📖 PODER SEM DONO
CapÃtulo 7 — O Homem Que Voltou
O amanhecer chegou lentamente à cidade.
Os primeiros raios de sol atravessaram as janelas da Casa da Lua Rubra, iluminando o salão ainda vazio.
Veyra já estava acordada.
Havia dormido pouco.
Depois do que acontecera na noite anterior, sua mente não conseguia descansar completamente.
Ela permanecia sentada na cama, olhando para as próprias mãos.
— Está ficando mais forte...
Uma pequena luz surgiu entre seus dedos.
Veyra imediatamente fechou a mão.
A luz desapareceu.
Ela respirou fundo.
— Eu consigo.
Levantou-se.
Vestiu o uniforme simples de trabalho e saiu do quarto.
No corredor, encontrou Liora.
— Bom dia.
— Bom dia.
Liora olhou para ela.
— Dormiu?
Veyra hesitou.
— Um pouco.
— Você está com uma cara péssima.
Veyra riu.
— Obrigada pela sinceridade.
— Sempre.
As duas desceram para o salão.
O dia começou como todos os outros.
Clientes chegaram.
Pedidos foram feitos.
Comida foi preparada.
As funcionárias correram de um lado para outro.
Veyra estava começando a gostar daquela rotina.
Era cansativa.
Mas era simples.
E, principalmente, ninguém esperava que ela fosse alguma coisa além de Veyra.
Não era a companheira do Ser Supremo.
Não era alguém protegida pelo castelo.
Não era uma criatura que precisava esconder um poder gigantesco.
Era apenas uma funcionária.
E aquilo lhe dava uma sensação estranha de liberdade.
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Do lado de fora da cidade, porém, uma carruagem n***a aproximava-se lentamente.
Não havia brasão.
Não havia bandeiras.
Não havia escolta.
Mas os guardas do portão ficaram tensos quando perceberam quem estava dentro.
A carruagem parou.
O homem que a conduzia desceu.
Abriu a porta.
Kaelen saiu.
Os guardas imediatamente se ajoelharam.
— Meu senhor.
Kaelen fez apenas um gesto.
— Levantem-se.
Os homens obedeceram.
Um deles estava nervoso.
— Não sabÃamos que viria pessoalmente.
— Eu não avisei.
Kaelen entrou na cidade.
As pessoas começaram a perceber sua presença.
Algumas paravam.
Outras abaixavam a cabeça.
Algumas simplesmente saÃam do caminho.
Kaelen caminhava em silêncio.
Não precisava anunciar quem era.
Sua presença bastava.
Ele poderia ter ido diretamente até a Casa da Lua Rubra.
Mas não foi.
Primeiro caminhou pelas ruas.
Observou a cidade.
Observou os moradores.
Queria entender o lugar onde Veyra estava vivendo.
E então percebeu algo.
Ela realmente havia começado a construir uma vida.
Não havia pedido ajuda.
Não havia retornado ao castelo.
Não havia tentado procurá-lo.
Kaelen sentiu uma pequena pressão no peito.
Continuou andando.
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Na Casa da Lua Rubra, Veyra carregava uma bandeja.
Passou entre algumas mesas.
Um cliente chamou:
— Moça!
Veyra virou-se.
— Sim?
— Pode trazer mais água?
— Claro.
Ela sorriu e foi buscar.
Liora observava de longe.
— Ela está melhorando.
Outra funcionária respondeu:
— Muito.
— Parece que trabalha aqui há meses.
— Ela aprende rápido.
Veyra voltou com a água.
Colocou sobre a mesa.
— Aqui está.
— Obrigado.
Ela voltou ao balcão.
Foi então que sentiu.
Parou.
Seu coração acelerou.
A energia dentro dela reagiu.
Veyra olhou para a porta.
Não sabia por quê.
Mas alguma coisa estava diferente.
Liora percebeu.
— Veyra?
Ela não respondeu.
A porta da Casa da Lua Rubra abriu.
E Kaelen entrou.
O salão inteiro ficou em silêncio.
Veyra congelou.
A bandeja em suas mãos quase caiu.
Seus olhos encontraram os dele.
Por alguns segundos, nenhum dos dois se moveu.
Kaelen estava exatamente como ela se lembrava.
Calmo.
Imponente.
Intocável.
Mas, naquele momento, Veyra não enxergou o Ser Supremo.
Enxergou o homem que havia amado.
O homem que havia mandado embora.
Seu peito apertou.
Kaelen também permaneceu imóvel.
Ele havia imaginado aquele momento.
Mas nenhuma das possibilidades que pensara preparou-o para vê-la realmente ali.
Veyra estava diferente.
Não muito.
Mas o suficiente.
Parecia mais independente.
Mais segura.
E havia algo em seu olhar que ele não conhecia.
Talvez fosse determinação.
Talvez fosse mágoa.
Talvez os dois.
Kaelen caminhou alguns passos para dentro.
Liora olhou de Veyra para ele.
Percebeu imediatamente que havia alguma história entre os dois.
— Veyra...
Ela não respondeu.
Kaelen parou diante dela.
— Veyra.
Ela finalmente falou.
— O que você está fazendo aqui?
A voz dela estava calma.
Mas seus dedos tremiam.
— Vim conversar.
Veyra apertou a bandeja.
— Não temos nada para conversar.
Kaelen ficou em silêncio.
— Temos.
— Não.
Ela colocou a bandeja sobre uma mesa.
— Você deixou sua decisão bem clara.
Algumas pessoas no salão começaram a observar.
Liora percebeu o desconforto e pediu discretamente que as outras funcionárias continuassem trabalhando.
Kaelen olhou para Veyra.
— Eu precisava verificar se estava segura.
Veyra soltou uma pequena risada.
— Agora se preocupa?
Kaelen não respondeu.
— Quando me mandou embora, não parecia preocupado.
— Eu estava.
— Não parecia.
— Eu sei.
Veyra ficou em silêncio.
Aquilo a irritava.
Ele continuava falando daquele jeito calmo.
Como se nada pudesse abalá-lo.
Como se não tivesse partido o coração dela.
— Você não deveria estar aqui.
— Eu sei.
— Então vá embora.
Kaelen olhou para ela.
— Não posso.
Veyra franziu a testa.
— Por quê?
— Seu poder mudou.
Ela ficou séria.
— O que isso significa?
Kaelen aproximou-se um pouco.
— Ainda não sei.
— Você sempre sabe.
— Dessa vez não.
Veyra percebeu algo.
Kaelen realmente estava preocupado.
— Então por que veio?
— Porque senti algo dentro de você.
Ela cruzou os braços.
— Meu poder?
— Não exatamente.
Veyra esperou.
Kaelen ficou em silêncio.
— Existe algo além da energia que eu conheço.
Ela sentiu um arrepio.
— O quê?
— Ainda estou tentando descobrir.
Veyra desviou o olhar.
— Você sempre escondeu coisas de mim.
Kaelen não negou.
— Sim.
Ela voltou a encará-lo.
— Por quê?
— Porque algumas verdades poderiam colocar você em perigo.
— E agora?
— Agora elas podem estar vindo atrás de você.
O salão pareceu ficar mais silencioso.
Veyra ficou séria.
— Quem?
Kaelen respondeu:
— Ainda não sei.
— Então você veio aqui sem saber?
— Vim porque senti que algo estava errado.
Veyra respirou fundo.
— Kaelen...
Ela hesitou.
— Eu não quero voltar.
Ele permaneceu calado.
— Não estou pedindo para você voltar.
Veyra olhou surpresa.
— Então o que quer?
Kaelen respondeu:
— Quero que você sobreviva.
Ela ficou em silêncio.
— Eu estou sobrevivendo.
— Eu percebi.
Ele olhou ao redor.
A Casa da Lua Rubra.
As pessoas.
O trabalho.
— Você encontrou seu próprio caminho.
Veyra não respondeu.
Kaelen deu um passo para trás.
— Continue.
Ela franziu a testa.
— Continue?
— Sim.
— Você veio até aqui só para dizer isso?
— Não.
Kaelen olhou diretamente para ela.
— Vim avisar que você não está sozinha neste mundo.
Veyra sentiu um arrepio.
— O que isso significa?
Kaelen virou-se.
— Significa que alguém começou a procurar por você.
Ele caminhou até a porta.
Veyra permaneceu imóvel.
— Kaelen!
Ele parou.
Ela respirou fundo.
— Quem está me procurando?
Kaelen olhou por cima do ombro.
— Ainda não sei.
— E você vai descobrir?
— Sim.
— Por quê?
Kaelen ficou alguns segundos em silêncio.
Então respondeu:
— Porque, mesmo que nosso relacionamento tenha terminado...
Ele a encarou.
— Eu ainda me importo com você.
Veyra ficou sem resposta.
Kaelen saiu.
A porta fechou.
Veyra permaneceu olhando para ela.
Liora aproximou-se lentamente.
— Então...
Veyra suspirou.
— Não pergunta.
Liora assentiu.
— Tudo bem.
Mas antes que Veyra pudesse voltar ao trabalho...
uma forte onda de energia atravessou a cidade.
As janelas da Casa da Lua Rubra vibraram.
Os copos sobre as mesas tremeram.
Veyra levou a mão ao peito.
— Não...
Kaelen parou na rua.
Também sentiu.
Ele olhou para o céu.
Uma presença antiga acabara de despertar.
E dessa vez não estava vindo de Veyra.
Estava vindo de algum lugar dentro da própria cidade.
Kaelen estreitou os olhos.
— Então você veio atrás dela...
Uma sombra passou rapidamente sobre os telhados.
Kaelen levantou o olhar.
E, pela primeira vez desde que chegara à cidade...
o Ser Supremo sorriu sem qualquer traço de tranquilidade.
— Encontrei você.