Uma nova começo

1375 Words
📖 PODER SEM DONO Capítulo 5 — Um Novo Começo O sol ainda nem havia aparecido completamente quando Veyra abriu os olhos. Por alguns segundos, ficou imóvel. O teto de madeira acima dela parecia desconhecido. Então as lembranças voltaram. O castelo. Kaelen. A discussão. A bolsa roubada. A estrada. A estalagem. Veyra fechou os olhos novamente. — É verdade... Ela se sentou na cama. Não havia ninguém para chamá-la. Ninguém para dizer que o café estava pronto. Ninguém esperando por ela. Veyra respirou fundo. — Hoje começa minha nova vida. Ela levantou-se. Arrumou a cama da melhor maneira que conseguiu e saiu do pequeno quarto. A estalagem já estava movimentada. A mulher que havia lhe oferecido trabalho estava atrás do balcão. — Bom dia. — Bom dia. — Dormiu bem? Veyra hesitou. — Mais ou menos. A mulher sorriu. — Vai se acostumar. Ela colocou um avental sobre o balcão. — Vista isso. Veyra pegou o avental. — O que faço primeiro? — Ajude na cozinha. — Está bem. Veyra entrou na cozinha. Havia panelas, cestos de legumes, sacos de farinha e vários utensílios. Ela olhou para tudo. — Por onde começo? Uma das cozinheiras apontou para uma mesa. — Corte aqueles legumes. Veyra assentiu. — Certo. Ela começou. Durante algum tempo, tudo correu bem. Veyra era cuidadosa. Lenta. Mas aprendia rápido. Quando terminou, começou a ajudar com o pão. Depois carregou caixas. Depois limpou algumas mesas. O trabalho era cansativo. Muito mais cansativo do que ela imaginava. No castelo, havia pessoas para cuidar de praticamente tudo. Agora... ela precisava fazer sozinha. No final da manhã, seus braços estavam cansados. Veyra apoiou as mãos na mesa. — Como as pessoas fazem isso todos os dias? A cozinheira riu. — Trabalhando. Veyra também riu. — Acho que preciso me acostumar. --- Perto do meio-dia, a estalagem ficou lotada. Veyra começou a servir mesas. Carregava pratos de um lado para outro. Anotava pedidos. Buscava água. Recolhia pratos vazios. Um homem sentado perto da janela levantou a mão. — Menina! Veyra foi até ele. — Sim? — Mais pão. — Já trago. Ela virou-se. Naquele momento, outro cliente passou rapidamente por trás dela. Veyra se desequilibrou. O prato que carregava quase caiu. Ela segurou no último instante. — Desculpa! — Presta atenção! — reclamou o homem. Veyra baixou a cabeça. — Desculpa. Ela continuou andando. Então ouviu algumas pessoas rindo. Não gostou. Sentiu o rosto esquentar. A energia dentro dela respondeu imediatamente. Os copos sobre uma mesa começaram a vibrar. Veyra parou. Olhou para eles. — Não... Respirou. Os copos continuaram tremendo. — Calma. Um deles levantou alguns centímetros. Veyra rapidamente segurou o objeto. — Por favor... A energia diminuiu. Ninguém pareceu perceber. Ou, pelo menos, ninguém comentou. Veyra respirou aliviada. Era muito mais difícil do que imaginava. Seu poder estava ligado às emoções. Raiva. Medo. Tristeza. Ansiedade. Tudo fazia aquela força reagir. Ela precisava aprender. Mas não teria Kaelen para ajudá-la. --- No final do dia, Veyra estava exausta. Sentou-se nos degraus dos fundos da estalagem. A dona apareceu com um prato de comida. — Come. Veyra olhou surpresa. — É para mim? — Você trabalhou o dia inteiro. — Obrigada. Ela pegou o prato. Começou a comer. A comida era simples. Pão. Legumes. Um pouco de carne. Mas naquele momento parecia a melhor refeição do mundo. — Está gostoso. A mulher sentou-se ao lado dela. — Você não parece daqui. Veyra ficou imóvel. — Como assim? — Você fala diferente. — Diferente? — Parece que não está acostumada com esse tipo de trabalho. Veyra desviou o olhar. — Eu estava acostumada com outra vida. — Que tipo de vida? Veyra pensou em responder. Mas não poderia dizer a verdade. "Eu morava no castelo do Ser Supremo." Seria absurdo. — Uma vida... mais protegida. A mulher assentiu. — Entendi. Ela não fez mais perguntas. Veyra agradeceu mentalmente. --- Naquela noite, quando voltou para o quarto, Veyra percebeu que suas mãos estavam doloridas. Ela olhou para elas. — Estou cansada. Deitou-se. Mas não conseguiu dormir. Pensamentos começaram a surgir. Kaelen. Ela fechou os olhos. — Para. Mas as lembranças continuavam. A primeira vez que ele havia aparecido na aldeia. O treinamento. O castelo. Os jardins. As conversas. Os momentos em que ela acreditava que ficaria ali para sempre. Então lembrou da última noite. "Você vai deixar o castelo esta noite." Veyra apertou os olhos. Uma lágrima caiu. — Eu não quero lembrar. A energia começou a surgir. A cama tremeu. Veyra abriu os olhos. — Não. Ela sentou-se. — Respira. As paredes começaram a vibrar. — Não vou perder o controle. Uma pequena rachadura apareceu na parede. Veyra levantou-se imediatamente. — Não! Ela colocou as mãos sobre o peito. — Sou eu quem manda. A energia continuou crescendo. — Não é você! Ela respirou profundamente. — É minha. A força começou a diminuir. — Minha. Mais uma respiração. — E eu vou aprender. A energia desapareceu. Veyra caiu sentada na cama. Ofegante. Mas havia conseguido. Sozinha. Ela olhou para a parede rachada. — Amanhã preciso consertar isso. E, pela primeira vez, riu da própria situação. --- Na manhã seguinte, Veyra acordou ainda mais cedo. Dessa vez, não esperou ninguém mandar. Começou a trabalhar imediatamente. Dias passaram. Depois semanas. Veyra começou a se acostumar. Aprendeu a cozinhar melhor. Aprendeu a servir mesas. Aprendeu a economizar moedas. Aprendeu a conhecer os clientes. E, principalmente... começou a aprender a controlar o próprio poder. Todos os dias, depois do trabalho, ela ia para um campo vazio atrás da cidade. Ali treinava. Primeiro pequenas pedras. Depois galhos. Depois pequenas ondas de energia. Nunca tentava fazer grandes coisas. Kaelen havia lhe ensinado uma coisa que ela finalmente começava a entender: controle não significava força. Significava saber quando parar. Veyra levantou uma pequena pedra. Ela flutuou diante dela. — Um. A pedra girou. — Dois. Ela aumentou a energia. A pedra começou a tremer. — Três. A pedra caiu. Veyra sorriu. — Melhor. Ela tentou novamente. Dessa vez, conseguiu mantê-la no ar por mais tempo. Depois outra. Depois duas. Depois cinco. Veyra ficou animada. — Eu consigo! As pedras começaram a girar ao redor dela. Ela riu. Por alguns segundos, esqueceu completamente Kaelen. Até ouvir uma voz. — Impressionante. Veyra congelou. As pedras caíram. Ela virou-se rapidamente. Havia alguém parado na entrada do campo. Um homem que ela nunca havia visto antes. Veyra ficou alerta. — Quem é você? O estranho sorriu. — Apenas alguém que sentiu sua energia. Veyra recuou. — Minha energia? — Sim. Ele olhou para as pedras espalhadas pelo chão. — Você não sabe o que carrega dentro de si, sabe? Veyra não respondeu. O homem continuou: — Eu sabia. Veyra sentiu a energia começar a se concentrar novamente. — Vá embora. — Não precisa ter medo. — Eu disse para ir embora. O homem levantou as mãos. — Tudo bem. Ele recuou. Mas antes de desaparecer pela estrada, disse: — Você deveria descobrir quem realmente é. Veyra ficou observando. — Quem eu sou? O homem desapareceu. Ela permaneceu imóvel. Aquela frase ficou em sua cabeça. Quem realmente é. Veyra olhou para as próprias mãos. Durante toda a vida, havia pensado que era apenas uma súcubo. Depois descobriu que carregava um poder enorme. Kaelen havia lhe ensinado a controlá-lo. Mas nunca havia explicado completamente de onde aquela força vinha. Veyra respirou fundo. Talvez existisse algo que nem Kaelen havia contado. Algo sobre ela. Algo sobre seu nascimento. Algo sobre aquele poder. E, pela primeira vez desde que havia sido expulsa do castelo... Veyra sentiu curiosidade. Não apenas saudade. Não apenas tristeza. Curiosidade. Ela olhou para o céu. — Quem sou eu? Muito longe dali, dentro do castelo, Kaelen abriu os olhos. Ele havia sentido aquela energia. E reconhecido imediatamente. Mas havia outra coisa. Uma presença desconhecida havia tocado o poder de Veyra. Kaelen levantou-se. Seu olhar ficou sério. — Quem está procurando por ela? O castelo inteiro permaneceu em silêncio. Mas Kaelen sabia. A separação entre ele e Veyra havia mudado alguma coisa. E agora outros seres começavam a perceber aquilo que ele havia tentado esconder durante anos. Veyra não era apenas uma súcubo com um grande poder. Havia algo muito mais antigo dentro dela. Algo que começava, finalmente, a despertar.
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