Capítulo 6

1041 Words
Lara tinha retornado para casa tarde da noite, mas olhar para aquele lugar lhe trazia grande dor, coisas que ela não desejava invadiam a sua mente enquanto ela caminhava em direção ao jardim dos fundos. Aquelas memorias que ela sempre se recusava a visitar, mas que insistia em se infiltrar em sua mente contaminando tudo. Ela conseguia ouvir, o som contínuo dos aparelhos que preenchia o quarto do hospital, interrompido apenas pelo fraco respirar de Helena Sánchez. A mulher que um dia fora conhecida pela elegância e imponência agora parecia pequena sobre os lençóis brancos. O câncer havia consumido o seu corpo aos poucos, levando os seus cabelos, seu vigor e parte de sua voz, mas jamais sua dignidade. Ao lado da cama, Lorenzo Sánchez mantinha a postura firme que todos conheciam. Dono de uma das maiores empresas de Cia City ele tinha os olhos cansados. Naquele quarto, cercado pelo cheiro de medicamentos e pelo silêncio da morte que se aproximava, sentia-se completamente impotente, sua esposa estava morrendo e ele nada poderia fazer sobre aquilo. Sua mão apertava a da esposa enquanto tentava esconder as lágrimas que insistiam em surgir. — Ainda dá tempo... — murmurou ele, mais para si do que para ela. — Vamos procurar outro tratamento. Eu compro qualquer hospital, qualquer médico... Helena sorriu com ternura. — Você sempre acha que pode resolver tudo com dinheiro ou poder. — E quase sempre consigo. Ela balançou a cabeça lentamente. — Mas não a morte. Lorenzo fechou os olhos por um instante, incapaz de responder. Uma pequena batida na porta chamou a sua atenção. — Papai... A voz infantil fez Helena sorrir imediatamente. — Pode entrar, meu amor. Lara entrou segurando com força um ursinho de pelúcia já bastante gasto pelo tempo. Tinha apenas doze anos, os cabelos castanhos ondulados caindo pelas costas e os grandes olhos verde-esmeralda marejados de preocupação. Ela odiava hospitais. O cheiro. As paredes brancas. Os médicos sempre falando baixo. Tudo aquilo lhe dava medo. Ainda assim, caminhou até a cama da mãe. — Mamãe... Helena estendeu a mão magra. — Venha aqui. Lara aproximou-se devagar e segurou seus dedos. Estavam frios. Muito frios. — Você vai melhorar? A pergunta saiu quase como um sussurro. Helena fitou a filha por alguns segundos antes de responder. — Eu queria dizer que sim. O silêncio respondeu antes das palavras. Lara abaixou a cabeça. Ela já sabia. As crianças percebiam muito mais do que os adultos imaginavam. Helena acariciou delicadamente o seu rosto. — Olhe para mim. Lara obedeceu. — Existe uma coisa que preciso que você me prometa. — Qualquer coisa. — Nunca deixe ninguém controlar a sua vida. Viva para você, sem se prender a obrigações. Lara franziu a testa. — Nem o papai? Helena olhou para Lorenzo e sorriu com carinho. — Nem ele. Lorenzo soltou uma pequena risada entre as lágrimas. — Isso foi um ataque pessoal. — Foi um aviso. Os três sorriram por alguns segundos. Talvez fosse a última vez. Helena voltou a sua atenção para a filha. — As pessoas sempre vão querer decidir quem você deve ser. Vão dizer como deve agir, com quem casar, o que vestir, o que sonhar... Sua respiração tornou-se pesada. — Prometa que nunca vai viver para realizar os sonhos de outra pessoa. Lara sentiu um nó na garganta. — Eu prometo. — Prometa que vai escolher o seu próprio caminho. — Eu prometo. — E que nunca deixará de ser você. As lágrimas escorriam livremente pelo rosto da menina. — Eu prometo, mamãe. Helena fechou os olhos por alguns segundos, como se finalmente encontrasse paz. Quando voltou a abri-los, procurou Lorenzo. — Amor... Ele imediatamente segurou a sua mão. — Estou aqui. — Cuide dela. A voz saiu quase inaudível. — Não deixe que o peso das responsabilidades destrua quem ela é. Lorenzo engoliu em seco. — Eu juro. — Ensine-a a ser forte... mas não tire dela a capacidade de amar. Ele abaixou a cabeça. Pela primeira vez em muitos anos, o grande Lorenzo Sánchez chorava sem tentar esconder. — Eu vou protegê-la com a minha vida. Helena sorriu. — Eu sei que vai. Ela voltou a olhar para Lara. — Você é a melhor parte de mim. A menina apertou a sua mão com força. — Eu te amo, mamãe. — Eu também te amo... Sua voz tornou-se quase um sopro. — Para sempre. Os aparelhos começaram a emitir um som diferente. Contínuo. Estridente. Os médicos entraram rapidamente no quarto. Uma enfermeira conduziu Lara para fora enquanto Lorenzo permanecia ao lado da esposa. — Não! Lara tentava voltar. — Mamãe! A porta se fechou. Ela ainda podia ouvir vozes. Ordens. Passos apressados. Depois... Silêncio. O funeral reuniu empresários, políticos e homens perigosos de diversas partes do país. Todos haviam vindo prestar respeito à esposa de Lorenzo Sánchez. As coroas de flores cobriam praticamente todo o salão. O cheiro de rosas misturava-se ao perfume caro dos convidados. Lorenzo permanecia imóvel diante do caixão. Os olhos vermelhos denunciavam uma dor que ninguém além dele saberia como é. Ao seu lado estava Lara. Vestida de preto. Os cabelos presos em um r**o de cavalo simples. As mãos pequenas seguravam firmemente a mão do pai. Ela não chorava. Não porque não estivesse sofrendo. Mas porque sentia que, se começasse, nunca mais conseguiria parar. Durante horas, recebeu abraços. Palavras vazias. Nada fazia sentido. Em determinado momento, um dos antigos aliados da família ajoelhou-se diante dela. — Sua mãe era uma grande mulher. Lara apenas fez um leve movimento de cabeça. Alguns cochicharam entre si. — Ela nem parece triste... — É muito nova para entender. Lorenzo ouviu os comentários. Olhou para a filha. Percebeu a força com que ela apertava a sua mão. Os nós de seus dedos estavam brancos. Ela estava segurando toda a dor dentro de si. Naquele instante, Lorenzo compreendeu que Helena tinha razão. A menina mudara. Uma parte de sua infância havia sido enterrada junto com a mãe. Quando o caixão começou a descer à sepultura, Lara apenas deu um passo à frente. Levou a mão ao peito, fechou os olhos por um breve momento e, em silêncio, repetiu a promessa que fizera horas antes. "Nunca vou deixar ninguém decidir quem eu devo ser."
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