca por causa de uma costureira de olhos verdes que deve 80 mil por causa da irmã drogada. E ninguém precisava saber disso. Nem ela. Principalmente ela. NOTA DA AUTORA Meninas, ele quase beijou! Quase quebrou a regra por causa dela! Vocês acham que ele vai beijar no Cap 8? Comenta e me segue pra não perder!
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