📖 PODER SEM DONO
CapÃtulo 4 — O Que Restou
A cidade parecia muito maior agora.
Veyra caminhava pelas ruas movimentadas, tentando ignorar a sensação de vazio que havia dentro do peito.
Pessoas passavam por ela.
Comerciantes anunciavam suas mercadorias.
Carroças atravessavam as ruas de pedra.
Crianças corriam entre as casas.
Era uma cidade comum.
Normal.
E justamente por isso Veyra queria permanecer ali.
Ninguém a conhecia.
Ninguém sabia que ela havia vivido no castelo do Ser Supremo.
Ninguém sabia que havia sido expulsa.
Ninguém sabia o que existia dentro dela.
Ela apertou a pequena bolsa que carregava.
Era tudo o que lhe restava.
Algumas roupas.
Algumas moedas.
Nada além disso.
Veyra entrou em uma rua mais movimentada.
Olhou para algumas barracas.
Talvez pudesse comprar comida.
Talvez encontrasse algum lugar barato para ficar.
Talvez...
— Ei!
Um corpo passou rapidamente por seu lado.
Veyra sentiu um puxão.
A bolsa desapareceu de sua mão.
Ela ficou imóvel por um segundo.
— Minha bolsa!
O ladrão já corria pela rua.
— Ei!
Veyra saiu correndo atrás dele.
— DEVOLVE!
As pessoas começaram a olhar.
O homem corria entre as barracas, desviando de pessoas e carroças.
Veyra corria atrás.
— PARE!
Ele olhou para trás.
Viu que ela ainda o perseguia.
Acelerou.
Veyra também.
— DEVOLVE A MINHA BOLSA!
O ladrão entrou em uma viela.
Veyra entrou logo atrás.
Ela quase escorregou em uma pedra, recuperou o equilÃbrio e continuou.
— Para!
O homem virou outra esquina.
Veyra correu ainda mais.
— Por favor!
Ela não estava correndo apenas pelas moedas.
Aquelas roupas eram tudo o que possuÃa.
Não tinha outra muda.
Não tinha dinheiro escondido.
Não tinha casa para onde voltar.
Não tinha Kaelen.
Não tinha nada.
— DEVOLVE!
O homem desapareceu entre as construções.
Veyra chegou à esquina.
Olhou para um lado.
Depois para o outro.
Nada.
Ela respirou rapidamente.
— Não...
Correu até a rua seguinte.
Nada.
Entrou em outra viela.
Nada.
O ladrão havia desaparecido.
Veyra ficou parada.
O peito subindo e descendo rapidamente.
— Não...
Ela olhou para as próprias mãos vazias.
— Não, não, não...
Começou a procurar.
Abriu portas.
Olhou atrás de barris.
Perguntou às pessoas.
Ninguém sabia.
Ninguém tinha visto.
Depois de vários minutos, finalmente desistiu.
Voltou lentamente para a rua principal.
Sem a bolsa.
Sem as roupas.
Sem as moedas.
Veyra sentiu uma pressão no peito.
Não era apenas tristeza.
Era raiva.
Uma raiva profunda.
Quente.
Perigosa.
A energia dentro dela começou a despertar.
Uma pequena pedra próxima ao seu pé se levantou.
Veyra olhou para ela.
A pedra tremia no ar.
Ela imediatamente fechou os olhos.
— Não.
A pedra caiu.
Ela respirou fundo.
— Calma.
Suas mãos começaram a tremer.
— Calma, Veyra.
Uma rajada de vento atravessou a rua.
Algumas pessoas olharam para os lados.
Veyra apertou os dedos.
— Não perde o controle.
Ela lembrava das palavras de Kaelen.
"Você n******e deixar sua dor controlar seu poder."
A lembrança doeu ainda mais.
— Não pensa nele.
Ela respirou.
— Só respira.
Uma pequena rachadura apareceu na pedra sob seus pés.
Veyra percebeu.
Deu um passo para trás.
— Não.
Fechou os olhos.
Respirou lentamente.
Uma vez.
Duas.
Três.
A energia diminuiu.
Mas a raiva continuava.
— Eles levaram tudo.
Ela abriu os olhos.
— Tudo.
Uma senhora que passava por perto percebeu que Veyra estava chorando.
— Está tudo bem, menina?
Veyra limpou rapidamente o rosto.
— Sim.
A senhora olhou para ela.
— Tem certeza?
Veyra forçou um sorriso.
— Só estou cansada.
A mulher continuou seu caminho.
Veyra permaneceu ali.
Sozinha.
Ela olhou para as ruas movimentadas.
Ninguém viria ajudá-la.
E talvez aquilo fosse o que mais assustava.
No castelo, se alguma coisa acontecesse, alguém apareceria.
Agora não.
Agora precisava resolver tudo sozinha.
Veyra começou a caminhar.
Sem dinheiro.
Sem comida.
Sem roupas para trocar.
Sem sequer saber onde dormiria.
Mas continuava andando.
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Enquanto isso, muito longe dali...
Kaelen estava sentado em uma sala silenciosa do castelo.
Um mapa enorme estava aberto diante dele.
Um dos guardiões entrou.
— Meu senhor.
Kaelen levantou os olhos.
— Fale.
— Detectamos uma alteração na energia dela.
Kaelen ficou imóvel.
— Onde?
O guardião indicou uma região no mapa.
— Na cidade de Aster.
Kaelen observou o ponto.
— O que aconteceu?
— Ainda não sabemos.
Kaelen permaneceu em silêncio.
O guardião esperou.
— Devemos enviar alguém?
— Não.
— Mas a energia dela está instável.
Kaelen levantou-se.
— Ela precisa aprender.
— E se perder o controle?
Kaelen olhou para ele.
— Ela não vai.
Mas, quando ficou sozinho novamente...
Kaelen voltou a olhar para o mapa.
Seus olhos permaneceram sobre a cidade.
Ele sabia que havia alguma coisa errada.
E, apesar de ter sido ele quem mandara Veyra embora...
uma parte dele queria ir buscá-la.
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Veyra continuava andando.
Depois de algum tempo, chegou a uma pequena praça.
Sentou-se em um banco de pedra.
Olhou para as próprias roupas.
A única coisa que ainda possuÃa era o que estava usando.
Ela suspirou.
— Eu realmente estou começando do zero.
Uma criança passou correndo pela praça.
Veyra acompanhou com os olhos.
A criança carregava um pedaço de pão.
Veyra percebeu que estava com fome.
Muito fome.
Seu estômago doeu.
Ela fechou os olhos.
— Tudo bem.
Tentou rir.
— Eu sobrevivo.
Mas não era tão simples.
Sem dinheiro, não poderia comprar comida.
Sem casa, precisaria encontrar um lugar seguro.
E sem roupas ou recursos...
teria que começar a trabalhar.
Veyra levantou-se.
Foi até uma pequena estalagem.
Parou diante da porta.
Respirou fundo.
Entrou.
Atrás do balcão estava uma mulher de meia-idade.
— Posso ajudar?
Veyra hesitou.
— Eu...
Ela não sabia como explicar.
— Estou procurando trabalho.
A mulher olhou para ela.
— Trabalho?
— Qualquer coisa.
— Sabe cozinhar?
— Um pouco.
— Limpar?
— Sim.
— Servir mesas?
— Posso aprender.
A mulher observou Veyra por alguns segundos.
— Posso pagar pouco.
Veyra sorriu.
— Está tudo bem.
— Começa amanhã.
Veyra quase chorou de alÃvio.
— Obrigada.
— Pode dormir no quarto pequeno dos fundos hoje.
Veyra arregalou os olhos.
— Sério?
— Sim.
— Muito obrigada.
Pela primeira vez desde que saÃra do castelo, sentiu que talvez conseguisse.
Ela não precisava de Kaelen.
Não precisava de um castelo.
Podia começar novamente.
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Naquela noite, Veyra estava deitada em um pequeno quarto.
Era simples.
Muito simples.
Uma cama estreita.
Uma janela pequena.
Uma mesa de madeira.
Nada parecido com o castelo.
Mas era seu.
Pela primeira vez desde que havia sido expulsa, Veyra conseguiu sorrir.
Ela olhou para o teto.
— Talvez eu consiga.
Fechou os olhos.
Mas então ouviu uma voz em sua memória.
"Eu amo você."
A lembrança de Kaelen apareceu.
Veyra abriu os olhos.
— Droga...
Virou-se para o lado.
— Eu queria esquecer.
Uma lágrima caiu.
— Por que ainda dói tanto?
Ela ficou em silêncio.
Então uma pequena luz apareceu em sua mão.
Veyra olhou para ela.
O poder estava reagindo novamente às suas emoções.
Ela fechou os dedos.
— Não.
Respirou.
— Não vou deixar você controlar minha vida.
A luz diminuiu.
Veyra sorriu fracamente.
— Eu vou aprender.
Do lado de fora, o vento passou pela janela.
E, no alto das montanhas...
Kaelen permanecia diante de outra janela.
Observando a distância.
Ele sabia exatamente onde Veyra estava.
Sabia que ela estava viva.
Sabia que havia encontrado abrigo.
Mas também sabia que algo havia acontecido com ela naquele dia.
O Ser Supremo fechou os olhos.
Durante anos, ele havia segurado parte do poder dela.
Agora não segurava mais.
E talvez tivesse cometido um erro.
Não por libertá-la.
Mas por acreditar que ela conseguiria enfrentar tudo sozinha imediatamente.
Kaelen abriu os olhos.
— Veyra...
Seu nome saiu quase como um sussurro.
Mas ele não foi atrás dela.
Ainda não.
Porque havia uma coisa que Kaelen precisava descobrir.
Se Veyra realmente conseguiria viver sem ele.
E, em algum lugar da cidade, sem saber que ele estava pensando nela...
Veyra adormeceu.
Sem castelo.
Sem dinheiro.
Sem suas coisas.
Mas com uma nova determinação.
Ela havia perdido quase tudo.
Mas ainda tinha algo.
Seu próprio poder.
E, desta vez...
ela aprenderia a controlá-lo sozinha.