A sala de reuniões estava cheia, o ar pesado com a mistura de perfumes caros e a tensão de quem esperava uma resposta minha. Os acionistas se revezavam apresentando números, gráficos e estratégias para expandir nossas operações no Brasil. Era o tipo de reunião que eu normalmente apreciava, mas hoje minha mente insistia em vagar.
Stella.
Deixá-la sozinha pela primeira vez em semanas me parecia errado, mesmo que ela tivesse insistido que estava bem. Ela precisava de tempo para si, eu sabia disso, mas isso não significava que eu não me preocupava. Eu sei que ela não aceitaria que eu continuasse a seguindo pelo apartamento, garantindo que não estava rapido demais.
A última vez que algo me tocou assim foi a notícia da minha filha. Georgia foi a última coisa que me tocou verdadeiramente, que mudou meu coração completamente. Agora Stella parecia ter sido enviada diante de todas orações da minha avó e agora meu coração pedia para conversar com ela.
Contar que depois de todas as suas insistências, depois que eu já tinha me fechado, o destino saltou na minha frente diante de um elevador.
— Matteo? — A voz de Fiolla me trouxe de volta à sala. Minha irmã estava sentada ao meu lado, o rosto levemente franzido enquanto esperava minha opinião sobre a última proposta.
Endireitei-me na cadeira, ajustando o paletó.
— Vamos avaliar todas as propostas detalhadamente. — Disse, minha voz firme e decisiva. — Agradeço o empenho de todos, mas preciso de tempo para decidir qual será a melhor abordagem para nossa expansão. A empresa retornará com uma resposta em breve.
Os rostos ao redor da mesa assentiram, alguns mais satisfeitos que outros. Não era uma decisão definitiva, mas o suficiente para encerrar a reunião. Tínhamos seis investidores interessados em levar a Fiori para as suas cidades, insistentes e esperançosos.
Assim que a sala começou a se esvaziar, levantei-me e saí para o corredor com Fiolla ao meu lado.
— Eles estão animados, não estão? — Ela comentou, um sorriso empolgado surgindo em seus lábios.
— Muito. — Respondi, embora minha mente ainda estivesse longe.
— Você tem que admitir, algumas dessas ideias são boas. Se fizermos isso direito, podemos alcançar algo enorme aqui no Brasil.
Fiolla sempre tinha essa energia contagiante, mas hoje eu não conseguia acompanhar. Minha cabeça estava cheia de outra coisa. Ou melhor, de outra pessoa.
Antes que eu pudesse responder, meu telefone vibrou no bolso. Peguei o aparelho, vendo o nome de Stella na tela. Meu coração deu um salto, uma mistura de alívio e preocupação me atingindo ao mesmo tempo.
— Stella? — Atendi rapidamente, minha voz mais tensa do que pretendia.
— Matteo... — A voz dela soou baixa, quase trêmula. — Você pode vir me buscar no mercado?
Meu corpo inteiro ficou alerta. Algo estava errado. Stella não era o tipo de pessoa que pedia ajuda tão facilmente, muito menos com algo tão simples.
— O que aconteceu? — Perguntei, tentando manter a calma enquanto a preocupação começava a crescer.
— Eu... Eu só preciso que você venha. — Ela hesitou, e pude ouvir o tom nervoso em sua voz.
— Estou a caminho. — Respondi sem pensar duas vezes, já virando para pegar o elevador.
— Matteo, o que foi? — Fiolla perguntou, percebendo minha pressa.
— Stella precisa de mim. — Foi tudo o que disse antes de apertar o botão do térreo.
— Stella? — ouvi minha irmã indagar, mas eu já estava no elevador.
Meu coração estava disparado enquanto o elevador descia, e minha mente já estava criando cenários. Stella soava assustada. Eu sabia que algo tinha acontecido, e a ideia de que ela pudesse estar em perigo fazia meu sangue ferver.
Assim que saí do prédio, entrei no carro e pisei fundo no acelerador. O trânsito de São Paulo parecia mais lento do que nunca, mas eu não conseguia pensar em nada além dela.
Algo estava errado, e eu iria descobrir o que era.
###
Assim que cheguei ao endereço que Stella me passou, estacionei o carro com pressa e saí, meus olhos procurando por ela entre as pessoas que entravam e saíam do mercado. O coração ainda estava acelerado, e a tensão em meu corpo era quase insuportável.
Então eu a vi.
Ela estava sentada em um dos bancos da cafeteria ao lado do mercado, os ombros curvados e as mãos tremendo levemente enquanto segurava um copo descartável. Parecia tão pequena ali, tão frágil, que algo dentro de mim se quebrou.
Aproximei-me devagar, não querendo assustá-la mais do que ela já estava.
— Stella. — Chamei suavemente.
Ela levantou os olhos para mim, e a expressão em seu rosto me fez congelar. Havia algo quebrado ali, uma mistura de medo e vulnerabilidade que eu não suportava ver.
— Matteo... — Ela começou, mas a voz falhou.
— Vem. — Estendi a mão para ela, ajudando-a a se levantar.
Ela hesitou por um momento, mas depois segurou minha mão. Sua pele estava fria, e isso só aumentou minha preocupação.
Sem dizer mais nada, guiei-a até o carro. Assim que a porta foi fechada, foi como se algo dentro dela cedesse.
— Ele estava aqui. — Ela disse, a voz saindo apressada e trêmula. — Henrique... Ele estava aqui.
Senti meu corpo enrijecer ao ouvir aquele nome. Respirei fundo, tentando manter a calma para não assustá-la ainda mais. Entendi de imediato que ela falava do pai de seu filho, o homem que eu não conhecia mais odiava.
— Me conta tudo, Stella. O que ele disse? — Perguntei, minha voz o mais controlada possível.
Ela começou a falar, as palavras saindo em um fluxo desordenado, como se estivesse tentando se livrar do peso delas o mais rápido possível. Contou sobre como o encontrou no mercado, sobre as perguntas dele a respeito do bebê e, então, sobre a ameaça que ele fez.
Cada palavra dela era como uma faca sendo cravada em mim. Meu sangue fervia com a ideia de alguém ameaçá-la, mas eu sabia que não podia deixar isso transparecer agora. Stella precisava de mim calmo. Forte.
Quando ela terminou, o silêncio encheu o carro, quebrado apenas pelos soluços dela.
— Ele disse que pode tirar meu bebê, Matteo. — Sua voz quebrou, e ela escondeu o rosto nas mãos.
Sem pensar duas vezes, me inclinei e a puxei para um abraço, envolvendo-a em meus braços como se pudesse protegê-la de tudo.
Ela se agarrou a mim, o rosto enterrado no meu peito enquanto chorava. Senti a umidade das lágrimas na minha camisa, mas não me importei. Tudo o que eu queria era que ela se sentisse segura.
— Ninguém vai tocar em você ou no bebê. — Minha voz saiu baixa, mas firme. Eu queria que ela sentisse cada palavra. — Ninguém, Stella. Não importa o que isso me custe.
Passei a mão pelo cabelo dela, murmurando palavras de conforto enquanto meu coração apertava com a dor dela. Ao mesmo tempo, uma decisão começou a tomar forma em minha mente.
Eu não sabia exatamente como faria isso, mas prometi a mim mesmo que Henrique nunca mais chegaria perto dela ou do bebê.
Não enquanto eu estivesse por perto.