Entrei no apartamento de Matteo ainda com o corpo tenso e as mãos trêmulas. Minha mente parecia presa naqueles minutos em que Henrique surgiu como um fantasma do passado, com seu sorriso ameaçador e aquelas palavras cortantes que pareciam me esmagar. Cada passo dentro do apartamento me lembrava o que ele havia dito, o tom de voz arrogante, como se tivesse algum direito sobre meu filho depois de tudo o que nos fez passar.
O coração martelava no peito, e eu tentava respirar fundo, mas o ar parecia pesado. Matteo segurava a porta aberta para mim, o olhar sempre atento, sempre buscando algum sinal de que eu iria desabar a qualquer momento. E, honestamente, eu poderia.
Ele não disse nada enquanto me guiava até o sofá, apenas me indicou com um gesto que eu me acomodasse. Fiz isso sem resistência, porque as forças tinham me abandonado assim que cruzamos aquela porta. Afundei nas almofadas e puxei as pernas para perto do corpo, tentando encontrar algum consolo no simples gesto de me encolher. Matteo voltou com um cobertor e o ajeitou sobre mim, como quem cuida de algo frágil.
— Eu já volto — disse ele, com a voz baixa, quase um sussurro.
Assenti, embora ele já estivesse indo para a cozinha. O som dos passos dele era suave, mas, naquele silêncio, ecoava como uma âncora. Minutos depois, ele voltou com uma xícara de chá fumegante e se agachou na minha frente.
— Aqui, Stella. Vai te ajudar a relaxar.
Aceitei a xícara com as duas mãos, tentando absorver o calor do chá. Era reconfortante, mas ainda não conseguia desviar os pensamentos da ameaça de Henrique.
— Está melhor? — Matteo perguntou, com aquele tom que era ao mesmo tempo firme e acolhedor.
Olhei para ele, sentindo meu peito apertar de novo, mas, desta vez, por um motivo diferente. O olhar de Matteo era tão cheio de preocupação que parecia um abraço.
— Não sei — admiti, quase em um sussurro. — Ele... ele disse que vai tirar meu filho de mim.
Minha voz falhou no final, e senti meus olhos marejarem. Matteo se ajeitou no chão, sentando-se ali na minha frente, como se não houvesse lugar mais importante para ele estar.
— Isso não vai acontecer — ele afirmou, sem hesitar. — Não enquanto eu estiver aqui.
Havia tanta convicção em suas palavras que, por um segundo, me permiti acreditar nelas. Matteo sempre parecia tão inabalável, tão seguro de tudo... mas isso era Henrique. Um homem que não sabia perder e que usava o que fosse necessário para ferir.
— Ele rejeitou a mim e ao meu filho, Matteo — murmurei, a voz carregada de mágoa. — E agora acha que pode só... aparecer e arrancá-lo de mim.
Matteo inclinou-se para mais perto, pousando uma mão sobre as minhas, que seguravam a xícara. Era um toque firme e, ao mesmo tempo, cheio de cuidado.
— Ele não tem esse poder sobre você, Stella. Nem sobre o seu filho.
Olhei para ele, querendo acreditar, mas o medo ainda estava lá, latente. Matteo não desviou o olhar, e eu quase podia sentir sua força me alcançando, tentando me puxar para fora do buraco escuro em que Henrique me jogara.
— Como pode ter tanta certeza? Nada do que me disser poderá me ajudar, não ouviu o que ele disse e no fundo Henrique está certo, como provar que posso cuidar dele?
Matteo ficou em silêncio por um momento, claramente ponderando algo. Então, endireitou a postura e cruzou os braços, como se estivesse prestes a me dizer algo que sabia que eu não iria gostar.
— Talvez haja um jeito... — ele começou, devagar.
— Que jeito? — perguntei, franzindo a testa.
— Um jeito de você provar que pode oferecer estabilidade para o seu filho. Mas vou avisar... você pode achar essa ideia meio maluca.
Meu coração disparou. O que ele queria dizer? Matteo raramente hesitava em expor suas ideias, mas agora parecia estar escolhendo cada palavra com cuidado.
— Matteo, o que você está querendo dizer? — insisti, com o peito apertado de curiosidade e nervosismo.
Ele respirou fundo, passou a mão pelos cabelos e, por fim, deixou escapar:
— Seja minha noiva.
Pisquei, achando que não tinha ouvido direito.
— O quê?
— Por um ano — ele continuou, como se estivesse explicando a coisa mais lógica do mundo. — Apenas um ano. Fingimos que estamos noivos. Isso vai mostrar para qualquer um, incluindo Henrique, que você tem apoio, estabilidade, e uma família por trás de você.
Fiquei olhando para ele como se tivesse acabado de crescer uma segunda cabeça.
— Você bateu a cabeça? É isso? — perguntei, completamente incrédula.
— Stella, estou falando sério.
— Você só pode estar brincando. Como é que... — Balancei a cabeça, tentando encontrar as palavras. — Matteo, isso não faz o menor sentido!
— Talvez faça. — ele se senta de frente comigo segurando minha mão. — Podemos nos ajudar. Minha avó está a ponto de vender sua parte na empresa para um desconhecido, pois acha que devo me casar para manter o nome da família. E você precisa de estabilidade, podemos ajudar um ao outro.
— Matteo, estamos falando da minha vida, de uma criança. O que vai dizer a eles? Vai assumir a guarda de um filho que não é seu? E depois? — prendo a respiração diante daquela besteira. — Quando eu ver que meu filho não veria os avós que se apegaram a ele? Ou quando sua família descobrir que esse filho não é seu?
Eu estava a ponto de chorar ao perceber que Matteo tinha tudo o que sonhei para o meu filho.
— Isso não vai acontecer. Stella eu gosto de você, de uma forma que nunca imaginei que sentiria novamente. — sua mão calorosa toca meu rosto. — Gosto da sua companhia, das nossas conversas e de imaginar que poderei ver a noss... A sua garotinha crescer.
— Não sabemos se é uma menina.
— Não importa o que for. Podemos tentar... — sua outra mão alcança meu rosto. — Vou cuidar e proteger vocês, eu prometo que nada faltará a ele, nada. E mesmo se nenhum sentimento surgir entre nós, serei seu amigo e pai dessa criança, até o fim dos meus dias.
Seu tom firme e carregado de esperanças preenche um vazio dolorido em meu peito, ao mesmo tempo quue me enche de duvidas e incertezas. Me pergunto se isso seria r**m? Ou se no fundo tenho esperanças de que alguém como Matteo se apaixone por mim.
— Matteo...
— Pode pelo menos pensar? Pode fazer isso e me dar a resposta amanhã.
Assinto, deixando que ele me abraçe e me aconchegue ao seu lado no sofá. A mão traçando carinhos preguiçosos em minhas costas me levando devolta para o meu lugar seguro. Pelo menos por agora.