Eu estava sozinha no escritório de Matteo, a luz suave do meio da manhã entrando pelas grandes janelas enquanto eu tentava me concentrar no relatório da minha chefe. Era um daqueles dias em que a cabeça não queria colaborar, e o clique do teclado parecia mais um som distante do que uma tarefa a ser cumprida. A cada linha que eu tentava escrever, minha mente voltava a passear pelos últimos dias, pela rotina que, mesmo estranha, tinha se formado aqui no apartamento.
Matteo havia saído cedo para uma reunião da empresa. Ele garantiu que voltaria logo, mas, como sempre, a promessa soava mais como um lembrete de que nada aqui duraria para sempre. Dois meses. Apenas dois meses. Eu não podia esquecer isso. Mesmo que os dias tivessem se passado sem grandes surpresas, a sensação de estar sendo cuidada, como se tudo tivesse voltado a fazer algum sentido, me fazia questionar o tempo que ainda tinha aqui.
Havia algo tranquilo e até reconfortante na nossa rotina. Matteo parecia estar sempre por perto, preocupado com cada detalhe. Quando cozinhava, ele me observava para garantir que eu não me esforçasse demais, me dizendo, mais de uma vez, para fazer as coisas devagar. Eu gostava disso. De como ele estava se importando. Mas sabia que isso não duraria.
Suspirei, tentando afastar os pensamentos enquanto olhava novamente para os relatórios. Não podia me perder nesse ciclo de incertezas. Tinha que manter o foco. Só que, antes que pudesse dar mais um passo no trabalho, meu celular vibrou, interrompendo a tentava de concentração. O nome de Matteo apareceu na tela, mas ao invés de atender, vi que era um e-mail da sua assistente.
Era sobre o seguro saúde.
Eu abri o e-mail rapidamente, e as palavras "ativo" me saltaram aos olhos. Fiquei parada por um momento, absorvendo o significado. O seguro estava finalmente ativo. Para mim, isso era mais do que apenas uma formalidade. Era um alívio, uma sensação de estabilidade que eu não sentia desde que descobri sobre a gravidez. Algo tão simples, mas tão vital, como saber que teria a cobertura necessária para cuidar de mim e do bebê.
Fiquei ali, por alguns segundos, apenas processando. Algo dentro de mim parecia respirar aliviado, como se uma pequena parte da minha ansiedade se esvaísse. Era como se, de alguma forma, as coisas começassem a se encaixar, ainda que eu soubesse que tudo isso ainda tinha um prazo de validade.
Olhei para o computador, os relatórios, a agenda que estava desordenada. Mas, por um momento, a pressão diminuiu. Eu me permiti respirar. Por um instante, o medo de não conseguir lidar com tudo pareceu menos insuportável. O futuro ainda era incerto, mas, pelo menos por agora, havia algo de estável, e talvez isso fosse o suficiente.
Suspirei fundo e voltei para o trabalho. Eu tinha dois meses. Mas, por enquanto, eu tinha também essa chance, essa segurança. E isso, por um tempo, era o que eu precisava.
Enquanto eu tentava me concentrar no trabalho, meu celular tocou novamente. O nome na tela me fez sorrir antes mesmo de atender. Amanda, minha única amiga de verdade na empresa. Ela era a única que sabia sobre a minha gravidez e sempre foi o apoio que eu nunca soube que precisava. Nos conhecemos em uma república em São Paulo, quando chjegamos na cidade e, desde então, passamos a nos proteger uma à outra, sempre com a certeza de que podíamos confiar uma na outra em qualquer situação.
Atendi o telefone com um sorriso tímido, que logo se desfez quando percebi o tom preocupado da voz dela.
— Stella, está tudo bem? Fiquei tentando te ligar e ninguém sabia o que tinha acontecido! — Amanda questionou, a preocupação evidente em suas palavras. — Como você está?
Respirei fundo e tentei organizar os pensamentos. Eu sabia que ela iria se preocupar, mas precisava contar tudo o que aconteceu, por mais difícil que fosse.
— Eu... eu tive um pequeno acidente. Não foi nada grave, mas houve um descolamento da placenta e a médica pediu repouso absoluto. Por isso, precisei me afastar da empresa — expliquei, tentando soar calma, embora minha voz traísse um pouco a tensão.
— Um acidente? — seu grito agudo quase me deixa surda. — Ah meu Deus, Stella, como?
Então confiando na minha única amiga eu conto a ela sobre tudo. Desde quanto Matteo e eu nos encontramos no elevador até o jantar e o fatidico acidente que me colocou onde estou. Amanda ouve tudo atentamente, emitindo apenas comentários surpresos a cada detalhe da bagunça que minha vida se tornou.
— Eu estou em repouso, e, por enquanto... estou morando com Matteo. Ele está me ajudando.
Amanda ficou em silêncio por um momento, processando a informação. Eu podia imaginar sua expressão chocada do outro lado da linha, as palavras dela ficando presas na garganta.
— O quê?! Você... você está morando com o Matteo? — ela disse, surpresa e, ao mesmo tempo, preocupada. — Mas Stella, o Matteo... você sabe como ele é, né? Ele é conhecido por ser super arrogante e tem um monte de namoradas. Não sei se isso é o melhor para você, ainda mais com tudo o que está acontecendo...
Eu respirei fundo antes de responder. Sabia que Amanda estava preocupada, mas não poderia deixá-la pensar que havia algo entre eu e Matteo.
— Eu sei o que ele é, Amanda. Mas, olha, a gente não está... Não é o que você está pensando. Somos só amigos, ok? Ele tem sido super atencioso comigo, me ajudando com o que eu preciso. Eu estou em segurança aqui, só isso. Nada de romance ou qualquer coisa do tipo.
Havia um silêncio do outro lado da linha enquanto Amanda provavelmente processava tudo o que eu estava dizendo.
— Eu sei, Stella, mas... mesmo assim, não gosto de você ficando sozinha com ele. Eu conheço o Matteo, e ele pode ser complicado. Você tem certeza de que está tudo bem? — ela insistiu.
Eu sorri um pouco, tentando aliviar a tensão da conversa.
— Eu estou bem. Você pode confiar em mim. E ele irá embora em dois meses e eu voltarei para a nossa rotina cansativa no meu apartamento minusculo.
Amanda parecia ainda não totalmente convencida, mas decidiu mudar de assunto, como se soubesse que eu não estava disposta a falar mais sobre isso.
— Ok, ok. Eu confio em você, só queria ter certeza de que está sendo bem cuidada. Mas você acha que... poderia me permitir visitá-la? Eu adoraria ir até aí e ver como você está.
Eu hesitei por um momento, pensando na melhor maneira de pedir permissão a Matteo para que Amanda viesse. Não queria que ele achasse que estava invadindo o espaço dele ou fazendo algo contra sua vontade.
— Eu vou perguntar ao Matteo. Não posso prometer nada ainda, mas vou ver o que ele diz — falei, ainda um pouco insegura. — Vou te avisar assim que souber.
Amanda, aparentemente satisfeita com a minha resposta, respirou aliviada.
— Certo. Eu só quero que você se recupere logo e que fique bem. Se precisar de qualquer coisa, já sabe. Me avisa, tá bom?
Eu sorri ao ouvir a preocupação na voz dela.
— Claro, eu te aviso. Obrigada, amiga.
Desliguei o telefone, sentindo o peso de toda a situação apertando o peito mais uma vez. Amanda estava certa em se preocupar, mas eu sabia que, por enquanto, tudo o que eu podia fazer era tentar lidar com isso da melhor forma possível. E, apesar de todas as dúvidas, Matteo tinha se mostrado uma presença positiva nos últimos dias. Eu só precisava confiar que tudo o que ele estava fazendo não passava de um gesto de amizade, e que não iria me complicar mais do que já estava.
Agora, o único desafio era pedir permissão para que Amanda viesse. E eu sabia que, se Matteo não estivesse de acordo, eu teria que buscar uma maneira de convencê-lo.