A casa das sucubos

1286 Words
📖 PODER SEM DONO Capítulo 6 — A Casa das Súcubos Os dias continuaram passando. Veyra havia começado a se acostumar com a vida na cidade. Trabalhava na estalagem durante o dia, economizava cada moeda que recebia e, todas as tardes, treinava seu poder em um campo afastado. Mas ainda havia um problema. O dinheiro. Ela conseguia sobreviver, mas dificilmente conseguiria juntar o suficiente para alugar uma pequena casa. Foi então que ouviu falar de outro estabelecimento. Uma casa conhecida em toda a cidade. A Casa da Lua Rubra. O lugar era famoso por receber viajantes, comerciantes e moradores de várias regiões. Era administrado principalmente por súcubos. Algumas trabalhavam como cozinheiras. Outras serviam mesas. Algumas tocavam instrumentos. Outras cantavam ou dançavam para os clientes. Também havia quartos para viajantes que precisavam passar a noite na cidade. Era um lugar movimentado, mas organizado. E, para muitas súcubos que não tinham família ou riquezas, era uma oportunidade de conseguir dinheiro e construir uma vida própria. Veyra ouviu falar sobre o lugar através de uma das mulheres da estalagem. — Se quer ganhar um pouco mais, talvez devesse conversar com a dona da Lua Rubra. Veyra ergueu os olhos. — Eles estão contratando? — Estão. — Que tipo de trabalho? — Atendimento, cozinha, limpeza, música... há várias funções. Veyra pensou por alguns segundos. — Então vou tentar. --- Naquela tarde, Veyra caminhou até a Casa da Lua Rubra. O prédio ficava em uma rua movimentada. Era maior do que ela esperava. Tinha paredes de pedra escura, janelas altas e uma grande placa acima da entrada. Uma lua vermelha estava desenhada sobre ela. Veyra respirou fundo. Entrou. O interior era bastante movimentado. Havia mesas ocupadas, músicos tocando instrumentos e várias súcubos trabalhando. Veyra percebeu imediatamente uma coisa. A maioria das funcionárias parecia ser da mesma espécie que ela. Algumas tinham chifres pequenos. Outras tinham asas. Algumas tinham caudas. Cada uma possuía características diferentes. Mas todas trabalhavam normalmente. Uma súcubo de cabelos castanhos aproximou-se. — Você está procurando alguém? — Estou procurando trabalho. A mulher sorriu. — Então veio ao lugar certo. Ela apontou para o balcão. — Fale com a dona. Veyra aproximou-se. Atrás do balcão estava uma súcubo mais velha, de cabelos grisalhos e olhos dourados. Ela observou Veyra atentamente. — Nome? — Veyra. — Já trabalhou aqui antes? — Não. — Tem experiência? — Trabalho numa estalagem durante o dia. A mulher assentiu. — Então sabe atender clientes. — Sei. — Cozinhar? — Um pouco. — Limpar? — Sim. — Música? Veyra hesitou. — Não. A mulher riu. — Pelo menos é honesta. Veyra sorriu. — Sempre. A dona apoiou os braços no balcão. — Posso lhe oferecer trabalho na parte de atendimento e limpeza. — Quanto paga? A mulher disse o valor. Veyra quase arregalou os olhos. Era muito mais do que recebia na estalagem. — Aceito. — Pode começar hoje. Veyra sorriu. — Obrigada. --- Seu primeiro turno foi confuso. Veyra precisou aprender rapidamente. Levar bebidas. Entregar comida. Limpar mesas. Organizar quartos. Levar mensagens. Buscar mercadorias. Ela quase derrubou uma bandeja duas vezes. Na terceira, conseguiu. — Está melhorando — comentou uma das outras funcionárias. Veyra riu. — Espero que sim. A súcubo se apresentou como Liora. Era alguns anos mais velha que Veyra e trabalhava ali havia bastante tempo. — Você é nova na cidade? — Sim. — Tem família aqui? Veyra abaixou os olhos. — Não. Liora percebeu que havia tocado em algo delicado. — Desculpa. — Tudo bem. Veyra continuou trabalhando. Liora observou-a por alguns segundos. — Você não parece uma súcubo daqui. Veyra ficou alerta. — Como assim? — Seu jeito. — Meu jeito? — Você é muito... tranquila. Veyra riu. — Isso é r**m? — Não. Só diferente. Liora sorriu. — Você vai gostar daqui. Veyra olhou ao redor. Pela primeira vez desde que chegara à cidade, sentiu que talvez pudesse pertencer a algum lugar. --- Mais tarde, quando o movimento diminuiu, algumas das funcionárias sentaram juntas. Veyra recebeu uma refeição. Liora sentou ao seu lado. — Então, Veyra... — Sim? — De onde você veio? Veyra hesitou. — De uma aldeia. — E por que veio para cá? Ela pensou em contar a verdade. Mas não conseguiu. — Queria começar de novo. Liora assentiu. — Entendo. Outra súcubo entrou na conversa. — Quase todas nós viemos por algum motivo parecido. Veyra olhou para elas. Algumas haviam perdido suas famílias. Outras fugiram de cidades onde eram maltratadas. Algumas simplesmente queriam independência. Nenhuma parecia ter tido uma vida fácil. Mas estavam ali. Trabalhando. Conversando. Rindo. Vivendo. Veyra sentiu algo dentro dela mudar. Talvez ser uma súcubo não significasse apenas possuir poderes estranhos. Talvez também significasse pertencer a uma comunidade. Pela primeira vez, ela começou a conhecer outras como ela. --- Naquela noite, depois do trabalho, Veyra saiu pelos fundos da casa. O céu estava cheio de estrelas. Ela respirou fundo. Seu corpo estava cansado. Mas sua mente estava tranquila. — Foi um bom dia. Uma voz respondeu atrás dela. — Foi mesmo. Veyra virou-se. Liora estava encostada na porta. — Você está aprendendo rápido. — Estou tentando. — Isso basta. Veyra sorriu. Liora olhou para ela. — Você sabe que pode ficar aqui, certo? Veyra ficou surpresa. — Como assim? — Se precisar de um lugar para ficar. Veyra ficou em silêncio. — Obrigada. — Não precisa agradecer. Veyra olhou para o céu. — Faz muito tempo que não sinto que pertenço a algum lugar. Liora respondeu: — Então talvez tenha encontrado um. Veyra sorriu. --- Mas aquela sensação de segurança não durou muito. Quando voltou para o quarto naquela noite, Veyra percebeu algo estranho. A energia dentro dela estava diferente. Mais forte. Ela colocou a mão sobre o peito. Seu coração acelerou. Uma luz surgiu sob sua pele. Veyra ficou assustada. — De novo? Ela respirou. A energia continuou crescendo. As paredes começaram a vibrar. Veyra fechou os olhos. — Calma. Nada. — Eu consigo controlar. A energia aumentou. — Calma! Um copo sobre a mesa explodiu em pequenos fragmentos. Veyra abriu os olhos. — Não! Ela tentou controlar a força. O quarto inteiro tremeu. Do lado de fora, várias pessoas pararam. — O que foi isso? Veyra apertou os dentes. — Não... Ela lembrou de Kaelen. Das palavras dele. "Você n******e deixar sua dor controlar seu poder." Mas dessa vez não era tristeza. Era medo. E o medo também alimentava aquela força. Veyra caiu de joelhos. — Eu não vou perder o controle. Respirou. — Eu sou Veyra. Mais uma respiração. — Esse poder é meu. A energia diminuiu. Ela permaneceu ajoelhada durante vários segundos. Depois olhou para os pedaços do copo. — Amanhã eu compro outro. Uma pequena risada escapou. Mas, no fundo, Veyra sabia que aquilo estava ficando mais sério. Seu poder estava crescendo. E ela não sabia por quê. --- Muito longe dali, no castelo... Kaelen abriu os olhos. Novamente. A energia de Veyra havia aumentado. Mas dessa vez havia algo diferente. Ele sentiu uma presença antiga misturada àquela força. Algo que não estava ali antes. Kaelen levantou-se. — n******e ser... Caminhou até uma janela. Olhou para o horizonte. Seu rosto tornou-se sério. — Então começou. Um dos guardiões apareceu. — Meu senhor? Kaelen não respondeu imediatamente. — Prepare os cavalos. O guardião ficou surpreso. — Vai sair? Kaelen finalmente respondeu: — Sim. — Para onde? Kaelen olhou para o horizonte. — Para a cidade. Ele sabia que não deveria interferir na nova vida de Veyra. Mas também sabia de uma coisa. Se aquilo que havia despertado dentro dela fosse realmente o que ele suspeitava... então Veyra não estava apenas aprendendo a controlar seu poder. Ela estava despertando algo que poderia mudar o mundo inteiro.
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