đ PODER SEM DONO
CapĂtulo 14 â A Floresta Sem Nome
Presente
A noite ainda cobria a cidade quando Veyra saiu da Casa da Lua Rubra.
Ela caminhou sem direção.
Precisava ficar sozinha.
As palavras daquela figura continuavam ecoando em sua cabeça.
"Kaelen esconde a verdade."
Ela apertou os braços contra o corpo.
â Todo mundo sabe alguma coisa sobre mim...
Continuou andando.
As ruas foram ficando mais vazias.
As lanternas começaram a desaparecer uma a uma.
Até que Veyra percebeu que jå estava longe demais da cidade.
Parou.
Olhou para trĂĄs.
Não havia ninguém.
Ă frente, apenas uma estrada estreita cercada por ĂĄrvores.
Veyra respirou fundo.
â Preciso pensar.
Mas sua cabeça estava cheia demais.
O passado.
Kaelen.
O castelo.
Seu poder.
A figura encapuzada.
A criança que havia visto.
Tudo parecia ligado.
Ela fechou os olhos.
â Eu preciso de um lugar onde ninguĂ©m possa me encontrar.
A energia começou a se reunir ao redor dela.
Veyra abriu os olhos.
Por um instante, pequenas faĂscas douradas percorreram seus braços.
â Teletransporte...
Ela ainda nĂŁo dominava completamente aquela habilidade.
Mas jĂĄ havia conseguido fazĂȘ-lo algumas vezes.
Precisava apenas escolher um lugar.
Qualquer lugar.
Um lugar distante.
Sem pessoas.
Sem Kaelen.
Sem os GuardiÔes.
Veyra respirou profundamente.
â Para algum lugar onde ninguĂ©m possa me encontrar.
A energia explodiu.
O mundo desapareceu.
---
Quando abriu os olhos novamente...
nĂŁo havia cidade.
NĂŁo havia estrada.
NĂŁo havia casas.
Veyra estava no meio de uma floresta.
Uma floresta enorme.
Ărvores gigantescas se erguiam acima dela, cobrindo quase completamente o cĂ©u.
A lua aparecia apenas em pequenos espaços entre os galhos.
Veyra olhou ao redor.
â Onde eu estou?
NĂŁo havia resposta.
Ela deu alguns passos.
Folhas secas quebraram sob seus pés.
O vento soprava entre as ĂĄrvores.
Era frio.
Muito frio.
Veyra abraçou o próprio corpo.
â Eu realmente consegui.
Ela olhou para as mĂŁos.
â Mas onde?
Tentou sentir a cidade.
Nada.
Tentou sentir a energia de Kaelen.
Nada.
Veyra respirou aliviada.
Pela primeira vez em muito tempo, estava completamente sozinha.
Mas entĂŁo percebeu outra coisa.
A floresta nĂŁo era normal.
As ĂĄrvores pareciam antigas demais.
Algumas tinham troncos tão largos que seriam necessårios vårios homens para abraçå-las.
Havia pequenas luzes azuis flutuando entre os galhos.
E, ao longe, ela ouviu ĂĄgua correndo.
Veyra caminhou naquela direção.
Depois de alguns minutos, encontrou um pequeno riacho.
A ĂĄgua era cristalina.
Ela se ajoelhou.
Bebeu um pouco.
â Pelo menos nĂŁo vou morrer de sede.
Sentou-se junto Ă margem.
O silĂȘncio era quase absoluto.
Sem vozes.
Sem mĂșsica.
Sem pessoas.
Veyra olhou para o reflexo na ĂĄgua.
Seu rosto parecia cansado.
â O que aconteceu comigo?
Ela tocou a superfĂcie.
O reflexo se distorceu.
Por um instante, nĂŁo viu seu prĂłprio rosto.
Viu uma criança.
Uma pequena sĂșcubo.
Veyra retirou a mĂŁo rapidamente.
O reflexo voltou ao normal.
Ela ficou imĂłvel.
â NĂŁo...
Aquilo estava acontecendo novamente.
As visÔes.
Veyra fechou os olhos.
â Eu preciso descobrir a verdade.
---
Algumas horas se passaram.
Veyra encontrou uma pequena clareira.
Havia uma pedra enorme no centro.
Ela decidiu descansar ali.
Acendeu uma pequena chama usando magia.
Sentou-se diante dela.
Por alguns minutos, ficou observando o fogo.
EntĂŁo ouviu um som.
Um galho quebrando.
Veyra levantou-se imediatamente.
â Quem estĂĄ aĂ?
Nada.
Ela concentrou energia nas mĂŁos.
â Eu sei que tem alguĂ©m.
SilĂȘncio.
EntĂŁo uma criatura pequena saiu de trĂĄs de uma ĂĄrvore.
Parecia uma espĂ©cie de raposa, mas possuĂa pequenas asas transparentes.
Veyra abaixou lentamente as mĂŁos.
â Ah...
A criatura olhou para ela.
Veyra sorriu.
â VocĂȘ me assustou.
A pequena criatura aproximou-se.
Veyra estendeu a mĂŁo.
Ela cheirou seus dedos.
Depois encostou o focinho.
â VocĂȘ estĂĄ sozinha tambĂ©m?
A criatura sentou-se.
Veyra riu.
â Acho que estamos iguais.
A pequena criatura ficou perto dela.
Por alguns minutos, Veyra sentiu uma paz que nĂŁo experimentava havia muito tempo.
Até que uma voz surgiu dentro da floresta.
â VocĂȘ nĂŁo deveria ter vindo aqui.
Veyra levantou-se.
A criatura correu para dentro das ĂĄrvores.
â Quem estĂĄ aĂ?
Uma mulher apareceu entre os troncos.
Era uma elfa.
Muito velha.
Cabelos completamente brancos.
Olhos dourados.
Vestia roupas simples feitas de folhas e tecido.
Veyra imediatamente ficou alerta.
â Quem Ă© vocĂȘ?
A elfa olhou para ela.
E seu rosto mudou completamente.
â NĂŁo...
Veyra franziu a testa.
â O quĂȘ?
A mulher aproximou-se lentamente.
â Ă vocĂȘ.
â VocĂȘ me conhece?
A elfa nĂŁo respondeu.
Apenas continuou olhando.
â Eu pensei que nunca voltaria.
Veyra sentiu um arrepio.
â Voltaria?
â Esta floresta conheceu vocĂȘ antes mesmo de vocĂȘ conhecer a si mesma.
Veyra ficou imĂłvel.
â Eu nunca estive aqui.
A elfa sorriu tristemente.
â VocĂȘ nĂŁo se lembra.
â De quĂȘ?
A mulher apontou para o chĂŁo.
â Venha.
Veyra hesitou.
Mas a curiosidade venceu.
Seguiu a elfa por uma trilha estreita.
Depois de alguns minutos, chegaram diante de uma ĂĄrvore gigantesca.
No tronco havia sĂmbolos.
Veyra reconheceu um deles.
Era o mesmo sĂmbolo que havia visto na visĂŁo.
â Esse sĂmbolo...
A elfa tocou nele.
â Foi marcado quando vocĂȘ nasceu.
Veyra ficou sem respirar.
â Eu nasci aqui?
â NĂŁo.
â EntĂŁo por que meu sĂmbolo estĂĄ aqui?
A elfa olhou diretamente para ela.
â Porque sua mĂŁe esteve aqui.
Veyra congelou.
â Minha mĂŁe?
Aquela palavra parecia estranha.
Ela quase nunca havia pensado nela.
NĂŁo conhecia quase nada sobre sua origem.
â O que aconteceu com ela?
A elfa ficou em silĂȘncio.
â Ela veio atĂ© esta floresta quando estava grĂĄvida.
Veyra sentiu o coração acelerar.
â GrĂĄvida de mim?
â Sim.
â Por quĂȘ?
A elfa olhou para o céu.
â Porque ela sabia que estavam procurando por vocĂȘ antes mesmo de vocĂȘ nascer.
Veyra sentiu a energia dentro dela despertar.
â Quem?
A mulher respondeu:
â Os mesmos que estĂŁo procurando por vocĂȘ agora.
Veyra deu um passo para trĂĄs.
â Os GuardiĂ”es do Primeiro Sangue.
A elfa assentiu.
â Sim.
Veyra fechou os olhos.
Tudo estava começando a se encaixar.
Sua mĂŁe.
A floresta.
O sĂmbolo.
Seu poder.
Kaelen.
Os GuardiÔes.
Mas ainda faltava uma peça.
â Onde estĂĄ minha mĂŁe?
A expressĂŁo da elfa ficou triste.
â Ela nĂŁo estĂĄ mais aqui.
Veyra ficou em silĂȘncio.
â Ela morreu?
A mulher nĂŁo respondeu diretamente.
â Ela entregou tudo o que tinha para garantir que vocĂȘ sobrevivesse.
Uma lĂĄgrima apareceu nos olhos de Veyra.
â EntĂŁo ela me abandonou?
â NĂŁo.
A elfa aproximou-se.
â Ela fez o contrĂĄrio.
Veyra levantou os olhos.
â Ela escondeu vocĂȘ do mundo.
A energia ao redor de Veyra começou a crescer.
As ĂĄrvores estremeceram.
A elfa olhou para ela com preocupação.
â Controle-se.
Veyra respirou fundo.
â Estou tentando.
â NĂŁo lute contra o poder.
â EntĂŁo o que faço?
â Escute-o.
Veyra fechou os olhos.
E, pela primeira vez...
nĂŁo tentou controlar a energia.
Apenas ouviu.
Um som distante surgiu em sua mente.
Como uma voz.
Uma voz feminina.
"Veyra..."
Ela abriu os olhos.
â MĂŁe?
A floresta inteira ficou em silĂȘncio.
EntĂŁo uma luz dourada surgiu no centro da clareira.
A elfa deu um passo para trĂĄs.
â Finalmente...
Veyra olhou para a luz.
E percebeu que havia uma silhueta dentro dela.
Uma mulher.
A mesma mulher que aparecera em suas visÔes.
Veyra ficou imĂłvel.
â Quem Ă© vocĂȘ?
A silhueta levantou a cabeça.
E respondeu:
â Sou aquela que deu a vida para que vocĂȘ pudesse ter uma.
Veyra sentiu as pernas enfraquecerem.
â MĂŁe...
Mas antes que pudesse se aproximar...
uma explosĂŁo de energia atravessou a floresta.
A elfa virou-se imediatamente.
â Eles chegaram.
Veyra olhou para o céu.
Entre as ĂĄrvores, vĂĄrias luzes surgiram.
NĂŁo eram estrelas.
Eram tochas.
Muitas.
Homens estavam entrando na floresta.
A elfa agarrou o braço de Veyra.
â VocĂȘ precisa ir.
â NĂŁo!
Veyra olhou para a silhueta.
â Eu preciso saber quem ela Ă©!
â VocĂȘ saberĂĄ.
â Quando?
A elfa apontou para o céu.
â Quando aprender a controlar aquilo que nasceu dentro de vocĂȘ.
Veyra fechou os punhos.
As luzes estavam cada vez mais prĂłximas.
E entĂŁo uma voz ecoou pela floresta:
â Veyra!
Ela reconheceu imediatamente.
Kaelen.
Ele havia encontrado seu rastro.
Mas outra voz respondeu de longe:
â NĂŁo deixem o Ser Supremo chegar atĂ© ela!
Veyra olhou para a floresta.
Agora havia dois grupos procurando por ela.
Kaelen.
E os GuardiÔes.
E, pela primeira vez, Veyra percebeu que fugir nĂŁo resolveria mais nada.
Ela olhou para as prĂłprias mĂŁos.
A energia dourada começou a crescer.
â EntĂŁo venham.
A floresta inteira respondeu com um estrondo.
E Veyra deixou de fugir.