📖 PODER SEM DONO
CapÃtulo 9 — A Presença nas Sombras
A noite já havia avançado quando Veyra voltou para a Casa da Lua Rubra.
A apresentação havia terminado há algum tempo, mas o salão ainda estava cheio.
Alguns clientes conversavam em voz baixa.
Outros bebiam.
As músicas continuavam tocando.
As funcionárias caminhavam entre as mesas.
Mas Veyra estava distraÃda.
Desde que havia encontrado Kaelen naquela noite, sua cabeça não conseguia pensar em outra coisa.
Ela havia tentado voltar ao trabalho normalmente.
Tentado sorrir.
Tentado conversar.
Mas a presença dele ainda permanecia em sua mente.
Veyra entrou no pequeno quarto que havia começado a usar para guardar suas coisas.
Fechou a porta.
Encostou-se nela.
Respirou fundo.
— Por que você voltou?
Não esperava resposta.
Mesmo assim, aquela pergunta continuava dentro dela.
Kaelen havia dito que ainda se importava.
Mas isso não mudava o fato de que ele havia sido quem a expulsara.
Veyra caminhou até a janela.
A cidade estava iluminada pelas pequenas lanternas espalhadas pelas ruas.
Ela observou as pessoas caminhando.
Antes, não conhecia aquela vida.
Agora começava a fazer parte dela.
Tinha seu próprio dinheiro.
Seu próprio quarto.
Seu próprio trabalho.
Tinha pessoas que conhecia.
Amigas.
Uma rotina.
E, principalmente, tinha algo que nunca havia tido enquanto vivia no castelo:
independência.
Veyra sorriu levemente.
— Eu consegui.
Então sentiu.
O sorriso desapareceu.
Uma presença.
Muito distante.
Mas forte.
Veyra levantou a cabeça.
Seu poder respondeu imediatamente.
— Quem está a�
Nada.
Ela fechou os olhos.
Tentou sentir melhor.
A presença desapareceu.
Veyra abriu os olhos.
— Estranho...
---
Na rua, Kaelen ainda caminhava pela cidade.
Ele também havia sentido.
Parou.
Olhou para trás.
Seu rosto mudou.
Aquela presença não era comum.
Era antiga.
Muito antiga.
Kaelen conhecia aquela energia.
Ou pelo menos acreditava conhecer.
— Não...
Ele fechou os olhos.
Tentou localizar a origem.
Nada.
A presença havia desaparecido completamente.
Kaelen permaneceu imóvel.
Então ouviu passos.
Um dos seus guardiões aproximou-se.
— Meu senhor.
— Encontrou alguma coisa?
— Ainda não.
Kaelen ficou em silêncio.
— A cidade inteira está sendo observada.
O guardião ficou sério.
— Por quem?
— É isso que precisamos descobrir.
— Devemos retirar Veyra da cidade?
Kaelen respondeu imediatamente:
— Não.
— Mas—
— Se alguém está procurando por ela, tirá-la daqui pode ser exatamente o que essa pessoa deseja.
O guardião assentiu.
— Então devemos protegê-la secretamente?
Kaelen olhou para a Casa da Lua Rubra.
— Sim.
— Ela sabe?
— Não.
— E se descobrir?
Kaelen respondeu:
— Então ela terá que decidir se aceita ou não.
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Na manhã seguinte, Veyra acordou cedo.
Desceu para o salão.
Liora já estava trabalhando.
— Bom dia.
— Bom dia.
Liora entregou-lhe uma pequena lista.
— Precisamos buscar algumas coisas no mercado.
Veyra pegou o papel.
— Certo.
— E depois temos uma apresentação à noite.
— Entendi.
Veyra saiu.
A cidade estava movimentada.
Ela caminhou entre as barracas.
Comprou frutas.
Pães.
Alguns ingredientes.
Depois voltou.
Mas, no caminho, percebeu algo estranho.
Um homem estava parado do outro lado da rua.
Observando-a.
Veyra continuou andando.
O homem continuou observando.
Ela virou em uma esquina.
Depois olhou discretamente para trás.
Ele havia desaparecido.
Veyra franziu a testa.
— Estou ficando paranoica.
Continuou andando.
Mas não percebeu que outra pessoa a observava de uma janela.
E outra.
E outra.
Havia alguém procurando por ela.
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Naquela noite, a Casa da Lua Rubra estava completamente lotada.
A apresentação de Veyra começaria em poucos minutos.
Nos bastidores, Liora ajustava algumas coisas.
— Nervosa?
Veyra balançou a cabeça.
— Não.
— Mentira.
Veyra riu.
— Talvez um pouco.
Liora sorriu.
— Você sempre fica assim antes de entrar.
— É porque todo mundo fica olhando.
— E você já se acostumou.
— Ainda não.
Liora colocou a mão em seu ombro.
— Então respira.
Veyra respirou fundo.
A música começou.
Ela entrou no palco.
O salão ficou em silêncio.
Veyra começou a dançar.
Por alguns minutos, tudo desapareceu.
As pessoas.
A cidade.
Kaelen.
O término.
O passado.
Só existia a música.
Até que Veyra sentiu algo.
Uma energia estranha atravessou o salão.
Ela parou por uma fração de segundo.
Ninguém percebeu.
Ou quase ninguém.
No fundo do salão, um homem estava sentado sozinho.
Veyra olhou diretamente para ele.
Seus olhos se encontraram.
O homem sorriu.
Um sorriso pequeno.
Frio.
Veyra sentiu um arrepio.
Continuou a apresentação.
Mas agora estava alerta.
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Quando terminou, Veyra saiu rapidamente do palco.
Liora percebeu.
— O que aconteceu?
— Aquele homem.
— Qual?
Veyra apontou discretamente.
O lugar onde ele estava estava vazio.
— Ele estava ali.
Liora olhou.
— Quem?
— Um homem.
— Como era?
Veyra tentou lembrar.
— Alto.
— Mais alguma coisa?
— Roupas escuras.
Liora ficou séria.
— Isso descreve metade dos homens daqui.
Veyra respirou fundo.
— Não sei explicar.
— Você sentiu alguma coisa?
Veyra ficou em silêncio.
— Sim.
Liora percebeu a seriedade em seu rosto.
— Então vou confiar em você.
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Do lado de fora, Kaelen estava novamente observando.
Ele havia sentido a mesma energia.
Dessa vez, porém, conseguiu identificar uma direção.
A presença havia passado pela Casa da Lua Rubra.
Kaelen levantou o olhar.
— Está aqui.
Uma sombra surgiu sobre o telhado.
Kaelen desapareceu da rua.
No instante seguinte, estava no alto do prédio.
Mas não havia ninguém.
Apenas uma pequena marca gravada na pedra.
Kaelen aproximou-se.
Olhou para o sÃmbolo.
Seu rosto ficou completamente sério.
— Então é verdade.
A marca era antiga.
Muito anterior aos reinos atuais.
Anterior a muitos dos reis.
Kaelen tocou nela.
Uma visão surgiu por um instante.
Uma criança.
Uma pequena súcubo.
Um poder gigantesco.
E uma mulher desconhecida segurando aquela criança.
Kaelen retirou a mão imediatamente.
— Veyra...
Ele percebeu algo terrÃvel.
O poder dela não havia surgido simplesmente ao nascer.
Alguém havia esperado por aquele nascimento.
Alguém sabia que ela existiria.
E talvez alguém estivesse esperando que ela finalmente despertasse.
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Dentro da Casa da Lua Rubra, Veyra estava sozinha no corredor.
De repente, ouviu uma voz atrás dela.
— Veyra.
Ela virou-se.
Não havia ninguém.
— Quem está a�
Silêncio.
Então a voz voltou.
Mais próxima.
— Você não deveria estar aqui.
Veyra sentiu o poder dentro dela despertar.
— Mostre-se.
Uma sombra apareceu no fim do corredor.
A figura não avançou.
Apenas ficou olhando.
— Você finalmente começou a despertar.
Veyra estreitou os olhos.
— Quem é você?
A figura sorriu.
— Alguém que conhece a verdade sobre você.
Veyra sentiu o coração acelerar.
— Que verdade?
A sombra respondeu:
— Você não nasceu apenas com poder.
Veyra ficou imóvel.
— Então com o que nasci?
A figura deu um passo para trás.
— Pergunte a Kaelen.
E desapareceu.
Veyra permaneceu sozinha no corredor.
Seu coração batia rapidamente.
Kaelen.
Mais uma vez, o nome dele estava no centro de tudo.
Mas agora havia uma pergunta diferente.
Não era sobre o término.
Não era sobre o amor.
Era sobre ela.
Quem era Veyra antes de ser Veyra?
E, pela primeira vez, ela decidiu que encontraria a resposta.
Mesmo que precisasse confrontar o próprio Kaelen para consegui-la.