Capítulo 05 Pietra

1309 Words
Pietra Narrando A favela ainda nem acordou direito e eu já tô no pique. O sol m*l esquentou o chão e eu já tava rodando no barraco igual peão, escolhendo roupa, separando maquiagem, checando cabelo… hoje é dia de baile, pørra. E não é qualquer baile, é baile no Morro dos Prazeres. Onde eu nasci, fui criada e agora… agora tenho que fingir que não tô apaixonada pelo homem que não posso nem olhar direito. Vida de filha do dono da p***a toda não é fácil, não. Depois dá uma geral na casa, tomei outro banho, pra revigorar, tava aqui me olhando no espelho quando escutei o grito lá da sala. — Chegueeeeeei! — era a Paola, aquela desbocada maravilhosa do Vidigal, filha da tia Ju e do tio Pantera. — Pørra, Paola! Vai assustar a quebrada toda! — gritei de volta, mas já tava indo lá fora abrir a porta, sorriso estampado no rosto. Ela entrou já pulando no meu pescoço, e logo atrás vinha a Manu, filha da tia Bia com o tio Kaká. Outra cria firmeza que cresceu comigo. — Prontas pra causar? — Manu perguntou, jogando a mochila no sofá e puxando uma cadeira. — Mais que prontas, minha filha. Hoje a favela vai parar, esquece — respondi, pegando três latinhas de refrigerante e entregando pras duas. — Vamos subir? — perguntei e as duas se olharam. — Tô na luta pra arrumar uma roupa babado pra esse baile. — Bora, porque eu acho que a Dona Pietra vulgo rainha tem muito que nos falar. — Menu falou pegando a mochila dela, Paola fez o mesmo. Subimos as escadas entrando no meu quarto. — Tá, agora senta aqui e desembucha — Paola falou, se jogando na cama do meu quarto como se fosse dela. — Que pørra foi essa que tu falou que ontem ia sentar… tu e o Bruno? — Ihhh, caralhø… — Manu arregalou os olhos. — O Bruno, filha? aquele coroa gostoso? Tu tá como? Voando baixo, hein. Eu sentei na beirada da cama e respirei fundo. As duas me encarando como se tivessem no tribunal. — Aconteceu, tá ligado? Foi forte, foi intenso. Eu juro que eu queria que ele me assumisse, mas o bagulho é doido. Desde piveta que esse homem mexe comigo. Ontem… ontem foi føda. — Tu deu pra ele? — Paola já soltou direto. — Putä que pariu, Paola! — ri, sem jeito. — Eu não vou mentir… dei não. Mas foi quase, mas ele representou no oral. — Falei e apertei uma perna na outra sentindo o meu corpo queimar só de lembrar. — Eu não entendo porque teu pai pega tanto no teu pé — Manu falou, coçando a cabeça. — Tu já é de maior, pørra. Suspirei, olhando pro chão. — Manu, o problema não é ser de maior… o problema é ser filha dele. Tu acha que o senhor PH vai aceitar qualquer um do lado da filhinha dele? Ainda mais um aliado que tem o triplo da minha idade? — Falei meu pensamento foi em várias conversas que eu tive com Bruno, em que ele não quer inimizade nem com meu pai nem com meu avô. — Engraçado, né? — Paola se meteu de novo. — Pra passar a røla na tua mãe quando ela tinha 18, ele não viu problema nenhum. Agora tu tá com 20, não pode escolher com quem quer ficar? É demais. — Isso que eu falo direto, mano! — ri, balançando a cabeça. — Hipocrisia da pørra. A gente se olhou e começou a rir, gargalhar alto. Era isso que eu precisava. Minhas amigas, meu barraco, essa energia. A noite ia ser pesada, mas eu tinha certeza… com elas do meu lado, eu enfrentava qualquer guerra. Depois da risada generalizada, nossas barrigas começaram a roncar tudo junto, parecendo tambor de escola de samba. — Na moral, tô morrendo de fome, e tu sabe que fome me deixa insuportável — Manu falou, levantando da cama com a mão na barriga. — Então bora pra cozinha, minha filha, porque se depender de mim, hoje tem rango digno de princesa da favela — falei, puxando as duas pela mão. Fizemos uma zona básica na cozinha. Esquentamos um resto de lasanha que minha mãe tinha deixado na geladeira, fritamos umas batatas, cortamos linguiça e fizemos um arroz rapidão. Ficou tudo uma bagunça, mas a comida ficou top. — Por isso que eu te amo, Pietra — Paola falou com a boca cheia. — Tu cozinha bem, deve trepa melhor ainda e ainda é gata. Bruno ganhou na loteria, mana! — Ai, para, mulher! — gargalhei, jogando um guardanapo nela. — Se meu pai escuta um bagulho desses, ele me interna. — Teu pai que lute — Manu disse. — Se fosse por ele, tu ainda tava brincando de boneca. Depois do rango, fomos direto pro quarto. Era hora da transformação. Jogamos várias roupas na cama, abrimos as maquiagens tudo, colocamos um funk no último volume e o quarto virou camarim de baile. — Essa aqui, ó — Paola disse, segurando um vestido curtíssimo vermelho. — É a minha cara, né? — A cara da ousadia, né? — brinquei, ajeitando meu cropped preto com brilho. — Tu vai passar raiva com o Davi hoje, certeza. — Ai, amiga — ela bufou, sentando na cadeira pra começar a fazer a maquiagem. — Eu sei que vou. Mas que que eu posso fazer? Aquele homem mexe comigo de um jeito… — Tu ainda tá nessa? — falei, arqueando a sobrancelha. — Mulher, parte pra outra. Davi é gostoso, mas nasce putãø. Só entrega metade a outra metade e da putarïa. — Nasce putãø mesmo, mas quando resolver mostrar o lado homem… — Paola fez uma cara de safadä. — Eu esqueço até do meu nome. — Tu é muito trouxa, na moral — Manu falou rindo, colando os cílios. — Mas eu entendo. Também tenho minhas quedas por homem safadø. — E você, Manu, vai pegar quem hoje? — perguntei, passando iluminador no rosto. — Eu? Hoje eu só quero dançar, me embriagar e rir da cara dos boys. Coração blindado! — Essa aí tá igual a Maíra na juventude — Paola falou, rindo alto. — Se duvidar, puxou mais a tua mãe do que tu mesma, Pietra. — Credo, não fala isso! Minha mãe é uma lenda, mas eu ainda tô tentando entender esse bagulho de amor… Bruno mexeu comigo de um jeito que ninguém nunca mexeu. Mas olha a situação… escondida, fingindo que nada aconteceu. Eu hein. — Por isso mesmo que hoje a gente vai causar — Manu falou decidida. — Vamos meter a melhor maquiagem, melhor look e mostrar que as filhas das cria também são as rainhas dessa p***a. — Esquece! — falei animada, batendo na mão das duas. — Hoje é nosso dia. O espelho tava pequeno pra tanta marra. E no fundo, eu já sentia… essa noite ia dar merda ou ser inesquecível. Depois de finalizarmos os retoques, passamos aquele perfume que chega primeiro que a gente. O som do batidão já ecoava lá fora e o coração parecia até seguir o ritmo. — Bora, minhas gostosas — Paola falou ajeitando o decote. — Hoje a gente vai deixar rastro de fogo nesse baile. Saímos do barraco como se fosse passarela.Cada uma com sua marra, salto alto batendo firme no chão, rindo alto, prontas pro que viesse. A quebrada olhava, os muleques cochichavam, e a gente? Seguia com a postura de quem sabe o poder que tem. — Só quero ver quando a Tropa dos Prazeres nos ver chegando — Manu falou, mordendo o lábio com deboche. — Eles que se preparem — falei sorrindo. — Rainhas tão a caminho do QG. E assim, descemos o beco iluminadas pela lua e pela certeza: essa noite prometia. Continua...
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