ALANA CLIVE
O vídeo em si já foi rüim e eu senti que precisava ver mais. Por isso, eu comecei a me arrumar para sair e mesmo me tremendo toda e chorando a cada movimento, eu coloquei uma roupa melhor e prendi os cabelos. A roupa é apenas uma calça jeans e uma blusa preta básica.
Eu fechei tudo em casa e nesse momento, eu entro no carro para sair. Mas, antes de dar a partida, eu respiro fundo e tento ter controle de mim. Não é fácil. A imagem do Daniel bebendo, com a mão na cintura de uma mulher morena e outra loira bem na frente dele lhe beijando no pescoço não sai da minha cabeça.
É sério mesmo que ele é capaz de fazer isso comigo? Por quê?
A pessoa que enviou as mensagens não mandou mais nada, mas eu ligo o carro e coloco o endereço no meu GPS. O local é quase saindo da cidade e vai ser quase uma hora de percurso. Mas, eu vou mesmo assim. Eu saio da minha garagem, ligo o sistema de segurança da casa pelo controle e saio pisando fundo.
Mesmo nervosa, eu já parei com o choro e tento com todas as forças me manter calma.
Eu estou arrasada. Ele nunca se mostrou ser esse tipo de pessoa e já tivemos uns problemas, mas nunca que eu cogitei algo desse tamanho. É traição! Nós sempre conversamos, sempre nos entendemos e ele é sempre tão próximo e atencioso que não tinha como eu cogitar.
— Drogä...
Daniel sabe suprir bem a questão de dar atenção, de ser carinhoso e eu nunca me senti dentro de um joguinho em que ele age de um jeito e depois de outro do nada. Ele sempre foi direto e claro com as coisas e é por isso que estou em choque.
Enquanto eu dirijo, eu penso em todo o processo que fizemos para chegar aqui. Ele nunca me deixou confusa, com aquela sensação de que ele não sabe o que quer ou que queria brincar com os meus sentimentos. É por isso e mais que a minha cabeça está girando sem parar.
Eu fico aliviada de o percurso está tranquilo a essas horas. Tem movimento, mas não é como um pico de fim da tarde que muitos estão saindo do trabalho e por isso, eu posso acelerar.
Como pode, em? Ele foi me vez e disse que iria trabalhar...
Eu já passei da metade do caminho e eu vou seguindo bem o GPS. Minutos depois, eu chego em frente a uma casa noturna de festa e o som de música alta dá para ouvir de longe. Tenho pena de quem mora aqui! Mas, assim que eu estaciono do outro lado da rua, eu penso num ponto importante.
Como eu vou entrar? Tem uma fila grande de espera e eu não comprei entrada nenhuma.
— E agora? Drogaaa... — Eu bato o pé olhando ao redor.
Mas, eu vejo uma luz no fim do túnel. O segurança da entrada é familiar e ao chegar mais perto, eu lembro dele. Nós estudamos juntos no ensino médio e torço para que ele lembre de mim. Eu lembro perfeitamente que passei cola para ele na prova de matemática e isso lhe deixou um belo B+ e isso lhe permitiu passar sem problemas.
Por favor, ele tem que lembrar. Mas, como é o nome dele?
Travis? Denis? Rick?
— Pensa, Alana... — Eu começo a me lembrar da chamada. — Ah, é Félix!
Eu respiro fundo e crio coragem de ir. Assim que eu me aproximo, ele me olha franzindo a testa e acho que me reconheceu. Ele está mais alto do que eu me lembrava e não é atoa que é segurança. Além de enorme, ele é bem forte.
— Ingresso... — Ele pede me encarando.
— Oi, é... Félix, não é? — Ele acena. — É... e-eu não quero participar da festa, eu só... e-eu preciso ver o meu... — Eu sinto um amargo na boca. — O meu noivo está aí e eu vim tirar uma prova. —
— Desculpa, gata... eu preciso do ingresso. — Ele aponta discretamente para cima. — Tem câmeras aqui na entrada e eu posso me ferrar. — Ah, drogä. Mais essa ainda. — Alana, não é? — Eu confirmo.
— Não tem como me ajudar em nada? E-eu juro que só vou ver uma coisa e vou embora... apenas isso. — Ele fica pensando. — Quanto é a entrada?
— É vendido antecipadamente... já esgotou! — Essa noite está de brincadeira com a minha cara.
Eu me afasto um pouco e começo a pensar. Félix me olha vez e outra e eu poderia mesmo insistir e usar o favor que ele me deve, mas não quero causar problemas. De repente, ele começa a tossir e parece bem exagerado. Ao olhar bem para ele, o seu olhar vai para um lado, como um sinal para eu ver alguma coisa e tem mesmo. Há um ingresso de entrada jogado no chão e pelo jeito, foi ele.
Disfarçadamente, eu pego o bilhete e ele faz uma piscadela pra mim e assim, eu uso para entrar.
— Obrigada!
— Aproveita, gata... — Ele pede o meu braço e ele carimba um desenho roxo. — Acesso vip... espero que dê certo. Já paguei o meu favor.
É, ele lembrou!
Ainda bem!
Ao chegar no salão, eu fico chocada com a quantidade de pessoas dançando e bebendo. É uma dificuldade enorme para andar aqui e eu não vejo mais ninguém conhecido.
A cada passo que eu dou, parece que o meu coração acelera ainda mais. A música alta, as luzes piscando e esse cheiro de bebida misturado com perfume forte me deixa enjoada. Tento olhar para todos os lados à procura dele, mas é difícil com tanta gente se esbarrando, pulando, se agarrando e rindo alto.
Eu odeio isso. Sério, não nasci para frequentar lugares assim.
É sério que ele está por aqui?
Eu respiro fundo, enxugo a palma das mãos nas pernas e sigo, desviando de grupos que dançam e de casais que quase se devoram no meio da pista. Subo as escadas que levam para o andar superior onde fica a área VIP. O segurança olha meu carimbo e me libera sem problemas.
O espaço aqui é bem mais tranquilo, se é que posso chamar isso de tranquilo. A música ainda estoura nos meus ouvidos, mas aqui tem menos gente circulando.
Olho para os lados, caminhando devagar e sem querer chamar atenção. A área é enorme, cheia de mesas, sofás, poltronas e gente rindo, bebendo e... se agarrando. E isso, na frente de qualquer um. Que nojö! Eu caminho sem pressa, tentando não demonstrar o quanto estou tremendo por dentro. Meu olhar varre cada canto, cada mesa, cada grupo. Meu estômago revira, e uma parte de mim torce para não encontrar nada, para ser algum m*l-entendido e uma brincadeira de mäl gosto.
Mas, então eu o vejo.
O meu corpo inteiro congela e eu nem consigo piscar os olhos.
Lá no canto, numa área mais isolada e quase escondida, está Daniel. O meu noivo.
O homem que me pediu em casamento!
Ele está sentado em um dos sofás de couro, sorrindo e completamente à vontade, como se fosse o rei do mundo. Uma morena deslumbrante está de pé, de costas pra mim, com a mão na nuca dele e a boca colada no pescoço dele. Lhe beijando! Uma loira sentada no colo dele beija a sua boca, sem a menor cerimônia e enquanto a terceira, é também outra loira, e ela está ajoelhada na frente dele, com as mãos subindo perigosamente pela calça social dele, alisando, apertando...
Meu Deus, eu não consigo nem descrever o que ela tá fazendo e ele ainda está agarrado ao seiö da que lhe beija na boca. É uma nojeira! Como que ele tem a capacidade de chegar a esse ponto. Três mulheres? Como pode?
Além da traição, é uma enorme humilhação que nem dá para descrever.
Os meus olhos ardem, mas eu engulo o choro. Não vou chorar bem aqui! O meu corpo inteiro treme, mas eu não deixo que ele perceba. Não. Eu não sou fraca. Eu não vou desabar na frente dele e por um minuto, eu pego o meu celular e gravo o momento.
— Filho da... — Estou sentindo o meu sangue ferver.
Depois de gravar, eu ligo para ele e nada. Ele nem se mexe e nem pega o celular.
Sem pensar, sem planejar, eu caminho firme, atravessando o espaço e ele não me vê ainda. Está ocupado demais... se divertindo.
— Daniel! — Eu paro bem aqui em frente.
Ele abre os olhos instantaneamente. O seu corpo inteiro endurece e a loira no colo se afasta assustada. A morena se vira surpresa, e a outra, ajoelhada, recua como se tivesse levado um choque.
— A-Alana? — Ele gagueja, empalidecendo. — O q-que você está fazendo aqui? Como que... chegou?
— O que eu estou fazendo aqui?! — Dou uma risada seca e sarcástica. — Sério que você vai me perguntar isso? — Me aproximo até ficar cara a cara com ele. — Então é isso que você faz quando diz que vai trabalhar? É desse jeito que diz que quer se casar comigo?
Ele se levanta rapidamente, como se tentasse se justificar, ajeitando a camisa desabotoada e empurrando as garotas de lado.
— Alana, calma... não é o que você tá pensando... — Não creio que ele disse isso.
— NÃO É O QUE EU ESTOU PENSANDO? — Grito enfurecida. — Você é patético... fica bem longe de mim. Finge que não me conhece.
— Ei, espera... deixa... — Ele tenta segurar o meu braço, mas eu puxo com força e, sem pensar duas vezes, a minha mão voa no rosto dele.
Um estalo alto, seco, ecoa ali. As pessoas em volta, que antes nem olhavam, agora param, cochicham, apontam.
Daniel leva a mão à bochecha, chocado.
— Isso é pra você aprender a nunca mais brincar com alguém. — A minha voz sai firme, ainda que meu coração esteja despedaçado. — E escuta bem o que eu vou te dizer, Daniel... — Aponto o dedo no peito dele, empurrando. — Eu não quero nunca mais te ver na minha vida. Você morreu pra mim. Morreu! — Com essas palavras, eu retiro a aliança do meu dedo e jogo contra ele.
Viro as costas, sentindo as lágrimas quererem cair de vez, mas eu me recuso. Eu não vou me rebaixar bem aqui. Eu ando o mais rápido que posso, descendo as escadas, empurrando quem aparece na frente e nem ligo mais para alguma coisa.
— Alana, espera... amor, me espera... por favor... — Ouço ele gritar atrás de mim, mas não paro. Nunca mais.
Ao sair da boate, eu passo pelo Félix e faço só um aceno e sussurro um obrigada. Sinto o ar gelado da madrugada bater no meu rosto. A minha respiração está acelerada, meu peito dói, meu corpo inteiro treme, mas eu sigo. Eu entro no carro, bato a porta com força, e nesse momento, as lágrimas que eu segurei despencam.
Meus dedos apertam o volante com tanta força que doem.
— Acabou... acabou... — Sussurro pra mim mesma, enquanto ligo o carro.
Acabou.
E agora... eu preciso decidir o que fazer com o que sobrou de mim.