CAPÍTULO 7
Rafael.
Eu não preciso anunciar quando chego. O morro sabe. É só eu aparecer no começo da viela que os olhares mudam. Respeito não se pede, se constrói. E eu construí o meu durante anos.
Mas hoje eu não queria respeito. Eu queria que acabasse logo o dia pra ela chegar.
Larissa. A costureira do Bom Retiro, loiro-escuro, olhos verdes, boca carnuda, bonita na medida. Irmã da Bia drogada que deve 80 mil porque vendeu na Vila Nova. Que pediu 30 dias e agora tem que vir todo dia depois do asfalto contar meu dinheiro na Boca. Minha contadora. Minha e de mais ninguém.
Mandei buscar ela no fim da tarde. Dois homens foram.
Ela entrou tremendo. Mesma roupa simples da confecção, cabelo preso de qualquer jeito, cheiro de sabonete barato.
Larissa: "Vim contar."
Sentei ela na minha mesa. Caderno aberto, dinheiro. Ela contando, mão tremendo.
Leão encostado na parede rindo: "Vai quebrar a contadora, Rafa."
Não respondi. Tava olhando pra boca dela. Pra nuca dela. Pra ela mordendo o lábio quando erra a conta.
Rafael: "Calma, costureira."
Cheguei por trás da cadeira dela. Quase encostando a boca no ouvido dela. Eu não beijo na boca. É minha regra desde moleque. Beijo prende. Eu não me prendo. Mas com ela eu quis quebrar no primeiro dia.
Larissa travou. O corpo inteiro arrepiou. Eu senti.
Larissa: "Eu... eu errei a conta."
Rafael: "Erra de novo. Eu gosto quando você fica nervosa."
Ela contou errado de propósito pra eu chegar perto. Eu sabia.
Leão: "Rafa. Vai ter baile hoje."
Eu não tirei o olho dela.
Rafael: "Hoje não. Hoje a contadora vai ficar aqui até fechar a conta. Mesmo que demore a noite toda."
Larissa me olhou. Pela primeira vez sem pavor. Com outra coisa. Raiva e outra coisa junto.
Larissa: "Você tá fazendo de propósito."
Rafael: "Tô."
Encostei na mesa, bem perto da boca dela. A um centímetro de quebrar minha própria regra.
Rafael: "Você tem 30 dias pra pagar 80 mil da sua irmã drogada. Com salário de costureira você não paga nem o juro. Então você vai pagar ficando aqui. Todo dia. Sendo minha."
Ela não saiu correndo hoje. Ficou.
E eu soube na hora: trinta dias não vai ser suficiente. Eu não vou deixar ela ir embora depois.
No fim da noite, quando ela saiu, Leão falou:
Leão: "Você tá pensando nela."
Rafael: "Em quem?"
Leão: "Não precisa fingir que eu não percebi. Desde que a costureira saiu da Boca , você ficou diferente."
Fiquei em silêncio. Porque era verdade.
Eu sou o dono do morro. Controlo dinheiro, homem, ordem, limite.
Mas eu não tava conseguindo controlar a vontade de quebrar minha regra de não beijar na boca por causa de uma costureira de olhos verdes que deve 80 mil por causa da irmã drogada.
E ninguém precisava saber disso. Nem ela. Principalmente ela.
NOTA DA AUTORA
Meninas, ele quase beijou! Quase quebrou a regra por causa dela! Vocês acham que ele vai beijar no Cap 8? Comenta e me segue pra não perder!