Capítulo 30: Stella Bianchi

1215 Words
A manhã estava ensolarada, mas o vento fresco de São Paulo ainda carregava aquele cheiro úmido de concreto molhado. Eu puxei a alça da bolsa mais para cima no ombro enquanto saía da clínica de fisioterapia, tentando ignorar a leve dor que insistia em latejar na base da minha coluna. Era uma daquelas coisas que eu tinha aprendido a conviver, mesmo sabendo que não deveria. O fisioterapeuta foi paciente, como sempre, me incentivando a continuar o tratamento com a mesma disciplina. Matteo insistia que eu tivesse o melhor atendimento, e, mesmo que isso fosse um alívio, eu ainda sentia um nó apertado no peito cada vez que pensava em quanto aquilo custava. Dinheiro nunca foi um assunto fácil para mim, especialmente depois de ver o que aconteceu com minha mãe. Dependência financeira significava abrir mão de escolhas, de liberdade. Significava que, em algum momento, você podia perder tudo. Matteo dizia que não era assim, que ele fazia porque queria, mas eu não podia evitar o peso da insegurança que vinha junto com sua generosidade. Hoje, pela primeira vez desde que ele me trouxe para cá, eu estava sozinha. Sem os olhos atentos dele, sem o peso da sua presença, que ao mesmo tempo me acalmava e me deixava inquieta. Decidi que faria algo para agradecê-lo. Ele merecia. Cozinhar. Era algo pequeno, mas pessoal. Algo que me fazia sentir útil, em controle de alguma coisa, mesmo que fosse apenas uma panela. Atravessei a rua em direção ao supermercado, já imaginando o que poderia fazer. Talvez um prato simples, mas cheio de sabor, como Matteo gostava. Quem sabe uma lasanha ou aquele risoto que ele comentou outro dia? Peguei um carrinho na entrada e comecei a empurrá-lo pelos corredores. O som das rodinhas no piso liso era um ruído constante, quase reconfortante, enquanto eu me concentrava na lista mental de ingredientes. Então eu ouvi. — Stella? O som da voz fez meu corpo congelar no mesmo instante. Meu coração disparou, e por um momento, tudo ao meu redor pareceu silenciar. Eu conhecia aquela voz. Lenta, hesitante, virei a cabeça em direção ao som, meus dedos apertando com força a alça do carrinho. Meu estômago revirou, e o ar pareceu escapar dos meus pulmões enquanto meus olhos encontravam a figura parada do outro lado do corredor. Ele estava lá. O homem que eu nunca mais pensei que veria. O pai do meu filho. Henrique abriu um sorrisso como se fosse um dos meus melhores amigos. Como se não tivesse me rejeitado há quase dois meses. O corredor pareceu se alongar entre nós, como se o espaço físico não fosse suficiente para a avalanche de emoções que me atingiu. Medo. Raiva. Culpa. Todos se misturaram, criando um turbilhão que me deixou momentaneamente sem reação. — Não acredito... é você mesmo. — A voz dele carregava surpresa, e talvez até uma sombra de algo que eu não conseguia identificar. Eu não consegui responder. Meu corpo estava rígido, minhas mãos tremendo enquanto ainda seguravam o carrinho. Por um instante, considerei simplesmente virar as costas e sair dali. Fingir que não ouvi, que não o vi. Mas era tarde demais. Ele já tinha me visto. Respirei fundo, tentando me recompor, mas o nó na minha garganta não cedia. — O que você está fazendo aqui? — Ele perguntou, dando um passo em minha direção. Eu queria responder com algo frio, algo que o afastasse, mas tudo que consegui foi manter meu olhar fixo nele. Minha mente estava um caos, e o som do meu coração batendo parecia ensurdecedor. O que ele queria? Por que estava aqui? E, acima de tudo... o que eu deveria fazer agora? Ele deu mais alguns passos na minha direção, e cada centímetro que nos separava parecia um fio esticado, prestes a romper. Meu corpo inteiro estava tenso, os dedos agarrando o carrinho com tanta força que as articulações doíam. — Stella... — Ele começou, a voz mais baixa agora, quase suave. Mas não havia nada de suave no homem à minha frente. Eu sabia disso melhor do que ninguém. — E o bebê? A pergunta foi como uma faca atravessando meu peito. Meu coração deu um salto, e minha cabeça começou a latejar, como se minha mente estivesse tentando processar o absurdo do que ele acabara de dizer. Meu corpo inteiro tremeu. O mundo ao meu redor parecia se estreitar, e tudo o que eu via era ele. Henrique. O homem que me destruiu de tantas maneiras que eu tinha perdido as contas. — Como... — Minha voz saiu baixa e rouca, mas logo se tornou mais firme, carregada de raiva. — Como você tem coragem de perguntar sobre o bebê? Ele parou, os olhos semicerrados, mas não disse nada. — Você o rejeitou, Henrique! — Continuei, minha voz agora mais alta, ecoando pelo corredor. Eu sabia que outras pessoas podiam ouvir, mas não me importei. — Depois de tudo o que fez comigo, depois de insunuarr que sou interesseira, de me ofender como uma p**a, como tem a audácia de perguntar sobre o meu filho? As lembranças vieram como um vendaval, cada palavra dele, cada gesto de descaso. E agora ele estava aqui, como se tivesse algum direito. — Você nunca vai ver ele. Nunca. — Eu cuspi as palavras, meu tom cortante. — Você não tem nenhum direito sobre ele. Nenhum! Por um instante, ele pareceu surpreso. Mas então, algo mudou em sua expressão. A suavidade falsa desapareceu, substituída por algo mais sombrio. Antes que eu pudesse reagir, ele deu um passo à frente e agarrou meu braço com força. A dor foi instantânea, mas foi a frieza em seus olhos que me deixou verdadeiramente assustada. Olhando calmamente as pessoas que me observaram ao aumentar o tom de voz. — Você acha que pode me afastar assim, Stella? Que poder fazer um escandalo com meu nome em sua boca? — Ele sibilou, sua voz baixa o suficiente para que só eu pudesse ouvir. — Sei que você não tem onde cair morta. Sei que depende de alguém para sobreviver. Se eu quisesse, poderia tirar seu bebê de você. Minha respiração parou. O sangue gelou nas minhas veias, e meu corpo inteiro ficou paralisado. — Henrique, me solta. — Consegui dizer, minha voz trêmula, mas ainda assim cheia de determinação. Ele segurou meu olhar por mais alguns segundos, como se estivesse avaliando o impacto de suas palavras, e então me soltou bruscamente. — Você não vai fugir de mim para sempre. — Ele disse antes de virar e se afastar, desaparecendo pelo final do corredor como uma sombra. Fiquei parada ali, as pernas bambas, o braço ainda latejando onde ele havia me segurado. As palavras dele ecoavam na minha mente, uma ameaça que parecia se infiltrar em cada parte do meu ser. As pessoas passavam por mim, algumas me olhando com curiosidade, mas eu não conseguia me mover. Minhas mãos tremiam tanto que precisei me apoiar no carrinho para não cair. Ele tinha ido embora, mas a sensação de perigo permanecia. Eu sabia que precisava sair dali. Mas, antes disso, precisava recuperar o controle. Precisava respirar. E, acima de tudo, precisava proteger meu filho. Busquei o celular com as mãos tremendo, quase não consegui respirar e liguei para a unica pessoa com quem me sentia segura.
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