ALANA CLIVE
Eu tenho que pensar bem antes de fazer qualquer coisa precipitada. E falo com relação a mim.
A minha vontade imediata, era pegar toda aquela porcaria ali e rasgär e jogar no lixo. Sem pensar duas vezes. Mas, fazendo isso, eu iria dar motivos de fofocas na empresa e não quero. Mas, eu não duvido de que já estejam falando. Eu saí de lá sem dizer nada sobre aquilo e nem mostrei felicidade.
Drogä!
São detalhes tão chatos.
O meu celular começa a tocar aqui e eu vejo um número desconhecido na tela. Eu nem preciso pensar. Com certeza é Daniel atrás de mim já que lhe bloqueei em tudo. Eu nem quero olhar para a cara dele, eu tenho certeza de que, só de olhar, eu vou vomitar. Estou com nojö supremo de tudo que eu vi. Nojö ainda parece pouco.
Tem alguma palavra de repúdio mais forte que essa? Não lembro.
Eu tomo um gole de café aqui na copa do andar e respiro fundo. Eu tento manter a calma e a postura, porque eu não quero transparecer nada.
— Oi, gata... tudo bem? — Cherry aparece. — Você parece bem... cabisbaixa hoje.
— Não, é só... dor de cabeça. Eu não tomei a minha melatonina e dormi muito mäl! — Dou uma desculpa. — E... Daniel me deu um susto grande. Ele esqueceu o celular no trabalho, eu liguei e ele não atendeu, mas ele apareceu lá em casa e o susto foi grande... pensei que tinha acontecido alguma coisa e a gente teve uma pequena discussão.
— Nossa! Se uma pequena discussão faz ele te dar aquilo tudo, eu nem imagino se ocorrer uma grande. — Eu forço um sorriso. — Mas... fica bem. O dia hoje está bem calmo...
Pelo menos isso!
Cherry também aproveita um cafezinho e eu fico aqui na minha sem dizer mais nada. Mas, ela não para de falar. Ela até que é uma pessoa legal. É extremamente positiva, está sendo andando pelos cantos e falando com tudo mundo e ajuda no que pode. Mas, tem dias que essa animação toda me irrita. E hoje é um desses dias.
Voltando para a minha pequena salinha, eu vou recolhendo tudo dessa bagunça aqui e vou deixando num canto. O meu intuito é de colocar onde fique bem longe da minha vista. Outra vez, eu começo a receber ligações e tem uma notificação da câmera da minha casa. Daniel estava lá bem cedo hoje e outra vez, deu a volta e bateu na porta e janelas.
“Alana, por favor, me atende...”
Eu disse que o número é dele. Já tenho que trocar o meu.
“Amor, me ouve... me deixa explicar. Eu posso te contar tudo. ”
“A gente tem que conversar! Eu te amo, meu amor.”
"Amor, aquilo ontem foi um mäl entendido. A gente não pode acabar assim, vamos nos casar, lembra? Eu te amo e jamais faria algo para te magoar assim. Só, me deixa explicar tudo! Eu não posso te perder e quero consertar tudo. Só, me atende e me ouve. Por favor!"
Já faço o bloqueio desse número também e silencio o meu celular, o deixando dentro da gaveta. Não vou pegar nele tão cedo e vou usar o corporativo. Eu quero passar o dia todo focada no trabalho e quero esquecer que Daniel existe. Bem aqui, eu vou fazendo os meus logins nos programas e vou começando o meu dia. O bom de ser do setor de marketing, é que o nosso setor é o mais descontraído. Eu posso trabalhar usando os meus fones aqui no canto e não há problema algum.
Eu começo aqui com os detalhes dos próximos eventos de lançamentos que virão nas próximas semanas e vou fazendo alguns contatos. Eu demoro a focar 100%, mas quando começo de verdade, eu não lembro nem da minha fome. Felizmente, houve um atraso de uma das campanhas e isso por parte da gráfica. Então, eu vou focar em outros pontos.
O meu chefe passa no setor para dar uns avisos importantes sobre as próximas semanas e ele fala de uma festa de adaptação literária. É uma campanha da editora em parceria com alguns autores veteranos e novos para expandir uma prévia dos próximos lançamentos.
— Será uma festa grande e já temos vários patrocinadores confirmados... nós queremos algo grande e a minha equipe de marketing deverá estar em peso para a preparação do material... — Ele vai dando mais detalhes.
Pelo jeito que ele fala, a festa será logo e a preparação será às pressas.
Ele avisa que ainda hoje receberemos um e-mail com mais detalhes e eu marco a data na minha agenda. Com certeza, eu terei que trabalhar como uma louca de hoje em diante com mais essa. O boato da tal festa era algo que rolava há semanas, mas a confirmação não tinha.
Depois dos avisos, logo chega a hora do almoço e eu pego a minha bolsa. Eu adoro comer num restaurante aqui perto. A comida é ótima e eu gosto de algo reforçado. No normal, as pessoas fazem mais um lanche, mas a minha mãe me acostumou com comida mais forte. Uma carne, um frango, um acompanhamento adequado e tudo mais. Me dá mais saciedade do que um lanche.
Eu vou saindo do prédio no meu horário de sempre e chego na calçada para atravessar no sinal. Assim que chego ao outro lado, eu sou surpreendida por quem eu não queria ver. E a audácia dele, é ainda me tocar pelo braço.
— Alana, vamos conversar... me deixa explicar, amor... — Não acredito nisso.
— Explicar? Não tem o que explicar... eu sei o que eu vi. Me deixa em paz! — E não, ele não deixa e vem bem para a minha frente.
— Espera, calma... — Ele me puxa pelo braço. — Foi só... foi a porrä de uma aposta. E-eu não sabia que seria daquele jeito.
— Aposta? Você acha que eu sou idiotä? — Eu sorrio incrédula. — Já vejo aqui que você sempre me achou uma otäria, uma imbëcil e uma burra para chegar a dizer isso para mim... eu já falei, me esquece. — A minha mão está coçando para bater nele.
— Não, espera... — Ele tem a audácia de me pegar pelo braço.
— É melhor me soltar... — Ele ainda insiste.
— Algum problema aqui? — Um policial local aparece bem na hora. — Precisa de ajuda, senhorita?
— Ele está me incomodando. — Eu não penso duas vezes em falar e Daniel me olha assustado. — E eu acho melhor você não bater na minha porta.
— Não, espera... é só um mäl entendido. Ela é minha noiva, policial... — O nervosismo dele é nítido.
— Ex-noiva... não sou mais nada sua. Com licença! — Eu saio em seguida e entro no restaurante.
Assim que eu entro no restaurante, sinto minhas mãos tremerem. Que ódio, que nojo, que decepção! Eu m*l consigo respirar direito, pareço estar sufocando com tudo isso.
Pego uma mesa mais afastada, justamente para não correr o risco de encontrar mais ninguém. Eu só quero almoçar em paz e tentar, nem que seja por meia hora, esquecer que aquele idiotä existe.
Respiro fundo, fecho os olhos por alguns segundos e tento me concentrar no cheiro da comida, nas vozes baixas ao redor, no barulho dos talheres. Eu preciso me acalmar.
O garçom de sempre se aproxima com um sorriso simpático.
— Vai querer o de sempre, senhorita? — Eu aceno.
— Sim... — Respondo, forçando um sorriso fraco. — E, por favor, um refrigerante diet com bastante gelo.
Ele anota e se afasta.
Pego meu celular, mesmo bloqueando tudo dele, e olho, por reflexo, se tem alguma mensagem. E, claro, mais um número desconhecido tentando me ligar. Já penso que terei que bloquear mais durante o dia. Saindo daqui, eu vou comprar um novo.
De repente, vejo uma notificação no e-mail corporativo. Ao abrir, é sobre a tal festa que o meu chefe mencionou.
“Evento confirmado. Festa de Lançamento das Adaptações Literárias.”
Logo abaixo tem o endereço, a data, horário e a exigência de todo departamento de marketing. E claro, tem a lista dos patrocinadores oficiais do evento.
Ótimo! Era exatamente o que eu precisava. Uma desculpa perfeita para ocupar minha cabeça e me jogar no trabalho.
E é isso que eu vou fazer!