depois das portas

1432 Words
📖 PODER SEM DONO Capítulo 3 — Depois das Portas A estrada estava silenciosa. Veyra caminhava sem saber exatamente para onde estava indo. Atrás dela, no alto da montanha, o castelo de Kaelen permanecia iluminado. As centenas de janelas brilhavam contra a escuridão. Ela não conseguia parar de olhar para trás. Cada vez que dava alguns passos, diminuía o ritmo. Como se uma parte dela ainda esperasse ouvir a voz de Kaelen. Como se ele pudesse aparecer na estrada e dizer que havia mudado de ideia. Mas nada aconteceu. O castelo continuou distante. As portas continuaram fechadas. E Veyra continuou sozinha. Ela apertou a pequena bolsa contra o corpo. Era tudo o que tinha levado. Algumas roupas. Algumas moedas. Nada mais. Durante anos, ela havia vivido cercada pela riqueza do castelo. Mas nunca havia se considerado dona de nada. As roupas eram de Kaelen. Os jardins eram de Kaelen. As terras eram de Kaelen. O castelo era de Kaelen. E agora ela percebia algo que nunca havia pensado antes. Ela não tinha uma casa. Veyra parou no meio da estrada. Olhou para os próprios pés. — Para onde eu vou? Nenhuma resposta. Ela olhou para a floresta. Depois para a estrada que descia em direção às terras baixas. Não conhecia aquela região como conhecia a aldeia onde havia nascido. Durante anos, Kaelen havia cuidado de tudo. Quando viajavam, ele sabia para onde ir. Quando precisavam de alguma coisa, ele resolvia. Quando surgia um problema, ele estava ali. Agora não havia ninguém. Veyra respirou fundo. — Eu consigo. Tentou convencer a si mesma. — Eu consigo sozinha. Deu mais alguns passos. Então sentiu. O poder dentro dela se moveu. Veyra parou imediatamente. Uma energia percorreu seus braços. Ela fechou os olhos. — Não... A terra sob seus pés começou a vibrar. Veyra abriu os olhos assustada. — Calma. Ela levantou as mãos. — Calma... A energia diminuiu. Ela respirou aliviada. Mas percebeu algo. Antes, quando sentia aquele poder, Kaelen estava sempre por perto. Agora não. Ela realmente estava sozinha. Veyra continuou andando. A noite avançou. O frio aumentou. Depois de algum tempo, ela encontrou uma pequena área protegida entre algumas árvores. Não era uma casa. Não era confortável. Mas seria suficiente para passar aquela noite. Ela colocou a bolsa no chão. Sentou-se. E finalmente deixou as lágrimas caírem. Durante todo o caminho, havia tentado permanecer forte. Agora não precisava mais. — Por quê? A voz saiu baixa. — Por que você fez isso comigo? Ela abraçou os próprios joelhos. — Eu te amava. O silêncio da floresta foi sua única resposta. --- No castelo, Kaelen continuava no grande salão. As portas permaneciam fechadas. Ele estava exatamente onde Veyra o havia deixado. Imóvel. Mas sua expressão havia mudado. Um dos antigos guardiões entrou no salão. Parou a alguns metros. — Meu senhor. Kaelen não respondeu. — Ela já deixou a propriedade. — Eu sei. — Deseja que alguém a acompanhe? Kaelen permaneceu em silêncio. O guardião esperou. — Meu senhor? — Não. — Tem certeza? Kaelen virou lentamente o rosto. — Eu disse que não. — Sim, meu senhor. O guardião abaixou a cabeça. Antes de sair, porém, perguntou: — E se ela estiver em perigo? Kaelen respondeu imediatamente: — Ela sabe se defender. O guardião saiu. Kaelen voltou a olhar para as portas. Ele sabia que Veyra tinha força suficiente para enfrentar criaturas que destruiriam exércitos inteiros. Mas isso não significava que estivesse preparada para viver sozinha. E ele sabia disso. Talvez melhor do que qualquer outra pessoa. Kaelen caminhou lentamente pelo salão. Passou pela mesa onde havia deixado a bolsa. Parou. Sua mão tocou a superfície de madeira. A bolsa não estava mais ali. Veyra a havia levado. Ele fechou os olhos. Por alguns segundos, a lembrança dela voltou. O sorriso. A voz. As perguntas. As caminhadas pelos jardins. As noites em que ela simplesmente aparecia em sua sala para conversar. Tudo. Kaelen abriu os olhos. — Foi necessário. Mas sua própria voz pareceu não acreditar completamente. --- Horas depois. Veyra ainda estava acordada. Ela havia tentado dormir. Não conseguiu. O chão era frio. O vento entrava entre as árvores. Ela puxou o tecido da roupa para perto do corpo. Olhou para o céu. As estrelas estavam lindas. Ela costumava observá-las do terraço do castelo. Kaelen muitas vezes ficava ao lado dela. Agora havia apenas o céu. Veyra fechou os olhos. — Eu odeio você. A frase saiu baixa. Mas ela sabia que não era verdade. Abriu os olhos novamente. — Não. Respirou fundo. — Eu odeio o que você fez. Uma lágrima caiu. — Mas ainda amo você. Ela permaneceu em silêncio. Então ouviu um barulho. Veyra imediatamente se levantou. Olhou para a floresta. Algo se movia entre as árvores. Ela sentiu a energia dentro de si responder. — Quem está aí? Nada. Veyra deu um passo para trás. A criatura surgiu entre as sombras. Era um animal grande, semelhante a um lobo, mas muito maior. Seus olhos brilhavam na escuridão. Veyra levantou uma das mãos. A energia começou a se concentrar em seus dedos. — Não quero machucar você. A criatura rosnou. Veyra respirou fundo. — Sério. O animal avançou. Veyra reagiu por instinto. Uma onda de energia saiu de sua mão. Não foi uma explosão. Não foi um ataque. Foi apenas um impulso. Mas o suficiente para lançar a criatura para longe. Ela caiu no chão e fugiu imediatamente. Veyra ficou olhando para a própria mão. — Eu fiz isso? Ela sorriu levemente. Pela primeira vez naquela noite. — Eu fiz isso. Ela se sentou novamente. Talvez Kaelen tivesse razão. Talvez ela realmente pudesse aprender. Mas aprender não significava esquecer. E Veyra ainda não estava pronta para esquecê-lo. --- No castelo, Kaelen estava no alto da torre. A mesma torre de onde costumava observar o reino. A noite estava quase terminando. Ele olhou para a estrada. Seus olhos conseguiam atravessar enormes distâncias. Ele encontrou Veyra. Sozinha. Sentada sob as árvores. Kaelen permaneceu observando. Por um momento, pensou em ir até ela. Só precisava descer. Atravessar os portões. Percorrer a estrada. E estaria diante dela. Mas não foi. Ele havia tomado uma decisão. E precisava sustentá-la. Mesmo que doesse. Mesmo que quisesse voltar atrás. Kaelen desviou o olhar. — Você precisa aprender a caminhar sem mim. --- O amanhecer começou lentamente. Os primeiros raios de sol atravessaram as árvores. Veyra acordou. Por alguns segundos, esqueceu onde estava. Então tudo voltou. O castelo. Kaelen. O término. A expulsão. Ela fechou os olhos. — Não vou chorar. Levantou-se. Sacudiu a poeira das roupas. Pegou a bolsa. Olhou para a estrada. Dessa vez, não olhou para o castelo. Começou a caminhar. Não sabia onde iria. Não sabia onde dormiria naquela noite. Não sabia como conseguiria dinheiro. Não sabia como controlaria seu poder. Mas sabia uma coisa. Kaelen havia tirado dela a vida que conhecia. Então ela teria que construir outra. Veyra continuou pela estrada. Horas depois, ao longe, começaram a aparecer as primeiras casas de uma pequena cidade. Ela parou. Observou o movimento. Comerciantes. Carroças. Aldeões. Ferreiros. Crianças correndo pelas ruas. Era muito diferente do castelo. Era muito mais parecido com o mundo onde havia nascido. Veyra respirou fundo. Apertou a bolsa. E entrou na cidade. Ninguém ali sabia quem ela era. Ninguém sabia de onde vinha. Ninguém sabia que aquela jovem súcubo aparentemente comum havia acabado de sair do castelo do Ser Supremo. E, principalmente... ninguém sabia do poder que existia dentro dela. Talvez fosse melhor assim. Veyra caminhou entre as pessoas. Pela primeira vez em anos, ninguém a tratava como alguém ligado a Kaelen. Ela era apenas Veyra. Uma súcubo desconhecida. Uma plebeia. Uma jovem sem casa. Sem família por perto. Sem p******o. Mas livre. E, enquanto caminhava pela cidade, uma pequena criança esbarrou nela. — Desculpa! Veyra sorriu. — Tudo bem. A criança correu. Veyra continuou andando. Então ouviu alguém comentando atrás dela: — Você ouviu? Dizem que uma energia gigantesca foi sentida ontem à noite. Veyra parou. Outra pessoa respondeu: — Dizem que veio das montanhas. — Será que foi algum demônio antigo? — Talvez. Veyra olhou para as próprias mãos. Seu coração acelerou. Ela sabia de onde aquela energia tinha vindo. Mas ninguém mais sabia. Ainda. Veyra continuou caminhando. Sem perceber que, naquele mesmo instante, muito longe dali... criaturas poderosas começavam a procurar pela origem daquela energia. E algumas delas já haviam descoberto. O poder que havia despertado não pertencia a um rei. Nem a um deus. Nem ao Ser Supremo. Pertencia a uma jovem súcubo que acabara de ser expulsa de casa. E agora ela estava livre.
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