2x=9x²-4.x³+10
Nunca pensei que falaria tal coisa, mas, eu juro que preferia estar tentando resolver algum tipo de expressão algébrica repugnante. Esse é aquele tipo de momento que você pensa em tudo, e, ao mesmo tempo, em nada. Imaginei-me em uma ligação de despedida. Iria parar na caixa postal, obviamente. Mas não poderia deixar de dar um último e duro adeus a minha mãe. Oi, mãe. Eu te amo, antes de tudo. Cuide de Summer, e do papai também. É... eu não sei o que dizer, não imaginava ir embora tão cedo. Desculpe se não fui o filho que você sempre sonhou. Muito obrigado por tudo. Bem, Acho que é isso.
-E agora? -Paul silvou, atônito.
O mundo pareceu não girar mais. Ele estava apenas ali, e, nós nele, apenas existindo. Meus pensamentos vagavam em torno da cabine, minhas mãos tremiam. Paul estava paralisado. Observar os segundos passarem vagarosamente em minha frente me fez estremecer. Um pequena contagem de poucos minutos que mataria centenas de pessoas.
-Ligamos para polícia? -perguntei, retoricamente.
911.
Boa noite. Meu nome é Hector Mitchell.
Você precisa da polícia, bombeiro ou ambulância?
Polícia.
O que está acontecendo?
Há uma bomba aqui na avenida 608. Dentro do Amnesia NYC.
Quantos anos você tem?
Isso importa?
Não deveria estar em uma boate.
Minha voz parece de criança, Paul?
Desculpe?
Nada.
A polícia está a caminho.
Okay.
Hector Mitchell?
Isso.
-Temos oito minutos. -Paul disse. -E você tem uma voz de criancinha, sim.
-Idiota.-resmunguei.
Saímos do banheiro rapidamente. Pessoas zuniam, estarrecidas. Todos corriam em direção a saída, mas, provavelmente haviam alguns parceiros do bandido por lá, impedindo que todos saíssem. Annie apareceu em minha frente segundos depois.
-Onde está Sophie? -ela perguntou, preocupada.
-Pensei que estivesse com você. -retruquei.
-Eu a deixei com você, lembra?
-Eu tive que sair. Disse para ela encontrar você.
-Teve que sair? Você ainda está bem aqui!
-Tem uma bomba no banheiro. Vai explodir em uns oito minutos, acho.
-p***a. -Annie chocou-se. -Mas eu pedi para que cuidasse dela por mim.
-Temos que achá-la. -disse, balançando a cabeça em negativo.
-Eu vou procurar uma saída. -Paul disse.
-Já veio aqui antes? -Annie perguntou.
-Algumas vezes. Acho que conheço uma. -ele respondeu.
-Vamos. -disse para Annie.
Nos separamos neste instante. Um tiro soou por toda a boate. Abaixei rapidamente, em um reflexo. Olhei para trás, e o bandido trajando o uniforme da Amnesia NYC portava uma arma, apontando-a para todos.
-Procurou no banheiro? -perguntei.
-Sim. Tem uma bomba no banheiro masculino?
-É. Bem presa, na última cabine.
Demos uma volta no segundo andar, pessoas caminhavam em direção a escada. Desviamos de todos, indo em direção contrária. O barman deixou um copo de vidro cair, praguejando-o logo em seguida.
-Cara, tem uma bomba no banheiro masculino. Essa boate tem outra saída, além da principal?
-Bomba? -ele perguntou, em um fio de voz.
-É. Temos apenas sete minutos, não sei.
Ele olhou para Annie, e, em seguida, para mim novamente. Sem saber como reagir, o homem simplesmente saiu dali, correndo, em desespero.
-Ótimo. -resmunguei.
-É ela! -Annie exclamou.
Ela atendeu o celular e falou rapidamente com Sophie. Tínhamos poucos minutos. Corremos através da multidão, gritando, descontroladamente, pedindo para que todos saíssem da boate. Muitos olharam como se fossemos loucos. Outros ficaram tão desesperados quanto nós e continuavam a correr. Sophie estava no fim da escada, à nossa espera.
-E o seu amigo? -Sophie perguntou assim que chegamos.
-Ele foi procurar uma saída.
-Já acharam. Todos estão indo para os fundos. Parece que sai em um beco.
-Por que ainda estamos parados? -Annie nos puxou. -Meu Deus!
-E Paul? -lamentei.
-Seu amigo esperto já deve ter saído. -Annie falou, segura.
Pude sentir ironia em sua voz. Corremos juntos com a multidão em direção a uma saída lateral e estreita da boate. Mais dois tiros soaram por todo o recinto. Pisquei duas vezes instantaneamente. Estávamos muito próximos à saída. A porta ainda estava aberta.
-Ninguém sai! - o homem armado trajando o uniforme do Amnesia NYC falou.
-Ele roubou o uniforme do funcionário que está morto perto do barman.
-Você viu?
-Trouxeram ele para fora. Ele estava lá dentro, nas salas dos funcionários. Quase nu.
-m***a.
-O cara morreu. -Annie lamentou.
Todos estava assustados. O bandido, naquele momento, correu em nossa direção. Ele iria travar a saída, provavelmente. Haviam mais dos seus parceiros espalhados por toda a boate. Provavelmente, um deles estava mantendo o dono da boate como refém. Empurramos com todas as forças as pessoas a nossa frente. Sophie segurava as minhas mãos, calorosa. E, nós, conseguimos finalmente passar pela porta. Mais algumas vinte pessoas, aproximadamente, também conseguiram passar. Pude observar por milissegundos a porta se fechando atrás de nós. As pessoas que ficaram lá dentro gritaram, desesperadas. Mais um tiro foi disparado.
-d***a! -uma adolescente de cabelos verdes disse ao meu lado. -A minha irmã está lá.
Ela digitava em seu celular, tentando ligar pra a irmã, provavelmente. Balancei a cabeça em negativo, tentando não pensar na possibilidade de Paul estar lá. Faltavam três minutos e meio. A polícia e suas sirenes finalmente haviam chegado, porém tarde demais. O beco era estreito e escuro. Todos os fugitivos correram até o fim. Annie, Sophie e eu ficamos por último. A garota do cabelo verde estava um pouco a frente, ainda frustrada. Na metade do caminho, havia um homem infectado. Ele estava no chão, sangrando em demasia. Seus olhos ainda demonstravam vida. Nós paramos em volta dele. Trocamos olhares nervosos.
-Harryson! -o infectado sussurrou, nos dando um grande susto, calafrios.
-Quem é Harryson?
-É o dono da NYC. -Annie disse.
-A culpa é dele! -o infectado resmungou, com dificuldades para respirar.
-Precisamos ir embora. -Sophie disse.
-Não! -o homem, em um rápido impulso, levantou-se pela metade. Annie gritou.
Sophie pegou em minha mão esquerda e puxou-me. Corremos em direção ao carro de Annie. Eu não conseguia parar de pensar em como me sentiria culpado se Paul morresse dentro daquele lugar. Entramos no carro. Annie respirou por um momento antes dar partida. Tudo parecia estar resolvido. Eu estava vivo. Tudo terminara bem, por sorte. Era o final perfeito. Mas eu não o aceitei.
-Paul está lá dentro. -resmunguei. -Eu não posso. -disse, abrindo aporta do carro.
-Você enlouqueceu? -Sophie gritou, apavorada.
-Eu não posso deixá-lo. Não assim. -disse, já fora do carro. As sirenes policiais gritavam.
-Precisamos sair daqui agora, se quisermos continuar com vida.
-Eu não deveria ter o deixado sozinho, Soph. Eu preciso salvá-lo.
-Hector!-ela vociferou. Seus olhos cresceram milagrosamente por alguns segundos.
-Prometo voltar. -falei, sem acreditar no que dizia.
-Precisamos ir agora! -Annie gritou do volante.
-Vá!-disse para Sophie, empurrando-a para o carro.
Virei-me e fui na direção contrária com toda a força. Passei como um vulto pela menina dos cabelos verdes que ainda não saíra de lá. Enquanto passava por aquele estreito caminho, lembrei de minha última explosão ao ar livre. Aquela não foi a última, e essa também não seria.Lembrei-me também de alguns momentos marcantes de minha amizade com Paul. Quando eu estava a poucos passos da porta, tudo estava acabado. O que consigo me lembrar é de apenas uma grande e espantosa luz. A partir dali, minha alma se esvaeceu. O grande ruído estrondoso deixou todo o lugar em ruínas. Era o fim. Talvez ele tivesse razão. Eu era lento demais. Como uma tartaruga. d***a, Paul.
Droga.